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| Noite em Verona |
O Vêneto é a região italiana que mais produz vinhos. No nordeste do país e com capital na bela Verona, os 75 mil hectares de vinhedos cultivados geram ao ano nada menos do que 850 milhões de litros, número equivalente a três vezes o total da produção brasileira. Alguns vinhos são bastante populares por lá, como o Prosecco, o Soave, o Bardolino e o Valpolicella. O grande vinho vêneto, também considerado um dos maiores da Itália, porém, é outro. Chama-se Amarone della Valpolicella, ou, para que não seja confundido com o primo mais humilde, apenas Amarone. A confusão se dá não apenas pelo nome, pois geograficamente a zona de produção do Valpolicella é exatamente a mesma do Amarone. Trata-se de um conjunto de suaves colinas ao norte de Verona, entre as cidades de Grezzana e Sant'Ambrogio di Valpolicella. As uvas também são as mesmas e pela legislação italiana devem ser: 40% a 70% de Corvina, 20% a 40% de Rondinella, 5% a 25% de Molinara, até 15% de Rossignola, Negrara, Barbera ou Sangiovese e até 5% de outras variedades. Na realidade, os Valpolicellas e os Amarones são feitos apenas com Corvina, Rondinella e Molinara. A primeira dá cor, caráter e maciez; a segunda contribui com a estrutura, e a terceira com a acidez e um delicado toque amargo.
Mesmo com toda estas afinidades, o Valpolicella é quase sempre um vinho leve e modesto, com 11% ou 12% de teor de álcool, e o Amarone é bastante concentrado e seu teor alcoólico é mais elevado - nunca menor do que 14%, e pode chegar aos 17%. O que gera a diferença entre os dois estilos é o método de elaboração, bem distinto de outros vinhos.
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| Vêneto, regîão situada ao norte da Itália |
Enquanto o Valpolicella é feito como qualquer vinho de mesa, o Amarone é "turbinado" por um procedimento conhecido como apassimento. A técnica consiste em deixar as uvas em caixas ou esteiras de quatro a cinco meses, em vez de serem esmagadas e fermentadas após a colheita. Durante este período, os frutos perdem cerca de 35% de seu peso - tornado o vinho, automaticamente, mais caro - e se tornam mais concentrados em perfumes, elementos gustativos e açúcares. As uvas adquirem um caráter resinoso não observado nas fermentações convencionais , e se convertem em um vinho de elevado teor alcoólico.
Um outro fator pode afetar a bebida. Eventualmente, em anos mais úmidos, alguns cachos são atacados pelo fungo Botrytis cinerea, também conhecido como "podridão nobre". Esse ataque é sempre bem-vindo pois imprime mais maciez, complexidade e intensidade aromática ao vinho.
Em janeiro ou fevereiro, a fermentação finalmente acontece, com longa maceração (contato do suco com as cascas da uva). O vinho é amadurecido, por lei, em barris de carvalho durante um período mínimo de 25 meses. O barril tradicionalmente utilizado é de tamanho grande (cinco mil litros), e de madeira usada. Alguns produtores já começam a usar recipientes menores de madeira nova, imprimindo aos seus produtos um estilo mais moderno. Esse estágio em madeira pode chegar a 48 meses. Antes de chegar ao mercado, o vinho descansa em garrafa por um ano. Este tempo em barricas confere a todos os Amarones um típico toque de oxidação.
A origem do Amarone se perde no tempo. A hipótese mais aceita é a de que ele nasceu de outro vinho da região atualmente muito pouco produzido, o Recioto della Valpolicella, ou apenas Recioto. O nome vem de uma corruptela da palavra italiana orecchio (orelha), pois ele é feito somente com a parte mais madura dos cachos de uva, ou seja, sua extremidade, ou "lóbulo". O Recioto é resultante do apassimento de uvas, com cerca de 15% de álcool e açúcar residual, e, portanto, é um vinho doce. O Amarone teria nascido de um Recioto que fermentou completamente, processo que desenvolveu um estilo mais alcoólico e seco.
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| Apassimento: Amarone "turbinado" |
Tanto os Amarones como os Valpolicellas comuns podem trazer no rótulo o termo "Classico", significando que a garrafa foi produzida na zona central da região, nas localidades de Fumane, Marano di Valpolicella, Negrar, San Pietro in Cariano e Sant'Ambrogio di Valpolicella.
Ao ano são comercializadas cerca de 4, 5 milhões de garrafas de Amarone. Os melhores anos das últimas décadas para este vinho são: 1983, 1988, 1990, 1995, 1997, 1998, 2000 e 2003. Também são boas safras 1993, 1994, 1999 e 2001.
Em seu estilo, o Amarone é encorpado, intenso, tanto nos perfumes quanto nos sabores. E alcoólico. Tão alcoólico que, embora seco, dá a sensação de uma certa doçura. Normalmente, apresenta boa complexidade aromática com florais (violeta e outras flores vermelhas, às vezes flores secas), frutas (frescas, passas e cristalizadas), frutas secas (avelãs, nozes e amêndoas) e um toque típico de oxidação. Com anos de garrafas se desenvolvem matizes de especiarias (canela, nozmoscada), além de couro, tabaco, trufa e outras notas de evolução. No palato, os taninos são educados pelos anos de madeira. O álcool se faz presente, nos melhores exemplares com harmonia e, em outros, se sobrepõe. Um característico toque amargo pode aparecer no fim de boca.
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| Condições atmosféricas ideais |
Um Amarone pode ser bebido jovem, com quatro ou cinco anos de idade. Nada impede, entretanto, que uma garrafa repouse na adega até 20 anos. Alguns exemplares de boas safras e bons produtores vivem até mais. Para servir um Amarone, é obrigatório que o líquido passe ao menos uma hora respirando numa jarra ou decanter.
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