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En Primeur

Para quem quer aproveitar e garantir bons vinhos com preços de oportunidade, comprá-los ainda em barrica é um modo interessante

Por Arnaldo Grizzo


divulgação

Muitos enófilos gostam da máxima: "Em termos de investimento, o vinho é o de melhor liquidez possível. Você o abre e bebe". Porém, há muita gente que investe, não apenas para degustá-lo futuramente, mas para ganhar algum dinheiro com sua valorização. Existe até acompanhamento de índices de mercado (com apostas especulativas e tudo mais) para acompanhar as oscilações. Há ainda algo como uma espécie de "mercado de Futuros", conhecido como En Primeur.

"Primeur" pode ser traduzido como "novo", "jovem", "algo que está no começo". No entanto, como isso se traduz no mundo do vinho? Simples, é a compra de fermentados que ainda estão em barrica, alguns anos longe de se tornarem produtos finalizados, e só serão engarrafados e disponibilizados para o mercado futuramente. Ou seja, é como uma aposta em um mercado de Futuros.

Financiamento do Château

Esta prática é muito comum especialmente para os vinhos de Bordeaux. Os grandes Châteaux, que produzem vinhos de renome - especialmente os Grand Crus Classés -, costumam vender antecipadamente uma parte de sua produção anual. Alguns meses após a colheita, os proprietários convidam seus négociants para provar o fermentado ainda em barricas. Jornalistas e outros formadores de opinião também costumam ser convidados.

Após a prova, os Châteaux vendem uma parte para os negociantes (as allocation), que vão atrás de outros compradores pelo planeta. Esta prática serve para que os vitivinicultores financiem sua produção. Dependendo do ano, isso pode significar até 80% do faturamento do Château. Ou seja, é como uma empresa vender ações em Bolsa para se capitalizar.

Diz-se que o comércio de vinhos en primeur é tão antigo quando a vitivinicultura em Bordeaux. Contudo, esse sistema de negócio, conhecido como Place de Bordaeux, é algo que funciona efetivamente desde a década de 1970 e nos últimos anos tem aparecido nas manchetes de todo o mundo, cada vez mais ansioso por adquirir bons vinhos aos melhores preços possíveis. E não somente os Bordeaux, mas de algumas outras regiões como Borgonha, Vale do Rhône e até Porto e ícones do Novo Mundo.

Como funciona?

Após adquirir suas alocações (basicamente uma determinada quantidade de produto que o Château vai fornecer pelo preço estipulado), o negociante vai em busca de compradores. Um Châteu costuma lidar com diversos mercadores, que possuem diferentes cotas dependendo de seu relacionamento com os donos, nível de compra anual, etc.

Os proprietários definem seus preços, baseados em tendência de mercado e nas avaliações dos especialistas (o que forma a Place de Bordeaux), e os negociantes tentam ganhar um ágio em cima disso. Caso não consigam revender os produtos, são eles que arcam o prejuízo de todo o valor que compraram do Château. Ou seja, neste negócio, há um sério risco ao negociante. Portanto, antes de comprar é sempre preciso conhecer bem o mercador.

Os interessados procuram os negóciants e asseguram suas compras. Terminada esta fase, só resta esperar. Em Bordeaux, os vinhos de uma safra geralmente só serão colocados no mercado dois anos depois. Ou seja, você está comprando uma garrafa dois anos antes de ela efetivamente existir. Ou seja, quando os vinhos são postos no mercado, terão outro preço (costumeiramente maior do que o da compra en primeur).

Como comprar no Brasil?

Se você quer comprar algum vinho en primeur no Brasil deve procurar importadoras que façam este meio campo. Atualmente, só há duas atuando neste mercado, a World Wine e a Grand Cru. Eles compram dos négociants e revendem aqui. Para ter acesso aos mercadores, é preciso ter um bom histórico de compras e bons relacionamentos.

"Todo dia recebemos ofertas de vários negociantes. Mas, em Bordeaux, antes de mais nada, é uma compra de oportunidade. Oferecem 10 caixas de um Châteu a um bom preço e você tem que reagir muito rápido. E, principalmente, a importadora tem que ter saúde financeira para poder fazer isso (pois também corre o risco de não conseguir revender os vinhos num primeiro momento)", conta Matthieu Péluchon, diretor de vendas da World Wine.

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