Ainda
que as temperaturas ambientais elevadas possam influenciar o desejo de
beber vinhos, os comentários de que os tintos não são adequados para o
Verão não procedem e os argumentos usados em tais comentários não têm
sustentação. Tratando-se, entretanto, de uma bebida alcoólica à qual não
se deve adicionar gelo, pois isso lhe altera a essência, a degustação
de vinhos tintos nas épocas mais quentes do ano merece algumas considerações
e certo enquadramento. Algumas orientações quanto à escolha e à degustação
de um "tinto de Verão" devem ser consideradas, sendo que um dos seus atributos
pode ser destacado de imediato: deve ser apropriado para ser bebido frio,
diferentemente dos tintos encorpados e taninosos.
Assim sendo, com referência a tipo e estilo, a preferência deve ser para
os chamados tintos jovens, prontos para o consumo dentro de dois a quatro
anos após a safra, não mais que cinco, elaborados usualmente com uvas
internacionais menos estruturadas como a Cabernet Franc, a Gamay, a Pinot
Noir, alguns Merlots fora de Bordeaux, além de variedades regionais tintas
mais leves: Bonarda, Barbera, Trincadeira...
No
que diz respeito às sensações, eles devem agradar pelo brilho de sua cor
rubi, por seus aromas florais, frutados e de vegetais frescos, pela acidez,
e conseqüente frescor, ainda marcante, com um fim de boca francamente
frutado. Corpo, teor alcoólico e tanicidade devem ser apenas moderados.
Considere-se em seguida a temperatura de serviço. Mesmo que você seja
cético em relação à maneira de degustar dos enófilos, atente pelo menos
para a temperatura de serviço. Servir um tinto muito quente é um meio
garantido para se dar mal com um bom exemplar, arruinado pela causticidade
do álcool. Muito frios, os tintos apresentam-se sem aromas e, anestesiadas
as papilas, quase sem sabor. No caso dos vinhos de verão, o serviço deve
ser próximo de 14ºC e, se há dificuldades de controle da temperatura,
é melhor exagerar no resfriamento pois o vinho aquece rápido e, se for
necessário aquecê-lo mais um pouco, basta envolver o corpo do copo com
as mãos.
Quanto mais leve e menos taninoso for o vinho - e diversos vinhos modernos
são pouco taninosos - mais fresco deve ser servido. Um Beaujolais comum,
por exemplo, tinto de verão por excelência, poderia ser servido entre
12 e 14ºC, pouco mais que um branco. Finalmente, lembremos que os tintos
de verão são indispensáveis quando se trata de acompanhar adequadamente
a comida, em especial embutidos, presuntos, carnes frias como rosbife,
massas e queijos simples e pouco gordurosos como pede o Verão.
Alguns tintos brasileiros menos amadeirados já consolidados no mercado,
como os Valduga, Cave de Amadeu, Terranova, etc. e outros recém chegados
como os da vinícola Lídio Carrara, podem atender aos requisitos acima
de forma vantajosa. Procure a safra mais recente, de 2001 para cá, confira
se o teor alcoólico é igual ou inferior a 13ºC, e o beba refrescado a
cerca de 14ºC. É um tinto com gosto de verão!
*Euclides Penedo Borges é Vice-Presidente da ABS-RJ.