
Provar vinhos que foram feitos por viticultores e vinhas que não vivem
mais é saborear o gosto de uma outra época. Realização semelhante à de
um arqueólogo ao penetrar numa tumba egípcia ou um historiador ao descobrir
um pergaminho. O que existe de verdade em torno da mística da velha e
empoeirada garrafa de vinho? Como sempre, uma mistura de lenda e verdade.
São muitas as perguntas e muitos os mitos. Quanto mais velho melhor?
O que muda no vinho com o envelhecimento? O que faz um vinho durar mais
que outro? Como conservar corretamente as garrafas? Preciso de uma adega
climatizada? Quais são as melhores do mercado? Algumas informações podem
elucidar essas dúvidas e fazer com que o leitor aprecie seus vinhos prediletos
agora, ou por muitos anos, acompanhando sua evolução, como quem acompanha
o crescimento de um filho.
O que muda no vinho com a idade?
Na
realidade, os que melhoram com o longo envelhecimento são minoria. Mas
o que é "melhorar"? Todos os vinhos mudam ao longo de sua vida dentro
da garrafa. Melhorar é quando essas mudanças são benéficas às suas características
(cor, aroma e gosto). Isso depende também do gosto pessoal de quem está
bebendo. Ingleses notoriamente preferem os grandes tintos de Bordeaux
no auge, o que pode levar mais de 20 anos, enquanto os franceses muitas
vezes cometem infanticídio abrindo-os muito antes.
É bom esclarecer a distinção entre o que chamamos de amadurecimento e
envelhecimento. O primeiro se refere ao tempo em que o fermentado foi
estocado em barris de madeira e, portanto, ainda não completamente elaborado.
O segundo se refere ao líquido já engarrafado. Na fase do envelhecimento,
o vinho sofre uma redução - os tintos perdem cor, ganham complexidade
e ficam menos ásperos, perdendo tanicidade* e acidez. Os brancos escurecem,
tendendo ao dourado. Aromas frescos se transformam em aromas como mel
e frutas como avelãs, por exemplo. Se o vinho for "de guarda" (prestando-se
a ser guardado por muito tempo), tende a se harmonizar e resolver a complexidade
com os anos.
Numa analogia, todo vinho nasce, amadurece, mantém a maturidade por um
tempo, decai até ficar decrépito e morre. Como todos os seres vivos, todo
vinho fenece um dia. É verdade que alguns, os fortificados, por exemplo,
são virtualmente imortais. A expectativa de vida do vinho é, contudo,
variável. Vai de apenas seis meses num Beaujolais Nouveau a até mais de
cem anos num Madeira.
Quais são os vinhos de guarda?
O que então faz essa diferença e como identificá-la? Os principais fatores
que conservam os vinhos são o teor alcoólico (que explica a grande longevidade
dos fortificados), os taninos (que explica porque os brancos, que não
os têm, são mais frágeis), a acidez (que explica porque alguns brancos
detêm mais durabilidade) e a doçura (que explica porque vinhos de sobremesa
são notoriamente mais resistentes). Exemplares com grande quantidade desses
fatores são mais longevos.
Um vinho com grande potencial de envelhecimento (muito álcool, muito
tanino, boa acidez), quando é muito jovem pode ser quase intragável. Precisa
de tempo para que o tanino evolua e se perca de maneira benéfica, harmonizando-se
com os outros fatores. Um vinho decrépito é aquele que já perdeu totalmente
suas características, mas não necessariamente avinagrou ainda.
Para boa parte dos produtos disponíveis no mercado o auge é: agora! Muitos
deles não melhoram depois de postos à venda, pois cada vez mais são produzidos
para consumo imediato. Para os que melhoram na garrafa, a curva evolutiva
varia de vinho para vinho, de safra para safra. Gurus da crítica usam
sua experiência para orientar sobre quando um determinado vinho estará
pronto ou no auge ou até quando deve ser tomado. O veredicto final sempre
será na abertura da garrafa.
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