O crescimento do interesse pelo vinho, fenômeno que contagiou os brasileiros nos últimos anos, trouxe consigo novos hábitos à mesa. Há 10 anos, se via em cada mesa de restaurante garrafas de whisky e refrigerantes e, na sobremesa, o indefectível licorzinho. Hoje, sem dúvida, o vinho reina. Multiplicamse em todo o país os eventos em torno do fascinante e inesgotável tema "como unir vinho com comida", são os ditos "jantares harmonizados", "wine dinners", "menus compatibilizados" etc. A razão é simples, nenhuma outra bebida acompanha tão bem as refeições. Enquanto a cerveja e os destilados se prestam mais a degustações, digamos, solteiras - sem acompanhar alimentos -, ou escoltando petiscos, o nobre fermentado, por seu teor alcoólico médio e suas muitas nuanças, é um casadoiro por natureza. Enquanto outras bebidas são celibatárias, o nobre fermentado é um verdadeiro Don Giovanni (também conhecido como Don Juan) da gastronomia, conquistando sempre a companhia de novos pratos. Em mesas civilizadas, a única outra bebida admitida seria a água, que cumpriria o papel de Leporello, fiel criado de Don Giovanni, que na ópera de Mozart, sempre prepara o terreno para as seduções de seu mestre.
Mas como proceder a compatibilização ou harmonização de vinhos com alimentos? Estas núpcias já deram muito o que falar, mas a discussão quase sempre se restringe a uma abordagem cartesiana e simplificadora. O usual "o que vai bem com o que" não educa e limita um tema de complexidade fascinante.
Inicialmente, o que é "casar" vinhos e alimentos? Neste, como em qualquer matrimônio, busca-se um encontro sinérgico, onde as partes se completem, em equilíbrio e harmonia. Este é um equilíbrio delicado, dinâmico, e, por vezes, efêmero. Nas relações amorosas, quando a balança pende para um lado é inevitável magoar a quem se ama. No conúbio gustativo, a vítima é o paladar.
Se os riscos são tantos, por que então se pratica este esporte? Porque ele pode transformar um ato cotidiano, como uma simples refeição, numa fonte inesgotável de prazer sensorial e intelectual. E quais são as regras deste jogo? O preceito geral é renovar o prazer a cada gole e a cada garfada. Ao longo de uma refeição, nossos sentidos tendem a perder a sensibilidade.
Em uma degustação solteira, o segundo gole do mesmo vinho já não será mais uma surpresa, o décimo poderá ser monotonia. Se interpusermos garfadas de um prato com características que se combinem às do vinho, este quebrará o marasmo e cada porção será um prazer renovado. Para tal, alimento e bebida precisam ter personalidades compatíveis e se equivaler em sabor. Por exemplo, associar um Amarone (tinto de grande corpo) a um linguado grelhado com ervas frescas, significa oprimir o peixe e banalizar o vinho. Do mesmo modo, escoltar um Chablis (vinho branco delicado) com javali assado ao molho de pimenta verde tornará o vinho irrelevante e a caça pedante. Já se fizermos um sábio swing nestes casais...
Mas como achar o par ideal? Existem duas normas básicas para isso: similaridade e contraste (este o mais eficaz). A primeira combina, por exemplo, vinhos doces com alimentos doces. No mesmo exemplo, o contraste indicaria vinhos doces para alimentos bastante salgados ou picantes. Como em casais que têm muitas afinidades, mas também aspectos "opostos que se atraem", ou que se completam. No vinho, uma combinação clássica, por exemplo, é o Vinho do Porto (doce) com queijos azuis, como o Roquefort, que têm sabor pronunciado ou, se estivermos em Portugal, com o inigualável queijo da Serra da Estrela.
Para fazer este enlace com ciência precisamos proceder como numa agência matrimonial e analisar a personalidade de cada um dos candidatos. Quem nunca bancou o cupido, apresentando amigos solteiros que julgamos ter "tudo a ver"? Harmonizar é o ápice de uma educação em vinhos e em gastronomia, pois cada característica da bebida e do alimento deve ser cuidadosamente estuda. Assim como existem infinitos tipos de pessoas, com diferentes aparências e personalidades, existem incontáveis tipos de vinhos e de alimentos, e maneiras de prepará- los. As possibilidades de combinação entre pessoas ou alimentos e bebidas é tão complexa quanto fascinante, e o par-perfeito, em ambos os casos, é um nirvana que se deve sempre buscar.
Algumas dicas de como funciona
A tanicidade dos tintos, aspereza que nos seca a boca, requer a suculência (um bife sangrento, por exemplo) para umedecer o palato - esta é a base teórica da típica combinação: "carne vermelha com vinho tinto". Qualquer prato com alto nível de sabor implora por vinhos encorpados e de igual porte. A maciez ou redondez nos vinhos (sensação tátil dada pela doçura e pelo álcool) se contrapõe à aspereza da acidez dos alimentos. Logo, alimentos ácidos pedem vinhos doces ou alcoólicos.
A intensidade de aromas de um vinho exige que o alimento também seja aromático. Lembrando que pratos aromáticos, por suas especiarias, normalmente causam sensações tácteis. Exemplo: pimenta. Para tal, recomenda- se que além de aromático o vinho também seja macio (com bom teor de álcool e/ou açúcar). Para pratos orientais, como comida Tailandesa, picantes e aromáticos, recomenda-se brancos perfumados e macios, como um Gewürztraminer da Alsácia ou um Sauvignon Blanc da Nova Zelândia.
O teor de álcool na bebida, que se exprime em sua fluidez, sugere untuosidade ou cremosidade no alimento. Para uma entrada de sopa cremosa, que tal um Jerez seco?
Pratos gordurosos são enfrentados com vinhos acídulos ou efervescentes. É o caso de um Vinho Verde (da região do Minho - norte de Portugal), que permite toda a untuosidade de uma receita típica de bacalhau. A doçura no alimento pede igualmente vinhos de boa acidez ou efervescentes. Nesta linha, um espumante ameniza a doçura do bolo da noiva.
Alimentos com sensações amargosas - alcachofra, chocolate - são noivados difíceis. Estas personalidades fortes tendem a dominar a relação e, portanto, para não "arrumar briga", o ideal é conceder um vinho macio e não tânico. Uma maneira de formar casais felizes seria usar um nobre vinho do Porto, do tipo LBV, para galantear uma sobremesa de chocolate e um branco macio, mas sem muita personalidade, para fazer as vontades da alcachofra.
Algumas dicas são importantes: lembre-se de observar todos os ingredientes do prato (molhos, acompanhamentos etc); com alguns alimentos simplesmente há casório com vinho, ou as bodas são atribuladas podendo resultar em litígio, como uvas, frutas cítricas, vinagre, picles, aspargos, sorvete; a tradição é uma grande guia - combine pratos da região com vinhos da região, são clássicos que os séculos se encarregaram de aperfeiçoar.
Algumas Harmonizações Clássicas de Vinhos e Queijos por Guilherme Corrêa |
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- Camembert - tintos pouco tânicos como os crus de Beaujolais - Emmental - tintos de média estrutura, Pinot Noir - Fondue (queijo) - brancos estruturados e com boa acidez - Gruyère - tintos de média estrutura, Pinot Noir - Queijo da Serra da Estrela - Porto Vintage - Queijo de cabra fresco - Sancerre ou outros Sauvignon Blancs - Queijos curados - Amarone della Valpolicella - Roquefort - brancos de sobremesa ou tintos fortificados | |
Costuma-se dizer que o Champagne e outros vinhos espumantes são curingas que vão bem com tudo, é verdade? Neste contexto, onde o vinho seria o Don Juan das bebidas, o Champagne seria o próprio deus Príapo, fruto da união de Afrodite com Dionísio. Por ser um "branco com alma tinta", com boa estrutura e ótima acidez, o nobre espumante se liga com desenvoltura a uma gama abrangente de receitas. Mas para ter toda uma refeição escoltada por perlage, o indicado é utilizar mais de um tipo de espumante. Que tal um blanc de blanc para a entrada, um brut para o primeiro prato, um rosé para o prato de resistência e um demisec para o doce?
Lista de sugestões são cansativas e poderiam se estender à exaustão. É impossível limitar-se a fórmulas em uma realidade tão complexa e de caráter profundamente pessoal. Portanto, vale uma dica importante: crie suas próprias harmonizações, faça experiências, afinal, os clássicos começaram assim. E a dica fundamental: jamais beba o que você não gosta ou coma o que você não quer só para fazer a combinação ideal. Antes de lembrar as regras, lembre-se do motivo delas.
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