Rodrigo
Gorga, sommelier da Tabacaria Lenat, foi o ganhador do mais importante
concurso brasileiro de harmonização de charutos, o Epicure Sommelier,
em 2004, e recebeu o quarto lugar do Abano Sommelier 2005, em Cuba. Além
de sua experiência diária de treze anos atrás de um balcão de charutos,
já fez alguns cursos, como o de Harmonização, com o especialista César
Adames. "Um bom profissional é quem conhece a fundo charutos e bebidas,
sabe oferecer ao cliente um bom charuto acompanhado de uma boa bebida;
é quem sugere, faz o corte e entrega o charuto aceso", explica César.
Gorga diz que existem alguns preceitos na harmonização, mas não regras
rígidas: "A única coisa que não vale é não tentar harmonizar com nada".
Existem, porém, algumas preferências mundiais; algumas bebidas quase que
unanimemente eleitas pelos fumadores como mais harmônicas. São elas: o
conhaque ou armanhaque; o rum (a mais tradicional e mais consumida ao
lado de charutos); o vinho do Porto; o uísque e as outras bebidas, entre
elas, o vinho e a cerveja. "A harmonia ideal é aquela que permite sentir
o sabor do charuto, o sabor da bebida, e um último sabor, novo e harmônico.
A grande chave é que os sabores e aromas se completem e nunca se sobreponham",
explica o sommelier.
Entre bebidas e charutos, como também na harmonização entre vinhos e
comidas, o que deve ser levado em conta em primeiro lugar são obviamente
os aromas e sabores particulares. "Em segundo lugar, e aí é que está o
grande lance, é o teor alcoólico da bebida". Bebidas com alto teor alcoólico
têm poder adstringente, 'limpam a boca' e aguçam as papilas gustativas,
por isso o sucesso da harmonização entre charutos e o conhaque ou o rum.
Para as outras bebidas, então, quanto mais alcoólicas, melhor: as cervejas
especiais são as mais recomendadas e os vinhos tintos mais encorpados
também caem bem.
Uma sugestão inusitada de Rodrigo Gorga é combinar o charuto com café
expresso e água com gás: "Nesse caso, as 'bolinhas' fazem o papel do álcool;
o café e o charuto combinam por seus tons tostados e paladar de personalidade.
Pode ser experimentada em qualquer hora, em qualquer lugar e é muito barata
também", diz Gorga. "Isso para acabar com o mito de que fumar charuto
deve ser caro e pomposo".
Vinhos e charutos
Além
do vinho do Porto, combinação clássica, Rodrigo sugere aos amantes de
vinhos que escolham os tintos mais encorpados e usem a sensibilidade para
a arte de harmonizar: "Tudo pode ser. Um espumante, por exemplo, pode
ser degustado junto a um charuto menor, mais rápido, num final de tarde
ou começo de noite. O melhor charuto do mundo, na verdade, depende do
horário em que ele é fumado, do tempo que dispomos para ele e da companhia".
Assim como nos vinhos, também podem ser encontrados centenas de aromas
nos charutos, porém, alguns são mais comuns: 1.especiarias, como a pimenta
preta; 2.madeira, como o cedro; 3.caramelo ou achocolatado; 4.terra úmida;
5.musgo e 6.couro. O blend do sabor é resultado do mix de folhas encontrado
na bucha do charuto, a parte interna, onde se concentram 80% das folhas
e do sabor. O capote é a folha que segura a bucha e, por fim, tudo é revestido
por uma capa, feita com outra folha, que pode ser clara ou escura. Na
capa estão concentrados de 10 a 20% do sabor. No Brasil, a produção de
charutos de capa clara ou escura se concentra na Bahia, onde o clima é
mais parecido ao de Cuba. "São três as regiões de charuto no mundo: Cuba,
Brasil e República Dominicana. O restante da produção é difusa", explica
Gorga.
A grande diferença entre os dois tipos de revestimento recai, obviamente,
no sabor. "Os de capa clara tendem a começar mais suaves e, no final,
trazem mais amargor e acidez. Os de capa escura começam mais amadeirados
e vão bem até o final. Não existe nenhum que seja melhor; existem, sim,
paladares diferentes. O melhor é o que a sua boca gostar", afirma o sommelier.
E finaliza: "Degustar charutos é uma arte. Tem o poder de tirar a pessoa
do estresse do dia-a-dia, além de agregar amizades. Sabendo, é claro,
sempre respeitar e não incomodar os outros".