A rolha e garrafa
Até
o início do século XVIII, os bebedores de vinho não dispunham do conforto
de tê-lo acondicionado, porque nessa época não se conhecia nem a rolha,
nem a garrafa. Ele era retirado dos tonéis logo após a fermentação e colocado
em odres, ou ânforas, as quais eram vedadas precariamente com tampões
de linho, ou estopas, embebidos em linhaça, e ali permanecia o menor tempo
possível, isso é, até ser colocado em pequenas jarras pelos serviçais
e transportado enfim para a taça dos convidados - que o bebiam, portanto,
ainda jovem. A descoberta da rolha de cortiça e da garrafa foram, por
conseguinte, as maiores conquistas enológicas de todos os tempos.
A rolha é retirada da casca do sobreiro, árvore encontrada basicamente
em Portugal, na Espanha e na Grécia, e só a partir de 1700 passou a ser
amarrada por barbantes às garrafas, pois foi nesse período que o monge
beneditino Dom Pérignon (o mesmo que "inventou" o champagne) constatou
que para conservar o vinho era preciso utilizar um material inerte, inodoro
e resistente.
Já a garrafa de 750 ml, que por coincidência passou a ser comercializada
um pouco depois, (a primeira exportação dessa novidade saiu do Porto do
Havre para a Inglaterra e a para a Índia em 1755) mantém até hoje a medida
padrão, para respeitar a legislação daquela época. Ou seja: como elas
eram sopradas uma a uma, a lei italiana estabeleceu, e todos a seguiram,
que essa era a capacidade máxima de sopro a que poderia chegar um bom
artesão, sem danificar o pulmão.
A harmonização com queijos
O vinho é eminentemente uma bebida solidária. Digamos que ele foi feito
para ser bebido, no mínimo, a dois, e para fazer companhia ao alimento.
Por isso, o queijo é uma razão a mais para se prolongar o vinho - e o
vinho uma razão a mais para se renovar o queijo. Um e outro formam o par
mais feliz da história da gastronomia. Mas, à primeira vista, parece um
casamento entre ímpares. Porque, enquanto o vinho é bonito, seja dentro
da garrafa, seja já na taça, o queijo em geral é feíssimo. Um plateau
de fromages parece uma paisagem lunar - com buracos, protuberâncias,
planícies e pedras soltas. Juntos, no entanto, produzem um casal tipo
Fred Astaire dançando com a Cid Charise.
A sintonia desse "dois em um" estabelece um ritmo que deve ser observado.
Por exemplo: a) quanto mais forte o queijo, mais tânico deverá ser o vinho;
b) vinhos e queijos da mesma região namoram melhor; c) os queijos frescos,
com o nosso minas, a mozzarella ou os cream cheese vão bem com um bom
rosé, um verde português ou o adolescente Beaujolais; d) o Gouda (holandês),
o Gruyère (suíço), o Manchego (espanhol) ou parmesão (italiano) pedem
um Shiraz ou um Cabernet-Sauvignon; e) os populares Brie e Camembert (cujo
"perfume" o Brillat-Savarin comparava ao pé do bom Deus!) vão lindamente
com os tintos "inocentes", do jeito de um Côtes du Rhône, um Valpolicella,
um Merlot sul-americano ou, hoje em dia, um alentejano leve; f) já o champagne
é multiuso - abra um bom brut e acompanhe-o com um queijo cremoso passado
em cima de uma torrada-hóstia, ou o lambuze um pão preto light do brasileiríssimo
requeijão e depois nos conte... Última regra: não siga nenhuma dessas
acima: vá testando e estabeleça a sua. O velho Cervantes já dizia: não
existe o caminho. É o caminhante que faz o caminho - ao caminhar. Bon
appétit!
A degola do gargalo (sabrage)
A arma branca longa - o sabre - conquistou a Europa num tempo em que
os cavaleiros ainda duelavam pela honra de sua dama. Ou pela própria.
Mas, com tempo, ela sofreu diversas modificações e, hoje, só é utilizada
em escala ou na esgrima moderna, que é um esporte, ou em eventos especiais,
como o sabrage.
A história do sabrage remonta ao início do século XIX quando, segundo
a tradição francesa e, para comemorar suas vitórias, Napoleão realizava
a degola das garrafas de champagne com um único golpe de seu sabre. Nos
dias atuais, para repetir a façanha que Bonaparte imortalizou, o sommelier
(ou amador) não tem necessidade de se arriscar com armas brancas, porque
o chamado Sabre-Para-Abrir-Champanha, disponível no mercado, não possui
fi o de corte e seu destino é unicamente "expulsar" a rolha e o início
do gargalo de um espumante ou de um champagne. Feito artesanalmente em
aço inox temperado, polido e adamascado com desenhos alusivos, o Sabre-Para-Abrir-
Champanha possui a mesma qualidade das espadas das Forças Armadas e, com
seu punho forte de metal polido e bronzeado, tem o poder de transformar
esse ritual num espetáculo. Santé!
*Reinaldo Paes Barreto é diretor institucional do Jornal do Brasil e
membro da confraria Companheiros da Boa Mesa