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Uma peregrinação com Baco
Conheça os segredos que tornam o Vega Sicilia reverenciado por personalidades históricas como o papa João Paulo II e o estadista Winston Churchill

por Marcelo Copello



Vega Sicilia/divulgação
O Vega Sicilia não utiliza os frutos das vinhas antes de atingirem vinte anos

Em recente visita à região de Castilla Y León, no noroeste da Espanha, passei, por acaso, por um trecho do Caminho de Santiago, onde alguns peregrinos marchavam. Eu, no entanto, seguia em outra direção, mas também em uma espécie de romaria, e uma visita à Bodega Vega Sicilia, nome pronunciado como uma prece pelos devotos de Baco.

Presença garantida em qualquer lista de maiores vinhos do mundo, o “Unico” arranca suspiros de qualquer felizardo que já o tenha provado. Fundada em 1864 por Eloy Lecanda y Chaves, a Bodegas Vega Sicilia viria a lançar seu vinho ícone, o Vega Sicilia “Unico”, apenas em 1915. A notoriedade foi rapidamente alcançada e, nos anos 20, ele já era reputado como o rótulo de maior prestígio da Península Ibérica, posto que até hoje ocupa com “quase” unanimidade. Pisei neste solo sagrado no dia 14 de maio e ouvi muitas histórias curiosas, que fazem parte da mística de todo grande vinho. A origem do nome “Vega Sicilia”, por exemplo, é uma incógnita. “Vega” seria um terreno perto de um rio, o Duero (ou Douro), mas não se sabe porque “Sicilia”, o que não impediu Winston Churchill de afirmar: “Adoro este vinho italiano”. Ele referia-se ao grande caldo espanhol. As garrafas do “Unico” são disputadas e há cerca de três mil clientes em lista de espera para adquiri-las. Todos os anos, a garrafa magnum (1,5 litro) de número “001” é enviada para o Rei da Espanha, Juan Carlos, devidamente autografada por Pablo Alvarez, o atual proprietário da Bodega. O Papa João Paulo II, ao visitar a Espanha, quis provar o “Unico” e foi presenteado com uma garrafa do ano de seu nascimento: 1920. O jogador de futebol Ronaldo, o “fenômeno”, serviu o “Unico” em seu badalado e naufragado casamento com a modelo Daniella Cicarelli. Segundo Yolanda Perez, diretora de exportações da empresa, muitos japoneses entram em contato perguntando qual foi a safra do “Unico” servido no casamento do príncipe Charles e Lady Diana, fato que simplesmente não aconteceu.

divulgação
A bodega Vega Sicilia cruza o Caminho de Santiago de Compostela

Mas qual é o segredo deste vinho? Segundo Xavier Ausàs López de Castro, diretor técnico, responsável pela elaboração dos vinhos e com quem os provei: “Não há segredo, apenas muito trabalho”. De fato, este vinho segue a mesma fórmula de todos os grandes do mundo: solo e clima privilegiados, produção pequena, boas cepas e uma hipérbole de cuidados que podem chegar a um perfeccionismo quase insano.

A empresa utiliza apenas vinhas de mais de 20 anos. Enquanto as plantas novas não atingem esta idade, seus frutos não são utilizados. Seus 250 hectares na região de Ribera del Duero estão plantados com 65% de Tinto Fino (nome local da Tempranillo), 15% Cabernet Sauvignon e os 20% restantes divididos entre Merlot, Malbec e uma quantidade mínima da branca Albillo. O rendimento destas vinhas é um dos mais baixos do mundo e não passa dos 22 hectolitros por hectare. Em alguns anos, este rendimento pode cair até míseros sete hectolitros.

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