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Argentina Explosão de qualidade

Depois de Mendoza, nossos vizinhos mostram ao mundo Salta, ao norte, Patagônia, ao sul, e muito mais...

por Luiz Gastão Bolonhez


Foto: Luna Garcia

A cultura do consumo do vinho está no sangue argentino. O país sempre produziu e consumiu muito, e exportou pouco. Em 1983, era o quinto maior produtor do mundo, com quase 25 milhões de hectolitros, atrás apenas de Itália, França, Espanha e a ex-União Soviética. Essa quantidade era, em sua maioria, destinada a "matar a sede" dos próprios argentinos.

A influência dos europeus - com ênfase em espanhóis e italianos -, aliada ao clima e a uma alimentação rica em proteína e carboidratos, levou o país a ter um dos maiores consumos de vinho per capita do planeta. Enquanto nós, brasileiros, consumimos 1,8 litro por habitante por ano, nuestros hermanos bebem 28,6 litros. Essa marca os colocou como 13º maior do mundo em consumo per capta em 2004. No entanto, a Argentina já foi o quarto país em consumo por habitante em 1975, quando bateu 83,7 litros por pessoa/ano. Em área plantada, nosso vizinho está em 11º lugar, com 213 mil hectares, com produção de pouco mais de 15 milhões de hectolitros.

Esses dados mostram a importância do vinho na mesa argentina, mas, mais do que isso, revela que o elevado consumo interno - que, em princípio, seria uma grande vantagem - serve, na verdade, como um inibidor da abertura de seu mercado externo. Até o início da década de 80, a presença de vinhos argentinos de qualidade no exterior era quase insignificante. Esse cenário só mudou quando eles começaram a privilegiar a qualidade e não a quantidade. Hoje, seus fermentados são apreciados em todo mundo, inclusive nos mais tradicionais países produtores.

A terra e o clima
O mapa do vinho na Argentina é vasto. Começa em Salta, ao norte, com mais de 2 mil metros de altitude, e vai até o Vale de Rio Negro, na Patagônia, no paralelo 42. Nesta vasta região (de quase 2 mil quilômetros), podemos encontrar desde terras altas a planícies. Nem o Chile tem maior amplitude em latitude. O país só é suplantado em latitude de vinhedos pelo Brasil.

A Cordilheira dos Andes, lado oriental, é o marco de maior influência na vitivinicultura argentina. Não só em função do relevo, pois é a fonte de vida das videiras, que sobrevivem com a água do degelo. A precipitação média anual vai de 100 a 300 mm por ano, quase toda concentrada no verão. A quantidade necessária para prosperar uma vinha é de 500 mm de chuva/ ano. Esse déficit é compensado pelo degelo dos Andes. As vinhas recebem água através da irrigação.

Segundo a Escala de Winkler - que categoriza as regiões em cinco climas -, na Argentina encontramos três tipos bem definidos. O noroeste (Salta e cercanias) é descrito como quente e muito quente. Quente e moderadamente quente em Cuyo (uma grande referência em Mendoza). E moderadamente frio na Patagônia. Devido ao grande calor, que se prolonga pelo outono e que absorve rapidamente eventuais chuvas - pois as terras estão bem secas -, a colheita pode ser realizada bem tarde.

Principais regiões
A Grande Mendoza

O país tem, na Grande Mendoza, a principal máquina na produção de vinhos. Cerca três quartos vem de lá. Essa linda região, com a cordilheira ao fundo, mudou. Passou radicalmente da produção de grande volume sem qualidade para grandes vinhos que podem ser comparados aos melhores do mundo. A altitude varia entre 800 e 1.200 m e a precipitação de chuva insuficiente para o desenvolvimento das vinhas é única no mundo.

A província de Mendoza tem inúmeras sub-regiões. Entre elas, a mais tradicional, Lujan de Cuyo, é onde existe um grande número de bodegas de alta expressão: Agrelo, Perdriel, Rivadavia, Maipú, Santa Rosa e, o novo e badaladíssimo, Vale de Uco (La Consulta, Vista Flores, Tunuyan etc). Esta última tem recebido recentemente os maiores investimentos e está sendo considerada a nova região para produção de belos fermentados, consolidando a Malbec, mas com foco impressionante na Syrah. Ao sul, há a tradicional região de San Rafael, com enorme força na produção de vinhos de todas as gamas e também com bodegas de renome.

San Juan, tradição e modernidade
Ao norte de Mendoza, como numa seqüência de tipologia, está a vasta região de San Juan, com importante papel na vitivinicultura argentina. Dentre outros vales, os mais conhecidos são: Vale de Tulúm, Vale de Zonda e Vale de Pedernal. É interessante notar que as bodegas líderes dessa região também apostam na plantação da Syrah. Mas a Tannat, ícone no Uruguai, desenvolve-se muito bem por lá.

Salta, as vinhas mais altas do mundo
Na província de Salta, no noroeste da Argentina, localiza-se o Vale de Calchaquies, onde podemos encontrar as vinhas mais altas do mundo. Algumas estão plantadas a mais de 2 mil metros de altitude (algumas poucas vinhas do Vale da Aosta, na Itália, também reivindicam o título de mais altas). Nessa região, talvez estejam os mais potentes vinhos do mundo. Devido às temperaturas extremas e à maturação tardia, encontramos - sem muita dificuldade - fermentados à base da Malbec que superam 15% de álcool. São vinhos potentes e de grande profundidade. O enólogo francês, Michel Rolland, iniciou seus ensaios por lá há mais de dez anos e alcançou resultados expressivos, atingindo até 16,5% de álcool. Para amantes de vinhos com alta potência, muito corpo e álcool abundante, esses são os que mais impressionam em todo o mundo.

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