 |
| Em Casablanca, os personagens Rick e Ilza degustavam champagne no Café Americain |
Em seus primórdios, o vinho raramente era bebido puro. Os antigos gregos consideravam o consumo do fermentado, em seu estado natural, uma prática de bárbaros, avessa ao bom gosto. O néctar de Dionísio era diluído em água (normalmente do mar), adoçado com mel e temperado com as mais diversas especiarias. Preparar o vinho era uma verdadeira arte, destinada aos symposiarcas, os primeiros sommeliers ou bartenders da história. Ao que parece, essas misturas à base de vinho talvez tenham sido os primeiros coquetéis de que se tem notícia. Daí em diante, a criatividade dos bebedores foi amplamente usada a serviço das misturas, e não se limitou a usar apenas vinho como base alcoólica. Alguns drinques tornaram-se clássicos, quase tão importantes quanto a bebida pura que lhes serve de base.
Mas todo amante de coquetéis sabe: um drinque, para tornar-se famoso, precisa ter berço e história, como uma espécie de certidão de nascimento ou carteira de identidade. Os verdadeiros clássicos costumam ter muitos inventores, reproduzir várias “receitas originais” e estar cercados de lendas. Não raro, é impossível determinar com precisão a verdadeira origem.
 |
| O comediante George Burns era fã de Blood Mary |
Muitos surgiram de fatos curiosos, como o Sidecar (conhaque, suco de limão e Cointreau). Foi criado em 1931 por Harry MacElhone, do Harry’s Bar de Paris, no dia em que uma moto se chocou contra o estabelecimento e quase o destruiu. Verdade ou imaginação inflamada, não importa. Com freqüência, as melhores histórias sobre coquetéis são pura ficção. Um bom exemplo é a versão da criação da caipirinha, deliciosamente relatada no best-seller “O Xangô de Baker Street”, de Jô Soares.
No romance policial, Dr. Watson, fiel companheiro de Sherlock Holmes, teria criado o coquetel brasileiro, por excelência, ao acaso. Na realidade, a batida, muito provavelmente, foi inventada quando alguém decidiu espremer limão e misturá-lo à cachaça como um remédio para aflições respiratórias. A tese mais aceita é a de que, a exemplo do que aconteceu com a angostura, o gim e alguns licores, a capirinha surgiu como remédio no final do século XIX ou no início do XX, em São Paulo. A hipótese tem fundamento na expressão caipira, que denomina os nascidos no interior e é típica do Estado de São Paulo.
Momentos de tristeza também motivaram a elaboração de misturas. Foi assim em 1861. Enquanto todos na Inglaterra choravam com a morte do príncipe Albert, um fiel súdito disse que, naquela data, até o Champagne deveria ficar de luto. Em seguida, serviu a bebida acrescida de cerveja preta. Estava criado o Black Velvet, ou veludo negro.
Outras mesclas favoritas à base do nobre borbulhante tiveram criações mais alegres. É o caso do Bellini, uma refrescante junção de suco de pêssego e espumante. O cenário era a Veneza do início dos anos 40, e o autor, Giuseppe Cipriani, do Harry’s Bar, que buscou inspiração no colorido das obras renascentistas de Giovanni Bellini.
Na galeria das misturas à base de espumante, quem reina é o Kir Royal (Champagne e licor de cassis). Criado por Canon Felix Kir, na França, a mistura inicialmente chamava-se apenas Kir e previa a utilização de vinho branco de mesa seco, mas, para ganhar nobreza, na versão “Royal”, substituiu-se o vinho de mesa pelo nobre espumante.
PÁGINAS :: 1 | 2 | Próxima >>