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Escolha sua safra

Degustar um vinho é bom, acompanhado de uma grande refeição é ótimo, mas unido a uma celebração é ainda melhor. Escolha sua safra, boa celebração e saúde!

por Luiz Gastão Bolonhez


Marcelo Copello

Safras são datas. Datas são marcos que acompanham nossas vidas e tornam-se referência de momentos diversos; bons, alegres, difíceis e etc. Estamos sempre associando coisas a essas ocasiões. Um perfume, uma música, uma viagem, enfim, pedaços de quebra-cabeças que enchem de significado a vida de cada um. Com os vinhos também é assim. Estão no dia-a-dia, mas celebrar os bons momentos da vida com vinho é outra história! Transformam-se em boas e inesquecíveis lembranças para guardar.

Para os amantes de vinho isso é uma grande e corriqueira realidade. A cada dia que passa mais enófilos fazem perguntas do tipo "Tenho um filho que nasceu na safra 2000 e gostaria de saber o que compro, pois gostaria de ter uma garrafa de um grande vinho da safra dele". Sempre é difícil responder, pois a pergunta é mesmo complexa e às vezes com uma resposta longa demais.

Nesse caso a primeira grande indagação é baseada no propósito de quando se quer degustar esse vinho. Temos boas safras em específicas regiões do mundo, mas que não agüentarão caso o desejo seja degustar quando o filho completar 18 anos, ou mesmo quando for se formar na faculdade ou ainda quando for noivar. Nesses casos não podemos só sugerir um bom vinho, mas um vinho que possa evoluir na garrafa por um longo período.

Enófilos de carteirinha chegam quase à loucura para transformar uma noite muito especial em uma noite inesquecível. O resultado é que todos os vinhos da mesa crescem num evento repleto de significado. Um enófilo apaixonado organizou uma surpresa para sua esposa no dia de seu aniversário. Nessa noite em questão eram 6 "loucos pela enogastronomia" os participantes, além do organizador e sua homenageada. Esse editor era um dos 'sortudos' presentes. A homenagem foi cheia de minúcias e cada vinho foi acompanhado por um especial prato.

No total foram 6 vinhos em ordem decrescente de acordo com a homenagem. Começou com um dos vinhos brancos de maior estirpe do planeta o Chateau de Beaucastel Chateauneuf du Pape Vielles Vignes 1999, produzido no sul do vale do Rhône, acompanhado de um camarão grelhado com queijo de cabra fresco com um fio de azeite de excelente qualidade. Uma homenagem ao nascimento do 2º filho do casal. O próximo na mesa foi o respeitadíssimo Beringer Private Reserve Chardonnay 1996, produzido no coração da Califórnia nos Estados Unidos.

Esse, homenageando o primogênito da família, veio acompanhado de uma pequena porção de risoto a parmegiana com um toque de manteiga trufada. O terceiro, mais um branco, foi o Tokay Pinot Gris Clos Saint Urbain Rangen de Than 1992 da Domaine Zind Humbrecht, produzido na Alsácia. Esse monumental vinho foi acompanhado por um foie gras fresco grelhado com figos ao forno cozidos no vinho do porto branco. Talvez a maior homenagem, pois 1992 foi o ano que o enófilo havia se casado com a homenageada da noite. O quarto grande momento da noite fazia referência ao ano do noivado.

A dupla na mesa foi o Cós D´estournel 1990, um bordeaux que hoje encara qualquer premier grand cru, ao lado de uma costeleta de cordeiro acompanhada de polenta com creme de funghi moriles. Uma referência para os amantes da boa mesa. O último vinho foi o Chateau La Mission Haut Brion 1971 acompanhado de queijo brie de meaux que raramente aparece por aqui no Brasil. Esse gran finale homenageava o ano de nascimento da aniversariante da inesquecível noite.

A primeira conclusão desse memorável evento é que o ideal do vinho é sempre estar bem acompanhado à mesa e, se possível, dividido com pessoas especiais e mais ainda com uma celebração. Esse trio é um enobrecedor de qualquer garrafa. Analisando o jantar segue o que a técnica e a história nos dizem. O ano de 1999 ao sul do Rhône foi uma safra muito especial, porém não extraordinária. 1996, essa sim foi uma safra muito especial em diversas regiões do mundo. Especificamente no Napa Valley a safra foi mediana, mas o vinho em questão, o Chardonnay Private Reserve é uma obra prima.

Em 1992 tivemos boas safras em pouquíssimas regiões do mundo. Na Alsácia tivemos nada mais que um ano bom. Já 1990 foi um ano abençoado. Tivemos excelentes safras em vários locais do planeta. Em Bordeaux a safra foi gloriosa e produziu talvez os melhores vinhos depois da lendária safra de 1982. 1971 não foi uma safra muito boa em Bordeaux, mas não pode ser considerada excepcional. Porém o La Mission 1971, talvez ajudado pelo significado do evento, foi aclamado o destaque da noite.

A segunda conclusão é que nem sempre as safras mais badaladas produzem os melhores vinhos. O trabalho do enófilo deve ser como o de um garimpeiro; encontrar o vinho mais especial, das safras que tenham um significado particular para ele. No caso desse evento nota-se que não foi necessário comprar o que os críticos aconselhavam. Por exemplo, se usássemos só como critério o que os especialistas pregam, provavelmente não seria o Beringer o vinho escolhido da safra 1996, pois sem dúvida na Borgonha ou em Bordeaux tivemos em 1996 uma safra muito mais especial que no Napa Valley.

O mesmo vale para 1992, que foi muito boa na Califórnia, mas se destacou por produzir excepcionais vinhos do Porto. Na África do Sul 1992, talvez tenha alcançado a melhor performance desse difícil ano.

É comum encontrarmos publicações que comentam safras, mas quase sempre os comentários são sobre as regiões e suas safras. Agora vamos fazer pela primeira vez no Brasil um 'raio-x' das safras mundiais de destaque desde o pós 2ª guerra mundial, com comentários sobre cada uma delas.

1945 - Uma safra lendária que é reconhecida como a melhor safra do século. Esse comentário é baseado nos longevos vinhos da região de Bordeaux. Um detalhe importante dessa safra nessa região é que a colheita foi feita, em sua maioria, por mulheres, pois grande parte dos homens estava nos campos de batalha. O significado dessa safra milagrosa para os franceses é algo de muito valor. O Chateau Latour e o Mouton Rothschild 1945 estão entre os mais cobiçados vinhos do mundo ainda hoje. Temos ainda em 1945 uma grandíssima safra de Champagnes, Borgonhas, Rhônes (destaque para os longevos Cote-Rotie e Hermitage), Barolos e Babarescos, e por último Vinhos do Porto marcantes, profundos e longevos.

1946 - Na Europa nada de bom e consequentemente nada que ainda esteja "vivo". O destaque desse ano foi a Califórnia que produziu excepcionais vinhos.

1947- Na Espanha um excelente ano na Rioja. A Itália produziu excelentes Chiantis nessa safra (a maioria desses vinhos já "está passado"). No Rhône, na França, muito bons Hermitages e Cote-Roties. Na Borgonha tivemos uma muita boa safra que oferece hoje vinhos maduros que dão muito prazer. Em Bordeaux tivemos uma safra excepcional. Sauternes de primeiríssima linha. O destaque é para as regiões de Pomerol e Saint Emilion. O Chateau Cheval Blanc 1947 é sempre referência quando falamos de vinho do século XX.

1948 - Excelentes Portos Vintage. Boa safra na Rioja e Ribera del Duero na Espanha

1949 - Sublime em Bordeaux, destaque para Margauxs, Pauillacs e Sauternes. Elegantes e longevos Pinot Noirs da Borgonha. Esses vinhos são considerados benchmarch em elegância e finesse. Deliciosos vinhos foram produzidos na Alemanha. Os vinhos top e adequadamente guardados dessa safra estão deliciosos até hoje

1950 - Hoje só alguns vinhos do Porto podem ser considerados bons.

1951 - Somente excelentes Cabernets da Califórnia.

1952 - Maravilhosos Tokays da Hungria. Na Espanha excelentes tintos da Rioja e do Penedes. Espetaculares vinhos em toda região do vale do Rhône. Alguns vinhos de Pessac, sub-região de Bordeaux ainda estão muito apreciáveis. Destaque para o citado nessa matéria Chateau La Mission Haut Brion.

1953 - Bons Champagnes. Excelente Vega Sicília da Espanha. Gloriosos Ausleses da Alemanha (muitos ainda deliciosos). Excelentes Cote-Roties do Rhône e muito bons tintos da Borgonha. Uma safra espetacular em Bordeaux. A maioria desses vinhos estão "passando". A recomendação é degustá-los rapidamente. As exceções são os ainda com vida pela frente e valorizadíssimos Chateaux Mouton Rothschild, Margaux e Haut Brion.

1954 - Bons doces da Ilha da Madeira em Portugal e Tokays da Hungria.

1955 - Excepcionais vinhos do Porto (26 produtores declararam seus vinhos como Vintage). Muito bons tintos da Rioja - Espanha. Sauternes de grande destaque. Muito bons tintos de Bordeaux (Medoc e principalmente Graves) consumo rápido.

1956 - Safra difícil em quase todo planeta. Para um verdadeiro garimpeiro a missão é encontrar um elegante borgonha branco ainda com vida. Bons Tokays da Hungria.

1957 - Muito bons vinhos da Ribera del Duero (ExcelenteVega Sicília). Especiais vinhos da Toscana na Itália. Impressionantes Doces (Tokays) da Hungria. Muito apreciaveis Hermitages e Cote-Roties da França. È possível encontrar ainda bons Grand Crus da Borgonha. Apesar de uma safra muito difícil em toda região tivemos alguns produtores que produziram maravilhas. Destaque mais uma vez para o Chateau La Mission Haut Brion e Lafite Rothschild (verdadeiras raridades hoje - muito cobiçados).

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