O vinho é o alimento mais arraigado na cultura e na história de toda a humanidade, o mais carregado de simbologia. O nobre fermentado é um verdadeiro universo, não apenas pela complexa riqueza de estímulos sensoriais e intelectuais que proporciona, mas também por seus sete mil anos de história. Ao longo do tempo, o vinho foi a bebida de reis, nobres, filósofos, poetas e cientistas. Foi também alimento para o povo e meio de vida para muitos. Nas últimas décadas o mundo viu uma verdadeira revolução na indústria do vinho.
Até os anos 70, os vinhos de qualidade eram apenas os famosos e caros (quase todos franceses), só para os ricos. Os demais produtos eram inferiores e cumpriam a função de bebida nutritiva, principalmente para os camponeses e classes trabalhadoras. Desde então, a produção, a qualidade e o consumo do vinho se espalharam por todo o mundo e por todas as classes. O comércio mundial da bebida viveu um verdadeiro boom. Quais, porém, os fatores que operaram essa mudança do papel do vinho na recente história do homem?

Paradoxo Francês
Em primeiro lugar, o vinho, que na antiguidade era considerado um grande remédio, foi recentemente redescoberto como tal. No início dos anos 1990, um estudo científico muito divulgado nas mídias de massa, provou que o vinho tinto consumido com moderação e regularidade reduziria em 50% os acidentes coronarianos. Esse estudo foi chamado de "paradoxo francês", pois foi feito na França, onde o consumo de gorduras saturadas é grande e o índice de problemas cardíacos baixo. O trabalho foi o estopim que detonou uma série de outros estudos semelhantes que, a cada dia, estendem a lista sempre crescente dos benefícios do vinho à saúde.
Globalização
O capitalismo e a globalização, com todas as suas implicações polêmicas, ajudaram a disseminar a cultura e a técnica da elaboração do vinho por várias regiões do mundo. Novos mercados foram criados e a classe média começou a se interessar pelo néctar de Baco. A tecnologia aprimorou-se, desde o plantio da uva até sua transformação em vinho. Tudo isso fez com que a qualidade média do vinho produzido no mundo inteiro aumentasse, propiciando o surgimento de muitos exemplares com boa relação qualidade- preço, principalmente fora da Europa.
Revolução individual
Esse crescimento não se deve apenas a fatores econômicos ou motivações de ordem médica. Há também motivos filosóficos, culturais, sociais e psicológicos. Vivemos uma era hedonista, onde o homem, que perdeu a fé nas revoluções sociais, busca sua revolução pessoal. Ao mesmo tempo, o mundo se globalizou e nos mostrou o contraste entre o local e pessoal e o "globalizado" e sem identidade. E o que é o vinho senão um gosto local que viaja o mundo dentro de uma garrafa?
O vinho é a bebida do nosso tempo, a que melhor se adapta à vida do homem contemporâneo, por sua infinita diversidade e poder de unir as pessoas em torno de uma garrafa. O homem de hoje vive à procura de sensações, de emoção. Cada vez mais busca um equilíbrio entre sensibilidade e inteligência. E qual bebida melhor inspira harmonia entre razão e emoção? Como disse o escritor norte-americano Clifton Fadiman "Eu não conheço nenhum outro líquido que, colocado na boca, force você a pensar".
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