Na Idade Média elas reuniam religiosos em torno de práticas místicas e proteção social. Possuíam sempre um símbolo ou escudo, um santo como devoção comum e princípios compartilhados em grupo, acima de qualquer questão pessoal. Sempre tiveram um sentido agregador, por vezes desafiando normas estabelecidas por suas religiões de origem.
No Brasil imperial congregavam negros e brancos e, não raro, administravam fundos para compra de cartas de alforria. Na Europa, essas entidades fazem parte da história de um continente que procurava proteção contra suas próprias práticas predatórias e desumanas, resgatando valores e crenças derrubados com os muros dos feudos.
Assim aconteceu com os pedreiros das grandes catedrais francesas que mantinham técnicas secretas de construção, preservavam e assistiam as famílias de seus pares. Com as próprias ferramentas como símbolos, fundaram a Maçonaria.
As confrarias são essas organizações que lutam pela identidade de um grupo, produzindo, preservando e difundindo conhecimento. O mundo do vinho se apropriou desse tipo de estrutura para fazer valer o que tem de melhor: sua capacidade de reunir e agregar. Do Velho para o Novo Mundo, elas funcionam como pára-raios de qualidade e tradição, contra a banalização e a futilidade que, por vezes, tentam tomar conta do mercado.
O fenômeno de formação e constituição de confrarias de apreciadores de vinho tomou corpo no início do século XX, na França, e espalhou-se pelo mundo do vinho por onde quer que suas parreiras se estabeleçam. Em solo brasileiro, as mais antigas datam do início dos anos 80.
Entre as mais prestigiadas, a Confrérie des Chevaliers du Tastevin, da Borgonha, reúne alguns dos maiores conhecedores mundiais de vinho. A organização congrega seus confrades no Château de Clos de Vogeout, um suntuoso castelo francês. Os membros deste grupo seleto degustam vinhos com trajes apropriados, títulos de honra e toda a pompa que uma confraria tradicional gostaria de ter.
Assim também ocorre com as confrarias portuguesas. A Confraria dos Enófilos da Bairrada oferece anualmente um banquete para seus novos confrades no Palace Hotel do Bussaco, patrimônio arquitetônico do século XIX. Em 2003, a Confraria do Vinho do Porto realizou uma nababesca entronização no Palácio da Alfândega, com direito a presença do então presidente português, e confrade, Jorge Sampaio, cortejo da Guarda Nacional Republicana e baile de gala.
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| Confrérie des Chevaliers du Tastevin |
Mas você não precisa de uma beca e um título de chanceler - normalmente designando o comandante da confraria - para montar seu grupo de degustação. Precisa sim, como os irmãos do Velho Mundo, de amor ao vinho, bons amigos, bons copos e sede de degustador.
Degustar é algo que podemos fazer com prazer e sem pressa. Uma degustação descompromissada também é um exercício de liberdade e de construção de verdadeiras preferências sobre cada rótulo, cada uva, cada safra. Este, portanto, é nosso desafio. Degustemos pois, de garrafas e corações abertos.
A confraria
O primeiro passo para degustar vinhos é escolher um grupo. Vale selecionar pessoas que estejam no mesmo estágio que você. Deste modo todos poderão descobrir juntos o prazer dos vinhos, compartilhando idéias e impressões. O mesmo grupo, uma vez harmônico, pode evoluir, publicar suas opiniões na internet e trocar informações com outras turmas e confrarias.
Confrarias de gêneros também são muito freqüentes. Em Florianópolis, um grupo de mulheres muito organizado se reúne em torno de garrafas de espumante. É o Clube do Champanhe, hoje com mais de quatro mil membros, com programa de televisão, portal web e tudo.
Também é possível formar confrarias temáticas, especializadas em um determinado tipo de vinho, região de origem ou até mesmo variedade de uvas. Só depende do grupo.
Os amigos do trabalho, profissionais de uma mesma área, colegas de escola, enfim, desde que haja afinidade é possível reunir pessoas. E pessoas trazem pessoas em um saudável e produtivo network.
Formado o primeiro grupo, é importante estabelecer um ritual de ingresso na confraria. As tradicionais realizam grandes cerimônias, com trajes e juramentos. Não é preciso chegar a tanto, mas um confrade tem de ter claro que aquele é um compromisso importante.
O tamanho da confraria é a própria confraria que deve determinar. Encontrar e reencontrar amigos é a regra básica. Para começar, seis a oito pessoas é um bom número. Fuja apenas dos enochatos que podem transformar sua confraria em um grande constrangimento. É a opinião do grupo que deve valer.
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