É
fato conhecido que certos vinhos perdem logo em aspecto, perfume e gosto
e até se deterioram em pouco tempo enquanto outros, particularmente os
tintos superlativos, melhoram, aveludandose com o passar dos anos.
Os grandes vinhos não adquirem condições de consumo logo que fi nda o
processo fermentativo. Necessitam de tempo para amadurecer, ajustando
os componentes do suco que permaneceram após a transformação com os novos
componentes que se formam, amalgamando-se aromas primários da fruta com
os secundários da fermentação.
No processo surgem turvações e partículas em suspensão, que pedem tempo
para serem eliminados por sedimentação ou pelo uso de recursos da enotecnia.
Na presença moderada do oxigênio, os componentes indesejáveis são eliminados
nas primeiras trasfegas, mas ainda é necessário um prazo para a eliminação
de algum gás carbônico residual e de componentes voláteis indesejáveis.
Em boa parte dos casos, isso tudo se processa em barricas ou tonéis de
carvalho - um tipo de madeira que confere odores agradáveis e desejados
às bebidas alcoólicas, como vinho, uísque, cachaça, conhaque, contribuindo
com a complexidade da bebida e com a formação de seu buquê.
É assim que a imagem de grandes vinhos, secos (Médoc, Barolo, Brunello,
Vega Sicilia, Rioja Reserva, Jerez Fino etc) ou doces (Porto, Madeira,
Jerez Cream, Vin de Paille etc) está associada ao recipiente de madeira
em que é acomodado e conservado por bastante tempo.
Os aromas que se incorporam ao vinho podem vir dos componentes da madeira
propriamente dita ou do seu tostado interno. Além disso, a intensidade
dos aromas e do gosto da madeira depende do tempo de uso da barrica. Alguns
rótulos da Califórnia e da Austrália ostentam a expressão new oak - carvalho
novo - para indicar a presença de nuances amadeiradas, de baunilha ou
de torrefação, tão ao gosto dos consumidores americanos.
Em áreas vinícolas européias tradicionais são usados tonéis de grande
capacidade por muito tempo ou mesmo barricas usadas, com suas paredes
tão cobertas por cristais que a madeira nem entra mais em contato com
o vinho. Nesse caso a infl uência da madeira no leque aromático da bebida
é pequena ou nula.
Aromas do carvalho
E
qual seria o efeito de tudo isso para nós que vamos degustá-lo? A resposta
está nos aromas que o carvalho comunica ao vinho. Dele provém a baunilha
e outras especiarias como a canela, a pimenta e o alcaçuz. Do seu tostado
interno, os aromas de torrefação como café, chocolate, caramelo e pão
torrado.
A baunilha é uma especiaria cujo odor adocicado e cremoso é quase que
obrigatório nos tintos do Médoc, em Bordeaux, e dos Gran Reserva da Rioja,
na Espanha, para limitar a dois exemplos entre tantos. Ela tem como suporte
químico a vanilina, um aldeído recendente presente no carvalho;
A canela é outro aroma de especiarias resultante da conservação em barrica
e tem por principio a presença do aldeído cinãmico na composição do vinho.
Sua presença no Chateauneuf-du-Pape tinto e em seu vizinho Gigondas, ambos
do Rhône meridional, é reconhecida. Isso se repete certamente nos Shiraz
de Barossa Valley, na Austrália;
O alcaçuz apresenta-se como uma síntese de odores caramelados, mentolados
e fl orais. Adocicado e lembrando a rapadura, tem por fundamento a Glicirrizina,
substância doce presente em tintos superiores. Associado á baunilha e
à canela, o odor do alcaçuz é perceptível em vinhos franceses do Rhône
e em Cabernets barricados da Califórnia. Nesses casos pode-se inferir
que foram utilizadas barricas de tostado forte;
O odor da pimenta, fora sua indefectível presença nos tintos do Rhône
Norte - Cote Rôtie, Hermitage -, desenvolve-se também nos Tannat, da França
e do Uruguai, e com muita distinção, nos chilenos da Carménère, caldos
que contam em sua composição, com o Felandreno, lembrando pimenta do reino
e fazendo cócegas na mucosa olfativa.
Aromas da torrefação
Conheça também os odores da torrefação, também denominados "empireumáticos"
pelos afi cionados:
O aroma de caramelo, que tem a mesma origem da a baunilha, isto é, a
vanilina do carvalho, mas sob a forma tostada. É o caso de certos Ribera
del Duero e Riojas, mas facilmente encontrado também em vinhos de sobremesa
como o Moscatel de Setúbal;
A nuance achocolatada do magnífi co Vega Sicília, é notória. O mesmo
acontece com os melhores Cabernet Sauvignon chilenos e com o Zinfandel
de Napa e Sonoma, na Califórnia. Sua presença, assim como a do alcaçuz,
provém de barricas de tostado forte.
Nada como perceber a nuance de café em um grande tinto borgonhês, das
Côtes de Nuits, em um Chambertin, por exemplo. Ele se repete nos vinhos
de primeira da Ilha da Madeira por conta do processo local de elaboração
conhecido como "estufagem".
Ao aportar o componente maltol e elementos aromáticos da família das
pirazinas, o carvalho pode estender uma nuance de pão torrado como se
percebe sem difi culdades nos Chardonnays californianos, amadeirados e
untuosos, com sua cor dourada escura.
Na prática da degustação, difi cilmente é possível discernir tantos aromas
em um único vinho, ao mesmo tempo. Mas não deixa de ser uma enorme satisfação
constatar a presença de alguns deles, pelo menos, e de apreciá-los em
vinhos notáveis por sua superior qualidade.
* Euclides Penedo Borges é Vice-Presidente da ABS-RJ e autor de "110 Curiosidades
sobre o Mundo dos Vinhos" e "ABC Ilustrado da Vinha e do Vinho", ambos
da "Mauad Editora.