O vinho do islã
Já que sabemos o que contribuiu para a língua e para a música, mas o que fizeram os árabes pelo vinho ibérico (herança dos romanos, que o herdaram dos gregos, que o herdaram dos fenícios)? A horticultura dos povos islâmicos era muito avançada. Eles estavam à frente dos ocidentais em muitos aspectos tecnológicos. Contribuíram significativamente para a cultura da vinha e acredita-se que tenham incorporado novas cepas à produção local.
Mas também o vinho era proibido pelo Islã. Dependendo da região e do humor dos juristas islâmicos, por vezes mandaram destruir vinhedos inteiros, sob alegação divina de que a bebida corrompe o homem. Só que os povos pré-islâmicos eram grandes amantes da bebida, sobretudo os persas. Esta cultura resistiu de alguma forma, mesmo entre fiéis, o que garantiu uma rica tradição da qual podemos, felizmente, desfrutar. Quem resiste ao vinho, afinal? Como nos versos do Rubaiyat, de Omar Khayyam, na tradução de Manuel Bandeira:
Traz-me vinho, toca o alaúde e que as suas notas,
Suas modulações façam lembrar-me
A brisa que cicia nas ramagens
Das árvores, a brisa leve, leve,
Leve... A brisa que passa como nós!
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Mariza: comparada com Amália Rodriguez, para o bem, ou para o mal |
Fado renovado
Mariza nasceu no Moçambique, mas foi criada em Portugal. Surgiu em 2002 na cena musical com "Fado em mim". Foi logo aclamada como uma renovadora do gênero. Como toda cantora dessa cultura, é influenciada profundamente por Amália Rodrigues, a quem é sempre comparada, para o bem e para o mal. Sua voz doce e sofisticada torna a experiência de ouvir fado grandiosa. Uma canção em particular é um deleite. Chama-se Lírios. Há que se ouvir. Vale muito também o DVD "Concerto em Lisboa", com o violoncelista brasileiro Jaques Morelenbaum e a Sinfonietta de Lisboa.
O último álbum de Mariza foi lançado no ano passado com o título "Terra", no qual, infelizmente (pelo resultado, não pela proposta), começa a flertar com outras expressões musicais. Quanto aos discos anteriores, dá vontade de empilhá-los e ouvi-los um a um, cada qual acompanhado de uma garrafa diferente, seja de um Moscatel de Setúbal, de um bom exemplar de Vinho Verde (Sim!) ou de um grande exemplar de Porto Vintage, que merece também uma iguaria da doçaria portuguesa, como os pastéis de Santa Clara ou os de Belém. E, se for ter bacalhau, aí temos terreno para uma controvérsia histórica (vinhos brancos ou tintos?). Mas, de qualquer maneira, muito azeite e batatas, por favor! E melancolia só vira tristeza para quem deixa derramar o vinho.
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