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Água de beber
O ciclo das águas une rios, mares, vulcões e inunda restaurantes e lojas

por Sílvia Mascella Rosa



Trudy Loosman/Stock.XchngSeu terroir está nas nuvens, nas geleiras ou ainda embaixo da terra, protegido por camadas de pedras e sedimentos. Sua história é anterior a todos nós. A maioria das religiões acredita que, de alguma forma, somos filhos dessa substância. Inundações causam fome e doenças, secas significam morte em potencial. É um líquido extraordinário e embora seja utilizado para beber, limpar, nadar, pescar e cozinhar, raramente damos a devida atenção a ela em nossas vidas. Água. O corpo humano é composto por 70% dela, os oceanos formam mais de 70% da superfície da Terra, a placenta que nos protege no ventre é quase somente constituída de água, o leite materno tem a quantidade suficiente de água para que o bebê não precise de complemento algum por meses. A vida não pode evoluir nem continuar sem ela.

Como a maioria dos humanos, tendemos a não dar atenção a algumas coisas até que elas nos faltem ou virem moda. A água nunca saiu de moda, mas há alguns anos os europeus, que parecem entender de água muito mais do que qualquer outro povo, conseguiram despertar o interesse de muitas pessoas com seu natural apreço aos detalhes. Designers renomados passaram a aplicar seus conhecimentos no desenho da singular transparência de uma garrafa d’água. Sommeliers passaram a dar mais atenção aos tipos de água que serviam para acompanhar os vinhos, além dos pratos nos restaurantes. As empresas resolveram aproveitarse desse renascimento e lançar novos produtos, com caras ainda mais novas, e reforçar marcas consagradas fora de seus mercados habituais.

Não é à toa que ultimamente se fala de água por todos os lados. Superficialidade? Longe disso. Há muito a se falar e a se descobrir sobre as águas. E, ao se parar para pensar, é fácil lembrar que, entre as várias opções, você também tem uma preferência, nem que seja aquela do antigo filtro de barro da casa da vovó.

Antes de mais nada, é bom lembrar de algumas coisas que ficaram em nossos cérebros desde a época em que não existia internet e os professores faziam chamada oral: inodora, insípida e incolor. Certo? Guarde somente o incolor. O resto é praticamente falso. A água que todos bebem não é simplesmente H2O (duas moléculas de hidrogênio ligadas por uma de oxigênio), nem poderia ser. Para ser "bebível" (ou potável), a água precisa conter minerais, provenientes de sua origem e capazes de prevenir a contaminação. “A água que é somente H2O é chamada água desmineralizada, utilizada para a manipulação de medicamentos e várias aplicações industriais, como solvente ou reagente, por exemplo”, explica a engenheira química e especialista em cosmetologia, Sônia Corazza.

Água: Muito longe da simplicidade na qual acreditamos. Muito mais antiga do que as fontes medicinais freqüentadas por nossas tias no interior dos estados. Pinturas egípcias do século XV antes de Cristo já mostravam o povo tratando a água e utilizando sifões para coletá-la. Hipócrates, o pai da medicina, inventou um aparato para armazenar a água da chuva, isso no século V antes de Cristo. O general Aníbal, logo após derrotar os romanos no ano 218 antes de Cristo, parou com suas tropas ao sul da França em uma fonte conhecida como Perrier. Os romanos têm uma longa e bem preservada história sobre as águas, criaram os aquedutos, 400 antes de Cristo. Esse sistema abastecia cidades inteiras até evoluir para a primeira rede de águas públicas do mundo, no século III depois de Cristo. De Roma esse sistema foi parar na Grécia, em Cartago e no Egito. Os banhos romanos eram locais de reuniões políticas, e as fontes eram guardadas como locais sagrados. Durante os séculos seguintes houve poucas mudanças no mundo das águas, exceto pelo fato de que o crescimento exagerado de algumas cidades e a falta de saneamento básico favoreceram epidemias (como a peste negra). Mas, em 1804, na Escócia, surgiu o primeiro sistema para se levar água potável a uma cidade inteira. Três anos depois, a cidade de Glasgow já tinha água em suas torneiras. Em Paris, o tratamento das águas começou em 1806, utilizando filtros de carvão e areia. Cavalos eram usados para mover as bombas. Um século depois, nos EUA, a cidade de Jersey foi a primeira no mundo a utilizar cloro para desinfetar as águas, o que acabou tornando-se um padrão internacional, além do uso de iodo para evitar a doença conhecida como bócio endêmico. Aliás, é nos EUA que se realiza anualmente o maior concurso de águas do mundo, na estância hidromineral de Berkeley, na Virginia, reunindo especialistas, curiosos e engarrafadores. Essa estância americana é considerada o primeiro SPA do país, sendo que até mesmo os nativos americanos já se beneficiavam do uso medicinal de suas águas.

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