
Enquanto a tendência mundial é de vinhos onde cada vez mais a força se
sobrepõe à elegância, o Piemonte, nadando contra a corrente, é um oásis
de requinte. Não por acaso, pela primeira vez em sua história, a revista
norte-americana Wine Spectator concedeu o grau máximo a uma safra, a nota
100 para a vindima de 2000 no Piemonte, definida como "rica, opulenta,
com taninos redondos e frutas exuberantes. Nebbiolos alcançam a perfeição".
Esse sucesso de crítica veio apenas coroar uma seqüência vertiginosa de
excelentes colheitas: 96-97-98-99-00-01.
Localizada no noroeste da bota, próxima à França e à Suíça, a região
compõe um belo cenário montanhoso. A influência francesa é flagrante,
tanto no estilo dos vinhos, como no dialeto piemontês, repleto de palavras
de origem gaulesa. A gastronomia local é rica e sofisticada, marcada pelos
risotos, carnes de caça e pelo cobiçado tartufo branco. Ali, 35 mil produtores
cultivam 58 mil hectares de parras e produzem anualmente cerca de 300
milhões de litros do nobre fermentado.
Conhecidos como "os três B's", Barolo, Barbaresco e Barbera, são os principais
produtos da enologia local. Os dois primeiros são elaborados a partir
da Nebbiolo, uma cepa muito sensível ao terreno e ao clima, tardia, colhida
em fins de outubro, quando a névoa (nebbia, em italiano) toma conta da
paisagem, justificando seu nome. A uva Barbera matura antes, na metade
de setembro, tem muita cor e boa acidez.
"O vinho dos reis e o rei dos vinhos" segundo Voltaire, o Barolo é, sem
dúvida, o maior ícone vinícola de toda a bota. Seu estilo único lembra
um Borgonha envolto em uma névoa tânica. Essa camada de taninos finos
normalmente precisa de ao menos uma década para se dissipar e descortinar
toda a elegância desse grande vinho. Pelas leis de sua DOCG (Denominação
de Origem Controlada e Garantida), todo Barolo deve ser elaborado 100%
com uvas Nebbiolo, provenientes de vinhedos demarcados, com rendimento
máximo de 8 toneladas de uvas por hectare, com grau alcoólico mínimo de
13% e com um mínimo de 38 meses de amadurecimento (em madeira) e envelhecimento
(em garrafa) antes de chegar ao mercado.

A safra de 2000 representa o máximo que um Barolo pode atingir. Em estilo,
a de 2000 lembra mais a magnífica safra de 1996, clássica, com boa acidez
e taninos firmes do que a concentrada e frutada 1997. O clima em 2000
foi de muita chuva na primavera, o que ajudou as plantas a suportarem
o verão extremamente quente, que resultou em maturação precoce e uma colheita
muito seca, sem chuvas. Os rendimentos foram os mais baixos dos últimos
50 anos. O açúcar se concentrou (o que significa mais álcool nos vinhos),
mas a acidez não foi perdida. Os vinhos de 2000 trazem uma vantagem: são
concentrados, maduros, com boa fruta, podendo ser apreciados mais cedo
(5-8 anos), mas mantendo um potencial de guarda que pode ultrapassar os
20 anos.
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