O cinema descobriu o vinho e o vinho descobriu o cinema. Este flerte tem rendido bons casamentos. Nos últimos anos, o vinho transformou-se na telona em badaladas produções, como Sideways – Entre umas e outras (Sideways, EUA, 2004), Mondovino (Mondovino, França, 2004) e o recente Um bom ano (A good year, EUA, 2006). Enquanto isso, personalidades da sétima arte encontraram no vinho uma outra forma de expressão, agora como felizes proprietários de vinícolas, como Gerard Depardieu, Lorraine Bracco, Sam Neill e Francis Ford Coppola.
Existe alguma analogia entre essas duas formas de arte? ADEGA propõe guardar nossos microscópios, usados em seções mais técnicas, e utilizar uma grande angular. Vamos articular a linguagem cinematográfica e relacioná-la com a linguagem do vinho, de modo a renovar e ampliar nossa visão sobre essas duas importantes formas de sermos humanos.
O cinema surgiu no final do século XIX como o “olho mecânico”, no qual o uso da energia elétrica e de um processo químico (de imprimir uma imagem em uma película) tinha papel central. Essa moderna máquina era capaz de capturar pedaços da realidade, a vida como ela é, uma arte objetiva e neutra, na qual o homem, segundo um determinismo rigoroso, não interfere. O vinho em seus primórdios também era relacionado ao “real”, a verdade em sua essência, visão bem expressa na célebre frase de Plínio: in vino veritas (em português, a verdade está no vinho). Para os antigos gregos o néctar dionisíaco, ao mesmo tempo em que embriaga, traz lucidez.
Hoje os papéis desempenhados por cinema e vinho mudaram radicalmente. O cinema deixou de ser a arte do real para, no nosso mundo contemporâneo, tornar-se a mais lúdica das artes. No momento em que as luzes se apagam, o espectador entra em um sonho. O acender das luzes é quase como um despertar deste mundo onírico. O vinho, por sua vez, nas últimas décadas deixou de ser a bebida alimentar popular para associar-se ao prazer hedonista (e também lúdico) da viagem dos sentidos.
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| Cena do filme Sideways |
Os elementos do cinema também têm reflexos no vinho. Atores são como uvas, alguns chegam a ser divas. A Chardonnay seria uma Greta Garbo, que se impõe e em todos os filmes faz um mesmo personagem com pequenas nuanças. Outros conseguem imprimir talento com versatilidade. Um Cabernet Sauvignon seria um Laurence Olivier. Este mito britânico brilhou tanto em Shakespeare como em comédias contracenando com Marilyn Monroe. E claro, há os simpáticos canastrões. Clark Gable tem ares de Carménère, pois agrada, impressiona, mas raramente chega a complexidade e profundidade dos grandes intérpretes. A Tannat lembra Sylvester Stallone, ambos são mais marcados pela força rústica do que pela simpatia ou elegância, palavra mais associada a Pinot Noir na taça e a nomes como David Niven ou Audrey Hepburn, na tela.

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