Um vinho só alcança o seu real valor quando é capaz de traduzir uma
experiência, uma trajetória, uma história. Como as pedras preciosas, as
edições limitadas de grandes clássicos da literatura, os carros antigos,
boa parte do prazer que um vinho reserva está na sua descoberta. Entre
os milhares de rótulos disponíveis no mercado, poucos terão uma linha
direta com a sua alma, uma relação íntima com o seu momento. Por isso,
é preciso garimpar, com cuidado e dedicação.
O bom garimpeiro de adegas é aquele capaz de identificar e separar as
boas gemas de falsas promessas, do ouro de tolo e outras armadilhas. A
seguir, algumas regras que devem fazer parte do cotidiano dos desbravadores
do mercado.
Sua pedra preciosa pode estar mais perto do que
imagina
Não há um lugar certo para encontrar um grande vinho. Ele pode estar
na loja do importador, na gôndola do supermercado, em bons empórios ou
naquelas adegas de bairro - cada vez mais freqüentes e interessantes.
O fato é que comprar apenas de um fornecedor é a pior escolha. É como
ler apenas um jornal, não mudar o canal da TV ou fazer sempre o mesmo
caminho. Pode ser cômodo, mas também é limitado. Os importadores normalmente
têm pontos altos e baixos. A regra é: compre o vinho que você quer beber,
que pode não ser necessariamente aquele que o importador precisa vender.
Os supermercados apresentam uma coleção previsível de rótulos extremamente
comerciais. Apostam no que vende bem. O bom garimpeiro deve fazer uma
cuidadosa varredura nas prateleiras sem esquecer, dos lugares mais escondidos.
Lá estão grandes relações custo x benefício e o melhor: vinhos fora de
tabela. São rótulos com preços até 70% abaixo do mercado. Outra dica é
comprar tintos no alto verão, quando as vendas caem ou fazer as compras
em meses de acertos de balanço financeiro. Mas fique atento com a conservação
do produto (leia dicas abaixo).
Nos empórios e adegas, o segredo é freqüentar e se fazer conhecido. Neste
tipo de loja há uma relação bem mais forte entre cliente e fornecedor.
Com o tempo, você será avisado da chegada do produto, das oportunidades
de compra, dos vinhos da sua preferência, enfim, é uma venda mais customizada
e carinhosa. Mas não perca os preços de vista. A lei da oferta e procura
está sempre em vigor.
Escolha bons guias para suas expedições
Conhecer o seu vendedor é essencial na procura dos melhores rótulos.
A cultura brasileira de vinho é muito recente. Falta tudo, principalmente,
gente treinada para vender. Certa vez, procurando um bom Bordeaux, safra
2000, o vendedor me ofereceu, de primeira, um Château Petrus. Ora, se
eu quisesse comprar um Petrus pediria um Petrus e ponto. É como procurar
um bom carro e o vendedor oferecer uma Ferrari. Pra isso, ninguém precisa
de vendedor, apenas de dinheiro - e muito.
Mas, se falta informação, sobra sensibilidade e ginga. O bom vendedor
de vinhos é aquele que sabe que mais importante que vender muito é vender
sempre. Esses - mesmo com pouca informação - aprendem a interpretar o
gosto do cliente e oferecer os vinhos com segurança e responsabilidade.
Essa relação envolve sutilezas e troca de experiências. Um vendedor me
ensinou a degustar um excepcional branco português acompanhado de um risoto
de camarão. "Deixe o camarão esfriar um pouco, ponha na boca e depois
misture com o vinho", explicou. Lembrei de cada detalhe da lição no momento
do jantar e o resultado foi incrível. Outra vendedora, especializada em
bons argentinos, escolhe meus vinhos e põe na sacola logo que eu entro
na loja. "Esse você não pode perder". Bingo! Ela me conhece.
PÁGINAS :: 1 | 2 | Próxima >>