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O irmão menor cresceu
Considerado o princípe dos vinhos do Piemonte, o Barbaresco desenvolveu-se e disputa o poder do rei Barolo

por Marcelo Copello



Uma das mais tradicionais e aristocráticas regiões da Itália, o Piemonte, é famoso por seus potentes tintos. Esta região no noroeste do país, próximo à Suíça e à França, produz anualmente 300 milhões de litros de vinho, provenientes de 58 mil hectares, cultivados por 35 mil produtores. Lá, as uvas tintas dominam, ocupando 70% da área cultivada, onde se destacam Nebbiolo e Barbera. Nas brancas reina a aromática Moscato.

Os principais produtos da região são conhecidos como “os três ‘B’s”: Barolo, Barbaresco e Barbera. Os dois primeiros são elaborados a partir da Nebbiolo, uma cepa muito sensível ao terreno e ao clima, tardia, colhida em fins de outubro, quando a névoa (nebbia, em italiano) toma conta da paisagem, batizando a cepa. Documentos do século XI já referiam-se a uva “Nebiùl”. A uva Barbera matura antes, na metade de setembro, tem muita cor e boa acidez.

Carinhosamente, os produtores locais referem-se ao Barolo como “rei”, ao Barbaresco como “príncipe” e ao Barbera como “princesa”. O primeiro, por ter sido chamado por Voltaire de vinho dos reis e rei dos vinhos, além de ser também o mais prestigioso, potente e longevo vinho da região. O Barbaresco seria o “príncipe”, por ter o mesmo caráter do Barolo (elaborado com a mesma uva, a Nebbiolo), embora, em geral, com menos estrutura e longevidade, além de historicamente ter ocupado um segundo plano. O Barbera justifica sua alcunha por seu caráter mais fresco e frutado. Na Itália ele é comumente chamado no feminino “La Barbera”.

Nos ocupamos hoje do príncipe Barbaresco, que até meados do século passado era conhecido como o fratello minore (irmão menor) do Barolo, mas que cresceu e hoje rivaliza com o “rei” em qualidade e prestígio. O nome Barbaresco vem de uma pequena cidade da região, cujo símbolo é Mapa da região do Barbarescouma bela torre de 36 metros de altura construída no ano 1000 d.C.. A origem da palavra Barbaresco é Barbarica Silva, nome dado pelos romanos à floresta de carvalhos que cobria a região.

Este irmão menor começou a crescer em importância em 1961, quando Angelo Gaja assumiu a direção da empresa de seu pai e decidiu fazer de seu Barbaresco um grande vinho, voltado para exportação. Gaja investiu em qualidade e em marketing e tornou-se uma grife de alto luxo, o nome de maior prestígio em toda a Itália. Outros produtores vieram atrás e hoje ninguém ousa chamar o Barbaresco de “irmão menor”.

Em 1966, por meio de um decreto presidencial, o Barbaresco tornou-se um vinho de Denominação de Origem Controlada (DOC). Em 1967, iniciaram-se a vinificação e a comercialização dos vinhos de Barbaresco de vinhedos únicos (a exemplo dos Grand Crus franceses), com alguns vinhedos alcançando fama, como Martinenga, Pora, Rabajà etc. Finalmente, em 1980, um novo decreto elevou o Barbaresco à DOCG (Denominazione d’Origine Controllata e Garantita), grau máximo dos vinhos italianos de origem controlada.

Dentre os regulamentos da DOCG Barbaresco, destaco: deve ser elaborado 100% com uvas Nebbiolo, das variedades “Michet”, “Lampia” e “Rosè”, provenientes de vinhedos demarcados, nas comunas de Barbaresco, Neive, Treiso e Alba (em San Rocco Senodelvio); o rendimento máximo dos vinhedos é de oito toneladas de uvas por hectare; os vinhedos precisam ser colinares com solos argilo-calcáreos; os sistemas de plantio, condução e poda devem ser os tradicionais, para não modificar as características da uva; o rendimento máximo de vinho por quilo de uva não deve ultrapassar 70% na vinificação e 65% após o envelhecimento; a vinificação e o envelhecimento devem ser feitos na zona demarcada pela DOCG; a vinificação e o amadurecimento devem seguir métodos tradicionais; o amadurecimento deve ser de, no mínimo, dois anos, sendo ao menos um ano em barris de carvalho ou castanho, a contar do dia 1º de janeiro do ano seguinte da colheita; se o período de amadurecimento for de quatro anos, ou mais, a denominação “riserva” pode ser usada; após o amadurecimento, o vinho deve passar por uma prova de degustação; o teor alcoólico mínimo deve ser de 12,5%, a acidez total mínima de cinco por mil e o extrato seco mínimo, 23 gramas por litro; a denominação “Barbaresco” deve constar, em evidência, no rótulo, com caracteres inferiores a 2/5 de qualquer outro que conste no rótulo ou na garrafa.

Hoje um bom Barbaresco não deve nada a um bom Barolo. A uva que dá origem a ambos é a Nebbiolo, de cultivo delicado, que requer muita atenção. A exemplo da Pinot Noir na Borgonha, a Nebbiolo raramente adapta-se bem fora do Piemonte. São raríssimos os Nebbiolos de qualidade fora do norte da Itália. Sua colheita é tardia, geralmente em meados de outubro, com ciclo vegetativo longo, sendo a última das castas piemontesas a amadurecer. Na zona de Barbaresco existem quase 500 hectares de Nebbiolo, a altitudes entre 300 e 400 metros, que geram cerca de 2,5 milhões de garrafas. Os solos, em geral, correspondem a uma formação geológica chamada “terreno Tornoniano”, sedimentos compostos de calcário azulado e cascalhos, de ótima drenagem e favoráveis ao cultivo da Nebbiolo.

Os Barbarescos são, em geral de cor granada, com aromas típicos de madeira (onde por lei permanecem, ao menos um ano), canela, nós moscada, alcaçuz, frutas vermelhas, violetas, amêndoas ou avelãs torradas, couro, tabaco, defumados. O sabor costuma ser seco e estruturado, com taninos presentes na juventude e aveludados com o tempo. Os provenientes dos arredores da cidade de Treiso são, geralmente, mais estruturados, enquanto os de Neive, mais elegantes. O Barbaresco é um vinho de guarda, pode ser estocado de oito a 30 anos, alguns podem ir além, conforme safra e estilo. Como a maioria dos vinhos italianos, o Barbaresco tem vocação gastronômica, crescendo se acompanhado pelo prato certo. Combinações garantidas são: pratos a base de tartufo branco ou funghi porcini (cogumelos secos), carnes assadas e grelhadas, como cordeiro ou caça (javali) e queijos fortes, como Grana Padano, Pecorino ou Parmigiano Reggiano.

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