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| Na Toscana, imponentes castelos ornamentam a paisagem |
Segundo "A Arte de Beber", livro escrito em 1963, por Marcelino de Carvalho, o pioneiro de nossa crônica eno-gastronômica, servir vinho italiano em um jantar chique era quase uma ofensa. Hoje a realidade é outra. Na inicio dos anos 2000 a revista americana Wine Spectator sacramentou o renascimento do vinho italiano ao eleger por dois anos consecutivos, como maior vinho do mundo, dois toscanos. O Solaia 1997 e Ornellaia 1998, eleitos "wine of the year", respectivamente em 2000 e 2001, não eram simples vinhos clássicos italianos, mas rebeldes "fora da lei" e parte de um movimento iniciado algumas décadas antes.
Esta revolução enológica começou no final dos anos 60. Enquanto o mundo respirava a contra-cultura, a Toscana, berço do renascimento cultural e artístico do século XVI, contestava a ordem estabelecida na produção de vinhos. O Da Vinci do renascimento dos vinhos italianos foi o Marquês Piero Antinori, produtor do já citado Solaia.
O marquês assumiu os negócios da família em 1966 e representa a 26a geração de vinhateiros, seguindo uma tradição de mais de 600 anos. Fato que não o impediu de inovar. Tornou-se o pioneiro na reação dos produtores toscanos contra o status-quo reinante na época. Segundo ele, "havia muitos erros na forma de se plantar e de se produzir o vinho". A imagem geral do vinho italiano era a de um produto de quantidade em detrimento da qualidade, o que penalizava os poucos que buscavam melhorar sua produção. Antinori, com a ajuda do enólogo Giacomo Tachis, introduziu mudanças técnicas, tais como: usar tanques de aço inox com temperatura controlada para os vinhos brancos; antecipar a colheita de alguns tipos de uvas; engarrafamento esterelizado a frio; fermentação malolática dos vinhos tintos; diminuição no rendimento dos vinhedos; uso de barris novos de carvalho sloveno e francês; e, sobretudo, uso de castas estrangeiras não permitidas na região, como a francesa Cabernet Sauvignon.
Os problemas encontrados no início foram muitos, desde aspectos técnicos, legais até culturais.
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| Mapa da Toscana |
O início da década de 1970 foi difícil para a região, com safras de qualidade inferior e problemas de superprodução. O Chianti estava em baixa, era preciso melhorar a qualidade dos vinhos e dissociar-se da imagem das garrafas revestidas de palha penduradas nos tetos das trattorias. Neste contexto, em 1970, Antinori decidiu plantar em uma de suas grandes propridades, a Santa Cristina, bem no meio da região do Chianti Clássico, um vinhedo com Cabernet Sauvignon, além de outras experiências que fez com castas como Chardonnay, Sauvignon Blanc, Gewurztraminer, Cabernet Franc, Merlot e Pinot Noir. Em 1971, produziu pela primeira vez o Tignanelo. Não usou a branca Trebbiano, tradicionalmente utilizada para dar leveza e acidez, acrescentou 15% de Cabernet Sauvignon e 5% de Cabernet Franc, sendo o restante da casta tradicional toscana Sangiovese. Por conta destas inovações, a denominação "Chianti" não pôde ser usada e o vinho teve de ostentar em seu rótulo a classificação mais baixa da enologia italiana: "vino da tavola". O Tignanelo foi, então, o primeiro "supertoscano", expressão criada por ingleses e americanos para se referir aos vinhos desta região que, apesar de serem na época, pela lei italiana, apenas "vino da tavola", alcançavam alta qualidade e preço.
Antinori, hoje, é o mais famoso produtor de vinho da Toscana. Embora sua atuação já tenha transcendido há muito esta região, com enormes investimentos nas regiões italianas de Salento, Piemonte, Franciacorta, Úmbria, além de Hungria e EUA.
Suas vinícolas produzem uma vasta gama de vinhos, onde mesmo nos mais básicos a qualidade é admirável. Na Toscana, além do Tignanelo, produz, na mesma propiedade, o ainda mais premiado e espetacular Solaia. Neste, predomina a Cabernet Sauvignon, com 75%, complementada com 5% de Cabernet Franc e 20% de Sangiovese. Outro destaque vem da região toscana de Bolgheri, a mesma de outro "supertoscano" famoso, o Sassicaia.
O Guado Al Tasso, vinho produzido a partir da safra de 1990, é um corte de 60% Cabernet Sauvignon, 30% Merlot, 10% Syrah.
O caminho de Antinori foi rapidamente seguido por outros produtores toscanos e de outras regiões. O renascimento do vinho italiano só aconteceu porque foi em bloco, mudando o paradigma da quantidade para o da qualidade. "O processo, contudo, ainda não está concluído. 60 a 70% dos vinhos da península ainda precisam melhorar sua qualidade", conclui o marquês.
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