
Falar da vindima de 2008 no Brasil é muito mais do que dizer: podemos esperar por vinhos surpreendentes quando as garrafas finalmente estiverem sobre nossas mesas. É mais do que traduzir números, tabelas e equalizar tantas vozes dessa nossa nova e punjente vitivinicultura. É contar uma história feita de desafios, paixões, tecnologia, muita paciência e, principalmente, muito amor pela terra e pelos frutos por ela gerados.
Como já escrevi muitas vezes neste espaço, fazer vinhos finos no Brasil não é fácil. Nossos terroirs têm, normalmente, mais chuvas do que as uvas necessitam. Nossos produtores ainda têm problemas com mão-de-obra especializada, carga tributária excessiva e um mercado consumidor com alguma resistência aos rótulos da própria terra.
Mas, na época da colheita, nada disso importa. O que interessa a todos produtores neste momento é o intangível. Traduzido, no mundo das uvas, pelo comportamento da natureza quando a colheita se aproxima e principia. Tempestades de verão, chuvas de granizo e seca intensa são os fantasmas que vêm puxar os pés de enólogos e agrônomos assim que o ano começa. Estes podem se tornar pesadelos tão reais, a ponto de, literalmente, jogar por terra o trabalho de um ano inteiro.
Para nossa felicidade, neste 2008 a natureza resolveu ser generosa com o Brasil. É quase consenso entre produtores que esta é uma das melhores vindimas que o país já teve em sua história: “Felizmente o clima nos brindou com uma excelente colheita, que já pode ser comparada à de 2005, uma das mais consistentes que já tivemos”, conta Fábio Miolo, da Miolo Wine Group, que possue vinhedos e vinícolas em diversas regiões do Rio Grande do Sul e também no nordeste. Por consistência entenda-se que a qualidade das uvas está homogênea e muito boa nas distintas áreas cultivadas. Quem concorda com Fábio Miolo é o enólogo Jean Pierre Rosier, que presta consultoria para diversas vinícolas em Santa Catarina e acredita no potencial da região para vinhos de tipicidade marcante. “O clima colaborou muito neste ano, só nos resta (aos enólogos) não estragar o presente que recebemos”, brinca Rosier.
Independentemente da procedência (França, Itália, EUA, África do Sul), as videiras de uvas viníferas têm necessidades em comum para poderem produzir bons frutos. Elas precisam de solos com boa drenagem, dias quentes, noites frias e água na medida certa. Assim, é muito fácil perceber o quanto disso é deixado nas mãos caprichosas – e por vezes vingativas – da mãe natureza. Para o enólogo Anderson Schmidt , que tem a rara oportunidade de trabalhar em três regiões distintas - Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná - a safra deste ano realmente surpreendeu. Segundo ele, as três regiões nas quais trabalha apresentaram invernos rigorosos, pouca chuva no período de floração e brotação e um verão mais seco do que o normal, até mesmo no centro do Rio Grande do Sul. Onde normalmente, as uvas de maturação lenta - Cabernet Sauvignon, por exemplo - costumam ter seu crescimento prejudicado pelo excesso de água.

Schimidt também antecipa ótimos vinhos base para os espumantes e acredita que a safra 2008, quando estiver engarrafada, vai encantar o mercado.
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