Especula-se que os primeiros recipientes de madeira foram desenvolvidos por volta do ano 200 a.C., substituindo a antiga e limitada ânfora. Mas, se foi inicialmente tratado apenas como recipiente impermeável adequado ao transporte e conservação de bebidas, os barris de carvalho hoje são verdadeiros instrumentos enológicos.
Barris confeccionados com castanheira, mogno, acácia, raulí e pinheiro já foram utilizados ao longo da história de acordo com a disponibilidade regional. No entanto, o poder de aportar aromas agradáveis e taninos, microoxigenar, estabilizar e decantar os sólidos no vinho fizeram do carvalho o recurso mais desejado quando se trata de afinar as características do nobre fermentado.
Aparentemente, o carvalho se mostra como recurso obrigatório na produção de vinhos, mas, ao colocarmos na mesma equação, sua escassez, o alto preço e sua marcante influência aromática, facilmente se chega à conclusão que seu uso é limitado a vinhos que o mereçam e consigam tirar proveito de suas propriedades aperfeiçoando personalidade e caráter.
Características gerais do carvalho
Das mais de 250 espécies de carvalho, apenas três se mostram mais adequadas à produção de barricas. Uma americana e duas europeias. O carvalho americano possui o nome científico de Quercus alba, enquanto os carvalhos europeus são chamados de Quercus petraea (antes tido como Quercus sessiliflora) e Quercus robur (no passado, o Quercus pedunculata). Além de França e Estados Unidos, outros países como Portugal, Rússia, Hungria, Eslovênia e Canadá são conhecidos pela qualidade e viabilidade de extração de suas madeiras.
A árvore do carvalho, assim como a da videira, reage de formas distintas em função do terroir em que é plantada. Em solos mais férteis ou com muita luminosidade, as árvores crescem de forma acelerada, possuindo um tronco mais poroso (anéis mais largos), além de desenvolverem muitas ramas na parte mais inferior do tronco principal, indícios de baixa qualidade.
Uma poda gradual nas florestas é feita de forma que apenas cerca de 100 dos inicialmente 50 mil carvalhos plantados por hectare chegam ao final do ciclo. O corte definitivo das principais árvores é realizado no outono ou inverno, pois, nestas épocas, a seiva está concentrada nas raízes.
Um termo recorrente quando se fala de carvalho é o grão: se é fechado ou aberto. Para melhor compreender esse conceito, é mais fácil imaginar a madeira como uma série de tubos sobrepostos, cada tubo formando uma camada. A cada ciclo, forma- se um novo tubo de dentro para fora do tronco, sendo que estes são "colados" por uma substância chamada tilose. Ao se cortar transversalmente o tronco do carvalho, é possível notar uma série de anéis.
Pois bem, o tamanho (espessura) médio dos anéis corresponde ao grão. Quanto maior o anel, podemos deduzir que a madeira é mais porosa e provavelmente a árvore foi cultivada em uma área muito fértil e com clima mais quente. Ao contrário, quando os anéis são pequenos (grão fechado), menos porosa será a madeira e provavelmente originada de uma região mais fria, que propiciou um lento e consistente crescimento.
Carvalho americano
O carvalho americano, Quercus alba, possui granulação mais grossa, com árvores chegando ao ponto de corte já aos 60 anos, quase a metade do tempo que os europeus. Em um primeiro momento, isso indicaria que esta madeira é mais porosa que seus parentes europeus. Na realidade, isso é compensado por outro fator: o carvalho americano é rico em tiloses, que o torna mais duro e pouco permeável.
Por esta razão, a madeira desta espécie pode ser cortada com serra e em várias direções. Ao se fazer cortes transversais às fibras, mais células são rompidas, e isso libera mais compostos aromáticos. Ainda, essa característica do carvalho americano permite que o rendimento do tronco em aduelas (tábuas) para barricas seja maior, em torno de 40% - enquanto nos carvalhos europeus esse rendimento gira em torno de 20% -, o que também se reflete no preço das barricas.
O carvalho americano é conhecido por liberar aromas mais intensos que o francês, e normalmente associados ao coco, baunilha e lácteos, além de taninos um pouco mais agressivos.
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