
Diversidade e contraste são palavras que definem a África do Sul. O país, banhado pelo Oceano Atlântico de um lado e pelo Oceano Índico do outro, tem 11 línguas oficiais (entre elas, o africâner, originário da colonização holandesa), diversas religiões e imigrantes de várias origens. São quase dois mil quilômetros de costa e 44 milhões de habitantes.
A nação de Biko e Mandela ostenta, ao mesmo tempo, jazidas incalculáveis de diamantes e ouro e uma pobreza indecente. A boa notícia é que desde o fim do Apartheid, em 1994, a democracia impulsionou a reconciliação racial, permitindo eleições multirraciais. A seqüela de governos ditatoriais de minoria branca ainda é grande, mas exemplos de luta e coragem dão nova cara à África do Sul. É o caso do admirado líder Nelson Mandela, que após 29 anos de prisão assumiu o governo, mudou a imagem do País em todo mundo e foi agraciado com o Prêmio Nobel da Paz.
A maioria dos apreciadores de vinho pensa que a África do Sul é novata na produção da bebida. Estão enganados. Lá, existem vinícolas com mais de 300 anos de história. Apesar disso, apenas nos últimos 15 anos elas mostraram ao mundo vinhos de qualidade ascendente. A história da vitivinicultura local é repleta de altos e baixos. No início do século XIX, a produção de vinhos era centrada em pequenos produtores. No começo do século seguinte, eles foram dominados por cooperativas que devastaram o conceito de qualidade, estabelecendo cotas aos produtores. Esta iniciativa mudou o foco das vinícolas para o aumento da produção de uvas: metade era usada para produzir vinhos de qualidade duvidosa e a outra, para destilados que visavam mais o consumo interno. Essa estratégia estagnou o mundo vitivinícola sul-africano até o início dos anos 70. Em meados da década seguinte, iniciou-se uma verdadeira revolução na produção de vinhos no país. Alguns produtores passaram a produzir vinhos de qualidade e a competir, em qualidade, com os melhores do mundo.
A mudança mais notória começou a se mostrar na década de 90, na qual os melhores vinhos da África do Sul aterrissaram no mercado internacional. Hoje em dia a área plantada de uvas viníferas ultrapassa 100.000 hectares, numa extensão de cerca de 800 quilômetros que contorna o Cabo da Boa Esperança, entre o Oceano Atlântico e o Índico. Hoje, há quatro grandes regiões vinícolas, englobando 18 distritos com 53 denominações de produção: Breede River Valley, Coastal, Little Karoo e Olifants River.
Uma retrospectiva histórica
O cultivo uvas na região remonta há cerca de 400 anos, quando um médico holandês, chamado Jan Van Riebeeck, levou ao país as primeiras videiras. Seu objetivo era desenvolver medicamentos para o escorbuto. Os imigrantes holandeses não tinham conhecimento em viticultura. Ele só foi desembarcar lá em 1645, por intermédio dos huguenotes franceses. O vinho que trouxe fama para a região foi o doce Constantia, elaborado a partir de uvas Muscat. Ele encantou ilustres personalidades históricas, como Napoleão Bonaparte e vários membros da corte Européia, que preferiam os sul-africanos aos Sauternes, Tokay e Madeira. No século XIX, o Constantia declinou e só voltou ao reconhecimento internacional no século XX, após forte intervenção do governo do país. As medidas beneficiaram não apenas o lendário vinho doce, mas toda a produção local.
Terroir
Seus longos e quentes verões, invernos frios, raras geadas tardias e quase sempre ausência de chuvas fortes de verão, além da influência dos ventos úmidos sudoeste nas regiões sul e oeste que equilibram o calor, fazem desse terroir um grande presente para os viticultores. As denominações de Stellenbosch e Paarl são consideradas o coração da indústria vinícola do país, que recentemente tem a companhia da remodelada região de Constantia, nas cercanias da cidade do Cabo. Além dessas regiões que estão consolidadas, há novas emergentes, evoluindo de maneira impactante. Entre elas, destacam-se Hermanus, mais ao leste da cidade do Cabo, e Franschhoeck, emendada a Stellenbosch.
Vinhos Brancos
A produção de brancos desse país é de alta qualidade. Os brancos, na maioria Sauvignon Blanc e Chardonnay, inserem o país como um importante player no cenário internacional. Nesse sentido, os Sauvignons Blancs sul-africanos rivalizam com os da Nova Zelândia. Seus Chardonnays são exuberantes e, em alguns casos, têm suficiente elegância para entrar no roll do que há de melhor no mundo. Alguns produtores da região de Constantia produzem também sensacionais Semillons, que só têm similares na França. Dos vinhos brancos, ainda há uma vasta quantidade de hectares plantados de Chenin Blanc, que produz vinhos mais simples, comparados com os originários das uvas Chardonnay, Sauvignon Blanc e Semillon.
Pinotage
A Pinotage se destaca como a uva local (Pinotage é a cruza entre a Pinot Noir e Cinsaut, antes denominada Hermitage Rouge). Ela produz ótimos exemplares, mas que jamais conseguirão atingir os níveis de qualidade da Cabernet Sauvignon e da Merlot em terras africanas. A Pinotage foi criada em 1925 pelo professor Pernold, da Universidade de Stellenbosch. Ela tinha o objetivo de produzir vinhos clássicos que pudessem competir com europeus. Com o passar dos anos, essa uva exibiu aromas inexistentes nas variedades européias, estabelecendose como uva emblemática da África do Sul. Nos últimos anos, a Pinotage tem sido vítima de críticas, a maioria da região em que foi criada. Controvérsias à parte, essa uva pode produzir alguns vinhos de boa qualidade, envelhecidos, ou não, em madeira, frescos ou mais intensos, quase sempre com toques de amoras, ameixas negras e cassis. De maneira geral, são vinhos com certa rusticidade que devem ser apreciados levando-se em conta sua incomparável originalidade.
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