Quem se inicia nas artes de Baco, logo descobre que o universo do vinho
é repleto de novas informações. Essa complexidade, ao mesmo tempo que
fascina, pode confundir os menos experientes, afugentando-os, ou alienar
os especialistas, afastando-os da verdadeira razão desse néctar, o simples
joie de vivre, a alegria de viver. Alguns preceitos essenciais, por mais
que nos aventuremos no mundo do nobre fermentado, devem sempre nos acompanhar:
1-
Temperatura
Alguém gosta de café frio ou de cerveja quente? Gelar os brancos em demasia
irá mascarar seus aromas, enquanto "temperatura ambiente" para os tintos
é um clichê que no Brasil, por seu clima quente, raramente se aplica.
Genericamente, sirva tintos a 18o C, brancos a 12o C e espumantes a 8o
C;
2-
Taça
É o instrumento do apreciador, uma espécie de amplificador das qualidades
da bebida. Apreciar um bom rótulo num copo reto de vidro grosso é como
ouvir Von Karajan regendo a Filarmônica de Berlim em um radinho de pilha.
Numa descrição genérica, a taça ideal é formada de base, haste e bojo,
que deve ter formato ovalado, estreitando em direção à borda; deve ser
totalmente transparente, de vidro fino, e jamais enchida de mais que um
terço de sua capacidade. Para os espumantes, o ideal é o copo alongado
do tipo flute;
3
- Adega
A maioria das garrafas que compramos é consumida rapidamente, em questão
de dias ou semanas. Para essas não é preciso tanta preocupação. Mas as
que serão guardadas por meses ou anos merecem cuidado especial. As condições
ideais para conservação são: colocar as garrafas deitadas em local com
ausência de luz, de vibrações e de cheiros fortes, em temperatura constante
(o ideal é cerca de 13° C), a umidade ideal é 65%;
4
- A idade da garrafa
O vinho é uma bebida viva, em constante mutação dentro da garrafa. O conceito
de "quanto mais velho melhor" é um mito, pois todo vinho nasce, amadurece,
mantém-se no auge por algum tempo e decai até ficar decrépito e morrer.
Os fatores que conservam os vinhos são: o teor alcoólico, o tanino (só
presente nos tintos), a acidez e a doçura. Vinhos com maior quantidade
desses fatores são mais longevos e melhor se prestam a envelhecimento
em garrafa;
5-
No restaurante
Deve-se pedir a carta de vinhos ao maitre ou sommelier. Examina-se
a lista com cuidado para a seleção do vinho ou vinhos que melhor se adaptam
ao gosto pessoal dos comensais, ao seu poder aquisitivo e aos pratos selecionados.
Pedir conselhos ao sommelier é válido. A garrafa deve ser conferida antes
de ser aberta, na presença de todos. A rolha pode ser colocada à mesa,
para que possa ser examinada. Uma pequena dose será servida a quem pediu
o vinho, para que este seja aceito e só então o resto da mesa que será
servida;
6-
Deixe o líquido respirar
Os vinhos, em sua maioria, devem ser consumidos assim que abertos. Alguns
tintos de maior corpo e longevidade, no entanto, se beneficiam de alguns
minutos de contato com o ar antes de serem degustados. Simplesmente abrir
a garrafa e deixar o líquido dentro dela não resolve, é necessário transferir
o conteúdo para uma jarra ou decanter, aumentando sua superfície de contato
com o ar;
7-
Garrafas abertas
Uma vez aberta a garrafa, o líquido se oxidará gradualmente até se tornar
imbebível, processo que pode demorar de algumas horas a vários dias. O
método caseiro mais eficiente para dar uma sobrevida a uma eventual sobra,
é a utilização de meias garrafas (de 375 mililitros). Ao abrir uma garrafa
grande, transfira metade do conteúdo para a menor, que deve estar perfeitamente
limpa. Encha-a por completo e depois arrolhe. Assim, o vinho pode resistir
alguns dias;
8-
O matrimônio
Combinar vinhos com alimentos é um tema tão complexo e prazeroso quanto
os relacionamentos amorosos. Casar pratos e vinhos é trabalho semelhante
ao dos cupidos ou das agências matrimoniais. Deve-se aprender sobre a
personalidade das partes, valorizar suas afinidades e tirar proveito de
seus contrastes. Busque combinações tradicionais ou crie suas próprias
e se enamore delas;
9-
A seqüência
Trocar de vinho durante uma refeição é normal e até recomendável. A troca,
entretanto, deve ser criteriosa. O ideal é que a seqüência siga um crescendo
de paladar. Os brancos antes dos tintos, os leves antes dos encorpados,
os medíocres antes dos grandes e os secos antes dos doces. A ordem errada
pode comprometer um vinho, enquanto a correta pode valorizá-lo;
10
- O prazer
Lembre que para todas as regras acima existem exceções que as confirmam
e que esta, a número 10, deve prevalecer sobre as demais. Apreciar vinhos
é uma arte, afinal, essa é a bebida mais complexa, completa e fascinante
que existe. Ao abrir uma boa garrafa, o verdadeiro artista deve, contudo,
subordinar todos os preceitos ao motivo pelo qual elegemos o vinho a nossa
bebida: o prazer.