
Lugar de mulher é pilotando um fogão. O ditado, além de politicamente incorreto, é uma falácia. Ninguém em sã consciência, e sintonizado com o mundo, ousaria dizê-lo impunemente, pelo menos nos países ocidentais. Países tradicionalistas, como a Alemanha, são comandados por mulheres. Um exemplo mais próximo: o Chile é liderado por um representante do sexo feminino. E esta tendência não é apenas na política.
Várias áreas econômicas já se renderam aos encantos da mulher. A saia já substitui a gravata em cargos importantes de diversas empresas privadas. No mundo do vinho não é diferente. As mulheres brilham cada vez mais e conquistam o mercado internacional com vinhos que aliam sensibilidade e elegância.
 |
| A enóloga Maria Luz Marin produz o melhor Pinot Noir chileno |
No início de agosto, desembarcou no Brasil a portuguesa Filipa Pato, que seguiu os passos do pai na formação universitária em química e, como ele, deixou o mundo dos átomos para se dedicar ao vinho. Em sua presença, um ditado sempre vem à tona: "Filha de Pato, Patinho é". O trocadilho é justificado quando se degusta os vinhos produzidos por ela. Seu pai, Luís Pato, é um dos enólogos mais prestigiados de Portugal, com elogios constantes da renomada crítica inglesa Jancis Robinson, mais uma mulher no mundo do vinho. Com formação em Bordeaux e estágios na Argentina, Filipa promete superar o pai. Ela imprime raça e modernidade aos seus vinhos, produzidos em duas tradicionais regiões portuguesas, Dão e Bairrada. Os destaques de Filipa - e das outras enólogas mencionadas na matéria - podem ser conferidos, em destaque, na seção Cave, entre as páginas 72 e 81.
Outra enóloga que passou pelo país, na segunda semana de agosto, foi a elegante Maria Luz Marin, que escolheu para seu primeiro projeto a região chilena do Vale de Leyda, situada no Vale de Santo Antonio, ao sul de Valparaiso.
A escolha, por si só, já demonstra a força da intuição feminina. Atualmente a região está entre as duas grandes descobertas vitivinícolas do Chile nos últimos anos, junto com o Vale de Limarí, ao norte. A proximidade com o mar e as brisas marítimas criam condições excepcionais para a plantação de algumas variedades, como a Sauvignon Blanc, a Chardonnay, a Syrah e, principalmente, a Pinot Noir. E adivinhe quem produz, no Chile, os melhores vinhos com essa última variedade? Isso mesmo, a Casa Marin, de Maria Luz.
Se por um lado Filipa representa a juventude e a força de um país que precisa de mudanças, por outro Maria Marin é uma empresária e enóloga que decidiu produzir vinhos de exceção em um dos países que mais cresce na produção de vinhos especiais em todo o planeta. Mas os exemplos não param por aí. A encantadora Madame May Eliane de Lencquesaing, proprietária do maravilhoso Chateau Pichon Longueville Comtesse de Lalande, é a única mulher - proprietária e produtora de vinhos - que ostenta o título de Men of the Year, da revista inglesa Decanter. Sua história é impressionante. Ela foi casada com um general francês e fez parte da resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial.
As deliciosas histórias de May Eliane, que teve seu Chateau invadido pelos nazistas durante o conflito, se encontram no livro Vinho e Guerra do Casal Kladstrup (Jorge Zahar, R$ 36). A paixão de Madame May Eliane por seus vinhos encanta qualquer apreciador de vinho... e de história.
Na última vez que estive com ela, discutimos os preços exorbitantes da safra 2000. Com muito jeito e elegância, ela me disse, quase aos sussurros: "Fique tranqüilo, pois nosso 2001 é tão espetacular quanto o 2000". Tive o privilégio de provar esse vinho que, mesmo jovem, já mostrava seu potencial. No início de agosto, por causa desta matéria, tive o prazer de degustálo novamente. A sinceridade e a dica de Madame May Eliane me tocaram. Estamos diante de um vinho espetacular. Outra dica de Madame May é sempre comprar os deuxième vins (segundo vinho) de grandes produtores.
Ainda em Bordeaux, uma mulher empresta a sua imagem a um dos vinhos mais emblemáticos do mundo, o "Chateau Mouton Rothschild". A Baronesa Philippine de Rothschild é filha do lendário Baron Philipe, um dos maiores ícones do mundo do vinho. A história que Philippine traz da Segunda Guerra Mundial é mais dramática do que a de Madame May. Capturada pelos nazistas, sua mãe faleceu em Ravensbruck, em 1945. Philippine herdou do pai a personalidade excêntrica e conseguiu manter o prestígio do "Chateau Mouton Rothschild" após a morte do barão, em 1988. Falar desse vinho é "chover no molhado".
Além do Mouton, ela produz na mesma região os prestigiados "D'Armailhac", ex-Chateau Baronne Philippe, e "Clerc Milon", que está entre os vinhos de melhor custo benefício de Bordeaux. Ela também possui um belíssimo empreendimento no sul da França (Languedoc, Roussillon), onde produz vinhos muito interessantes em parceria com produtores locais. Tudo isso sem contar o ordinário e famoso "Mouton Cadet", o vinho de volume da marca. Além de produzir bons vinhos, o projeto do sul da Franca tem caráter social de destaque internacional. A baronesa vende barricas de 250 litros e engarrafa os vinhos com o nome do proprietário. O valor arrecadado da venda das barricas é doado para projetos sociais. Não bastasse o desafio em seu próprio país, a baronesa deu seqüência ao projeto franco-americano de seu pai no famoso e contestado Opus One, na Califórnia, em parceria com Robert Mondavi, e no suntuoso projeto Almaviva, no Chile, em parceria com a família Guilisasti da Concha y Toro.
PÁGINAS :: 1 | 2 | Próxima >>