Opressão de Bordeaux
No entanto, os poderosos produtores e comerciantes bordaleses, sentindo-se ameaçados, mobilizaram-se para pressionar Londres e conseguiram arrancar do rei da Inglaterra alguns privilégios exorbitantes, o que resultou num duro golpe para os produtores gascões. Além de sofrerem pesada taxação, os vinhos do sudoeste só podiam chegar à capital inglesa depois que toda a produção bordalesa estivesse vendida. Tal regra durou cinco séculos (foi interrompida apenas em três curtos períodos) e o vinho da região sentiu o golpe. Esta conduta só foi abolida em 1776, pelo liberal ministro de finanças de Luís XVI, Jacques Turgot, quando se iniciou um novo ciclo dourado dos fermentados de Cahors.
Apesar da Revolução Francesa e das guerras do Império já no século XIX, 75% do vinho da região era exportado e um terço das terras agriculturáveis eram dedicadas à vinha, que cobria a impressionante área de 40 mil hectares. A região enfrentou bem a praga do oídio (de 1852 a 1860) e a superfície plantada subiu ainda mais, chegando a 58 mil ha. Para se ter uma ideia da queda que viria mais tarde, a área do vinhedo de Cahors hoje é de apenas 4.200 ha.
Mas o território teve pior sorte ao enfrentar a filoxera no final do século XIX. Como se sabe, todos os vinhedos atacados no mundo tiveram de ser replantados, desta vez, de forma enxertada. Então, as vinhas de Malbec reagiram muito mal a esta nova situação, dando origem a fermentados medíocres, com qualidade muito abaixo da que tinha anteriormente. Apenas no final dos anos 1940, depois de muita pesquisa, chegou-se ao clone 587 da Malbec, que teve muito boa adaptação. Assim se retomou, então, sua marcha ascendente até chegarmos a 1971, quando Cahors é declarada região AOC (Appellation d'Origine Contrôlée, denominação de origem controlada).
AOC de Cahors
As normas dessa denominação determina que o vinho deve ser composto de, pelo menos, 70% de Malbec, sendo o restante feito com a tânica Tannat e a macia Merlot. A Cabernet Sauvignon e a Cabernet Franc não são permitidas. O vinho é bastante escuro e encorpado, com boa fruta e mais austero e seco do que o Malbec argentino. Dependendo da sub-região, pode ser mais leve e para consumo mais precoce, ou mais estruturado e passível de longa guarda.
Em recente degustação de Malbecs argentinos e cadurcianos, os franceses não decepcionaram, confirmando o bom momento da região. O escritor norte-americano Ernest Hemingway, que morou por longo período na França, era um fã declarado dos potentes vinhos de Cahors, que tanto se afinavam com sua personalidade.
Mercado
No entanto, em termos de mercado internacional, os vinhos de Mendoza estão muito à frente. Sua área plantada é de 21 mil hectares (contra 4.200 de Cahors). A França toda tem 7 mil ha e o resto do mundo 5 mil. Favorecidos pelo critério adotado largamente no Novo Mundo de mencionar o tipo da uva em seus rótulos, além, é claro, da alta qualidade de seus vinhos, os argentinos vêm dominando o mercado.
Os franceses despertaram para isso e, contrariando a tradição, começam a mencionar no rótulo, além da Appellation d'Origine Contrôlée, o tipo da casta. Os bons resultados começam a ser sentidos. Os produtores de Cahors adotaram também a inteligente política de se ligarem a produtores argentinos na divulgação de seus produtos. Organizaram em 2008, em Cahors, as Premières Journées Internationales du Malbec. A segunda mostra aconteceu em 2009, na Argentina. O jornal francês Le Figaro noticiou recentemente que o próximo passo será um stand único para as duas regiões na próxima London Wine Trade Fair. Agora é aguardar os resultados.
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