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Drinks cinematográficos
No clássico Casabalanca, Humphrey Bogart e Ingrid Bergman celebram o amor com drinks à base de champagne, e o Dry Martini foi popularizado pelo astro Clark Gable há mais de 70 anos

por Marcelo Copello



Combinações com Champagne nunca saem de moda e são tão clássicas como Casablanca. No cultuado film noir, o Café Americain é o palco para Rick (Humphrey Bogart) virar várias taças do vinho espumante junto da amada Ilsa (Ingrid Bergman). Ao fundo, o piano de Sam (Dooley Wilson). Quando não era apreciado puro, o Champagne se transformava no coquetel de Champagne, típico do sul dos Estados Unidos. Além do vinho gasoso, também estão na taça brandy, açúcar branco e gotas de angostura. A associação de clássicos do cinema com drinques tradicionais é o tema de Hollywood Cocktails, de Tobias Steed. Ricamente ilustrado, o livro traz fotos nas quais se pode ver toda a afinidade da fábrica de ilusões com a cocktail hour. Segundo o autor, “nos filmes, a hora do coquetel dava aos cineastas uma pausa na ação e uma possibilidade de desenvolver as narrativas. Era também, é claro, um momento de reflexão e de se refrescar”.

O cinema talvez não tenha criado, mas certamente ajudou a tornar memoráveis muitos drinques. O Dry Martini, por exemplo, deve muito de sua popularidade a Clark Gable. Em After Office Hours (1935), o galã ajudou a criar o hábito do happy hour e do mito do Dry Martini. Como outros coquetéis, esse ícone teria surgido ao acaso. Data do final do século XIX a versão mais aceita para a gênese. Numa espelunca, o barman Jerry Thomas teria improvisado este “rabo-de-galo” para saciar a sede de um viajante que estava a caminho da cidade de Martinez, na Califórnia. O cliente teria gostado tanto da novidade a ponto de desembolsar uma pepita de ouro para pagar a conta.

A receita é aparentemente simples: gim, vermute e uma azeitona para decorar. Basta juntar as bebidas numa coqueteleira, bater com gelo e servir coada. O segredo está na quantidade de vermute – quanto menos, mais “dry”. Muitos colocam apenas algumas gotas, outros, ironicamente, apenas sussurram o nome “vermute” para o copo. O cúmulo é colocar a garrafa de vermute ao lado deste, de modo que um raio de luz transpasse ambos perfazendo uma mistura espectral.

O ator Clark Gable: happy hour com Dry Martini

A fórmula foi tão disseminada que originou variações, como o Manhattan, em que o gim é trocado por bourbon e a azeitona, por uma cereja. Uma dama estaria por trás desta criação. De acordo com Steed em Hollywood Cocktails, a invenção aconteceu no início do século XX no New York’s Manhattan Club, a pedido de lady Randolph Churchill, mãe de Winston Churchill.

Fatos históricos desencadearam a criação de algumas combinações. O Daiquiri (rum, suco de limão e açúcar), por exemplo, era carregado pelos cubanos em cantis de couro atados à cintura. Os nativos se refrescavam com alguns goles entre a degola de um invasor espanhol e outro. Mais tarde, quando os americanos invadiram a ilha, fizeram-no pela praia de Daiquiri, batizando assim o célebre coquetel, que inicialmente consumiam medicinalment, sob o argumento de prevenir a febre amarela. Outra versão aponta ainda o engenheiro americano Jennings Cox, que teria vivido em Cuba no século XIX, como o inventor.

A ilha paradisíaca sempre foi rica fonte de mesclas a partir do rum, o destilado local. O preferido do escritor Ernest Hemingway era o Mojito (rum, suco limão, açúcar, folhas de hortelã e soda), que ele costumava beber fiado nos bares locais. Mais popular entre os moradores do recanto caribenho, porém, é a Cuba Libre, concebido por um soldado americano a serviço na ilha no início do século XX.

Entre histórica e curiosa está a criação da Marguerita, a mais notória miscigenação à base de tequila, acrescida de Cointreau e suco de limão e servida com uma franja de sal. Muitas lendas situam a invenção no velho oeste americano. A versão mais romântica conta que foi criada por um bartender em homenagem à senhorita que emprestou seu nome à mistura. Ela teria se interposto entre ele e uma bala assassina, salvando assim a vida do amado enquanto morria em seus braços.

Escritor Ernest Hemingway: Mojito com rum

É ainda possível que rabos-de-galo sejam frutos de um contexto social. É o caso do Bloody Mary, surgido na Paris dos anos 20, quando os excessos eram a regra, com as noites alegres e manhãs nem tanto. O comediante George Burns, que viveu por 100 anos, feliz com seu charuto, costumava dizer: “Basta um drinque para me deixar mal, mas nunca sei se é o 13º ou o 14º”. Ele certamente só sobreviveu aos anos loucos graças a vários copos de Bloody Mary. Esta espécie de antidrinque da manhã seguinte, que agrega pecado e redenção, combate fogo com fogo. A fórmula é simples: vodca, suco de tomate e infinitas discussões sobre quais seriam os temperos ideais, sendo os mais usados o limão, o molho inglês e vários tipos de pimenta.

É para acordar qualquer papila gustativa que ainda esteja adormecida: o tomate é um notório tônico e a vodca dá ao metabolismo a ilusão de que a festa continua, o que para alguns pode ser verdade. Só uma coisa intriga a respeito deste coquetel: se ele é o antídoto para o day after de qualquer veneno, qual seria a cura se a picada da véspera tivesse sido da própria “Maria sanguinolenta”?

A resposta vem dos céus. É o Virgin Mary, que segue a mesma fórmula da versão Bloody, porém sem seu elemento ativo, a vodca. O suco de tomate, temperadíssimo, deve ser sorvido com uma prece e uma promessa, a de não se envolver mais com nenhuma Maria derramada em álcool.

 

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