
"Quem não gosta de vinho, bom sujeito não é. É ruim da cabeça ou não
leu Baudelaire" (Marcelo Ferreira, designer). Essa paródia se aplica como
uma luva ao Château Cheval Blanc. Se algum enófilo disser que não gosta
do "cavalo branco", desconfie. Reza a antiga lenda (que acabo de inventar)
que, ao ser perguntado sobre qual sua escolha para levar a uma praia deserta,
entre a mais bela mulher e uma garrafa de Château Cheval Blanc 1947, Giacomo
Casanova respondeu sem pensar: "Onde está meu saca-rolhas?"
Foi
com esse espírito de alegria incontida, de criança que acaba de ganhar
um brinquedo novo, que cerca de 50 felizardos se reuniram na noite de
6 de agosto em Pedra Azul. Motivo para júbilo não faltava, afinal, seis
safras (2001, 2000, 1998, 1995, 1989 e 1988) de um dos maiores vinho do
mundo seriam apresentadas sob a batuta de seu legítimo maestro, Pierre
Lurton.
Aos 48 anos de idade, Lurton é ao mesmo tempo diretor geral e responsável
pelos vinhos dos Château Cheval Blanc (CCB). Em outras palavras é "o pai
da criança". De quebra, Lurton, que esbanjou simpatia e bom humor em toda
sua estada em Pedra Azul, desde o ano passado, também comanda outro ícone
da mesma importância, o Château d´Yquem.
Localizado
em Saint Emilion, sub-região de Bordeaux, no oeste da França, o CCB foi
criado 1832, em 37 hectares comprados do Château Figeac. O vinho chamou
pela primeira vez a atenção do mundo com a espetacular colheita de 1921
e alcançou o pináculo da qualidade e da fama com o glorioso 1947, considerado
um dos melhores vinhos da história. Pouco tempo depois, em 1955, Saint
Emilion elaborou uma classificação para seus vinhos, em quatro níveis:
sem menção, Grand Cru, Premier Grand Cru Classé "B" e Premier Grand Cru
Classé "A". Esta última, o topo, é ocupado só pelos Châteaux Ausone e,
é claro, Cheval Blanc.
O que torna o CCB tão especial é sua qualidade de reunir força e elegância,
num perfeito equilíbrio, fato que só pode ser compreendido com o estudo
do terreno e das castas que originam o vinho. Seus vinhedos ocupam um
lugar peculiar em Saint Emilion. Enquanto a maioria dos grandes vinhos
da região são produtos de solos calcários, as vinhas o CCB crescem em
terrenos de aluvião (um misto de cascalho, argila e areia, mais parecido
com o que se encontra na região vizinha, Pomerol). A maior parte da superfície
é de cascalho ou areia com subsolo de argila. A parte superior colabora
por manter o calor e o subsolo o suprimento de água (a argila funciona
como uma esponja), ajudando no amadurecimento das uvas.
Os
37 hectares de vinhedos do CCB são ocupados 66% por Cabernet Franc, 33%
por Merlot e 1% por Malbec. A idade média das plantas é de 40 anos, com
as mais velhas chegando aos 85 anos de idade. A densidade é de 6 a 7 mil
plantas por hectare com rendimentos médios bastante baixos, ficando na
casa dos 35 hectolitros por hectare.
A proporção de Cabernet Franc e Merlot utilizadas varia a cada ano, sendo
sempre próximas a 50% de cada, enquanto a Malbec na maioria das vezes
não é utilizada. A Merlot contribui com o corpo e a fruta. A Cabernet
Franc dá o frescor e a elegância, marcas registradas do CCB, além de contribuir
com complexidade aromática. O vinho amadurece de 14 a 20 meses em barris
de carvalho 100% novos, de 5 tanoeiros. O resultado pode ser conferido
na vertiginosa degustação vertical (várias safras de um mesmo vinho) registrada
a seguir:
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