Muita gente está acostumada a conhecer os vinhos pelos nomes de suas uvas. Isso, obviamente, não é um sacrilégio, apesar de ser um pouco de preconceito. Especula-se que todo enófilo que se preze conhece Cabernet Sauvignon, Merlot, Pinot Noir, Syrah, Malbec, Nebbiolo, Chardonnay, Sauvignon Blanc e até Carménère - que ultimamente ganhou mais exposição no Brasil devido a uma enxurrada de vinhos varietais à base dessa especial cepa francesa, que fez fama no Chile.
Pois bem, muitos estão bitolados em algumas uvas. É lógico que vinhos elaborados a partir das castas citadas acima são, em sua maioria, excepcionais. A partir, por exemplo, da Cabernet Sauvignon e da Pinot Noir, temos os mais badalados, procurados, caros e requisitados vinhos do mundo, principalmente os provenientes da França. A Borgonha, com exclusividade na Pinot Noir em seus tintos, e Bordeaux, com a Cabernet Sauvignon liderando os famosos cortes, são religiões entre os mais apaixonados por grandes vinhos.
Nem tudo que é bom é Cabernet
Sendo assim, para fugir do óbvio, nesta edição decidimos dedicar tempo às desconhecidas castas que produzem vinhos muito especiais e alguns até excepcionais. Ou seja, vamos quebrar o paradigma de que, para bebermos um grande vinho, é necessário que ele seja produzido a partir de uma uva "famosa".
A inspiração para tal empreitada nasceu em 2008, em um jantar com o Sr. Miguelàngel Cerdá, proprietário de uma bodega Anima Negra, localizada na ilha de Palma de Mallorca, costa mediterrânea na Espanha. Miguelàngel começou apresentando seu branco e, para a surpresa de todos, a uva predominante era chamada de Moll. Vocês já ouviram falar? Pois bem, esse vinho, denominado Quibia 2007, estava excelente. Parou por aí? Não! Os próximos, os tintos, eram todos de castas desconhecidas. E foi o AN 2004, produzido com predominância da cepa Callet, que tirou suspiros de todos. É muito, mas muito difícil alguém ter ouvido falar sobre essa uva. Talvez nem o tenista Rafael Nadal e sua família, oriundos de Mallorca, tenham ciência dela.
Sendo assim, decidimos escolher algumas castas desconhecidas da maioria dos apreciadores do líquido de Baco (que tivessem produtos disponíveis no mercado nacional) e abordá-las para os nossos apaixonados leitores. Como é bom saber que existem infinitas uvas mundo afora produzindo vinhos especiais.
Itália, gama sem fim de uvas indígenas
Único país do mundo a produzir vinhos em todas as regiões, a Itália oferece uma infinidade de uvas autóctones que vão de norte a sul, incluindo o arquipélago da Sicília e a ilha da Sardenha. É impressionante como elas são únicas e com tipicidade. Na maioria das vezes, essas castas representam uma região ou uma denominação de origem.
Aqui vale uma dica importante (pois é cada vez mais difícil comprar um Barolo ou um SuperToscano - já que os preços sobem de maneira quase injustificável): é nesse espaço que o enófilo deve penetrar, pois temos vinhos espetaculares fora do eixo Piemonte e Toscana.
Norte da Itália Friuli, Alto Adige, Trentino e Vêneto Moscato Rosa
A Moscato Rosa é uma uva da família da Moscato, somente encontrada no Alto Adige, na Itália, e em algumas regiões da Áustria e Alemanha. Nestes dois últimos países, ela é chamada de Rosenmuskateller. É uma vide com cachos de cor rubi, que pode produzir desde vinhos secos a espumantes e alguns doces - sendo estes últimos os mais diferentes e únicos dentre todos. Seus fermentados são quase sempre perfumados, com muita carga floral e predominância de rosas. São elegantemente doces, porém sem excessos.
Ribolla Gialla
No Friuli, podemos encontrar uma série de castas únicas e escolhemos a branca Ribolla Gialla. Encontrada em plantações nas DOC (Dominazione de Origine Controlatta) de Collio (Goritzia) e Colli Orientali (Udine), bem como logo após a fronteira, já na Eslovênia, onde é chamada de Rebula. Seus vinhos são de uma acidez penetrante, com boa carga mineral (sílex) e leves tons frutados, com destaque para cítricos. Não é um fermentado com nuances doces. É straight to the point. Uma bela experiência para quem aprecia brancos secos e com muita personalidade.
Refosco dal Pedunculo Rosso
Ainda do Friuli, e com boa quantidade de hectares plantados, temos a tinta Refosco dal Pedunculo Rosso, que, como a branca Ribolla, tem alto grau de acidez, mas produz vinhos bem escuros, com taninos muito presentes e nuances verdes (marcante teor herbáceo). Se não colhida com boa maturação, seus taninos são sólidos como rocha e muito duros para serem apreciados. É uma uva de maturação tardia que, na grande maioria dos casos, produz fermentados longe de madeira - o que mantém suas características e tipicidade.
PÁGINAS :: 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | Próxima >>