Nascida
na região alemã de Baden-Württemberg e cercada por grandes extensões de
vinhedos produtores, principalmente, de uvas Riesling, o fabricante de
automóveis Mercedes-Benz, através do brilho de sua estrela de três pontas,
vem conduzindo uma legião de fãs por todo o mundo desde a época de sua
fundação. O perfil dos apaixonado pelos belíssimos veículos dessa marca
é facilmente comparável ao de um aficionado por vinhos. Ambos valorizam
detalhes, requinte, evolução e qualidade. Dessa forma, desde a fabricação
do seu primeiro automóvel, a produção de veículos Mercedes-Benz é marcada
por episódios pontuados pela paixão pela bebida dos deuses. Demonstrando
que há muito mais coisas envolvidas no terroir de onde florescem as grandes
paixões.
Criada pelos engenheiros Goittleb Daimler e Karl Benz - sendo o primeiro
deles filho de um pequeno comerciante de vinhos e o segundo um reconhecido
apreciador de vinhos tintos - a montadora alemã sempre primou pela qualidade,
durabilidade e por entregar ao consumidor muito mais do que um produto
similar entregaria. Assim, figura entre as Premieres Grand Cru do mundo.
Assim como ocorre com os mais renomados Châteaux, sua marca sempre foi
sinônimo de sofisticação, diferenciação e qualidade.
A relação entre Mercedes e vinhos remonta à época da fabricação de um
de seus primeiros modelos. Um rico comerciante e negociador dos veículos
da então chamada Daimler Motoren Gessellschaft (DMG), Emil Jellinek, solicitou
a seu engenheiro-chefe, Wilhelm Maybach, a fabricação de cinco veículos
com novos motores, muito mais potentes do que os de costume, para os levar
à região de Nice, França. A encomenda contou com motores em alumínio dotados
de alguns recursos inovadores, o que foi um avanço considerável na fabricação
de veículos. Jellinek, então, decidiu que esses novos e surpreendentes
automóveis deveriam receber uma identidade própria, batizando-os de Mercedes
- em homenagem à sua filha de nove anos. Mal os potentes carros foram
construídos, dois deles já haviam sido vendidos ao Baron Henri de Rothschild;
pai de Nathaniel de Rothschild - que anos mais tarde fundaria o marco
vinícola Château de Mouton Rothschild. Sendo assim, um membro da família
produtora de um Bordeaux top, o Mouton Rothschild, foi o primeiro comprador
do veículo "Mercedes".
O tempo passou, mas as características e o interesse despertados pelos
automóveis continuaram crescentes, atingindo cada vez mais uma legião
de amantes dessas máquinas. Possuir uma Mercedes nunca foi relacionado
à simples posse de um automóvel. Ter o privilégio de ter um exemplar estacionado
em sua garagem é motivo de uma satisfação compreensível apenas para aqueles
que têm o prazer de "degustar" um veículo desses. O ronco do motor, a
textura dos bancos, as formas da carroceria, entre outros aspectos, são
minimamente apreciadas de uma forma que, por diversas situações, chegam
a se confundir com o prazer proporcionado ao beber um bom vinho. Uma crítica
norte-americana de restaurantes, Dara Moskowitz, por exemplo, em uma degustação
de um vinho de Pauillac composto por 85% de Sauvignon Blanc, disse que
o cheiro do mesmo a remetia a uma "Mercedes novíssima, com o interior
todo em couro, na qual alguém esteve fumando um Gauloise".
Em algumas ocasiões, as Mercedes se fazem presentea até no terroir de
regiões viticultoras. Na região californiana de Napa Valley, EUA, existe
um fenômeno climático ocasionado pela mistura do calor e o verão seco
com a refrescante névoa marítima, proporcionando à região grandes variações
de temperatura; gerando uma situação não encontrada em nenhum outro lugar
do mundo. Tal ocorrência ganhou o nome de "Efeito Mercedes" pois, segundo
aqueles que a batizaram, apesar das grandes variações entre altos e baixos,
"a temperatura muda tão suavemente quanto uma Mercedes trocando suas marchas".
Pelo
mundo afora, toda essa relação entre Mercedes e vinhos vem sendo bastante
explorada. Em alguns países como a Nova Zelândia, por exemplo, existem
eventos como o Hawke's Bay A&P Mercedes-Benz Wine Awards, que premia os
produtores de vinhos de primeira classe produzidos com as uvas daquela
região. Por outro lado, aqueles que se interessarem em conhecer grandes
regiões vinícolas como a da Toscana na Itália, a de Hunter Valley na Austrália
e de Rioja na Espanha, dentre várias outras, em grande estilo, poderão
fazer isso a bordo de luxuosos veículos Mercedes-Benz. Vários pacotes
de visitação oferecem esta opção como forma de transporte e são facilmente
encontrados na Internet.
Não é preciso, no entanto, viajar mundo afora para apreciar os fascinantes
modelos Mercedes em companhia de boa bebida. Ocorreu em outubro, na cidade
mineira de São Lourenço, o "Encontro de Veículos Clássicos Mercedes-Benz".
O evento contou com degustação e palestra de vinhos do enófilo Tufi Neder
Meyer, reuniu dezenas de "Mercedistas" que apreciaram tanto os belos clássicos
da marca, quanto os vinhos. Muitos dos presentes já eram confrades em
fóruns enológicos da Internet. O sucesso da interação foi tanto, que já
está nos planos do próximo encontro a inclusão de um curso completo sobre
vinhos inserido no programa do evento.
Assim como uma boa adega precisa de alguns nomes, uma garagem exige o
brilho da estrela para que esteja completa. Em ambos os casos, exemplares
antigos são muito procurados. Há vinhos que ganham valor com o tempo,
assim como os automóveis clássicos Mercedes-Benz, que são - como o caso
de um taxista grego - capazes de atingir quilometragens superiores a 4.000.000
de quilômetros rodados, mantendo toda a sua integridade e refinamento.
*Moa é organizador de encontros entre os membros do fórum MBClassic
(www.mbclassic.net)