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| Torben Grael |
Netuno está para os navegantes, assim como Baco está para o mundo do
vinho. Enquanto marinheiros pedem proteção ao deus do mar, agricultores
cultuam o soberano do vinho para que ele propicie uma boa colheita de
uvas. Infelizmente, a lenda já quase não existe pelos parreirais do mundo,
mas a crença entre os navegadores continua com alguns ajustes à modernidade.
Antigamente, os marinheiros a bordo enrolavam oliveiras em suas cabeças,
brindavam com vinho em homenagem às suas divindades, criavam um altar
para um figurante representar Netuno e derramavam água pelo barco, antes
de navegar.
Nos dias de hoje, a tradição consiste em batizar a embarcação regada
a muito champagne. "Faz-se uma oferenda aos deuses do mar, em direção
a barlavento (lado que entra o vento), com uma garrafa de champagne que
deve ser quebrada na proa do barco. A bebida também deve ser servida aos
amigos-testemunhas que participaram da ocasião solene", conta João Schimidt,
velejador e autor de quatro publicações sobre navegação.
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| Lars Grael e seu proeiro |
Velejadores consagrados como Lars Grael, nada menos que dez vezes campeão
brasileiro na classe Tornado, entre outros títulos, acreditam na crença
e não deixam de batizar seus barcos para pedir proteção em alto-mar. "Sempre
batizei meus barcos antes de velejar. Mas não ofereci apenas champagne
aos deuses. Tiveram ocasiões que o batismo foi feito com cerveja e cachaça",
revela Lars.
O velejador Roberto Pandiani também acredita no batismo com champagne.
"Essa tradição já vem de tempos e eu respeito. Também costumo 'estourar'
um champagne em ocasiões especiais, como na comemoração de um título",
diz Betão, como é conhecido.
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| Robert Scheidt |
Se as reverências a Netuno deram vitórias e proteção aos atletas brasileiros,
Baco, por sua vez, proporcionou diferentes sabores aos seus paladares.
No batismo usa-se o espumante, mas em terra firme ou até mesmo a bordo,
por diversão, a preferência unânime entre os velejadores é pelo vinho
tinto. "Adquiri um Château La Borde, em Bordeaux este ano, durante a semana
de vela local. Sempre que viajo, experimento vinhos da região após os
campeonatos", conta Robert Scheidt, bicampeão olímpico e heptacampeão
mundial de Laser.
Os irmãos Torben e Lars Grael também apreciam mais o vinho tinto. "Bebo
vinho apenas socialmente e de preferência tinto. Gosto bastante dos chilenos,
já o meu irmão é um grande conhecedor de vinhos e curte muito a cultura
da bebida", revela Lars sobre o irmão, já que Torben não pode nos conceder
entrevistas, pois está a bordo do Brasil 1, participando da Volvo Ocean
Race.
Beto Pandiani, em sua Travessia pelo Drake, além de velejar que é a sua
maior paixão, teve a oportunidade de apreciar um bom vinho argentino durante
os dias de frio. "Lembro que abastecemos o barco de apoio na Argentina
com 180 garrafas de vinho tinto para nos aquecer diante daquele gelo todo",
revela Betão.
É fato que a bebida de Baco está presente na vida dos navegantes desde
a antiguidade, mas em competições, os atletas deixam o vinho apenas para
a comemoração. Fora isso, não existe melhor combinação do que um brinde
em alto-mar!