Quando se fala em degustar vinhos para avaliações em geral, a primeira pergunta que vem à mente é: como eles foram degustados? Às cegas ou às claras, somente o degustador e o vinho ou de forma dirigida, na presença do enólogo e/ou produtor. Podem existir outras perguntas, mas, sem dúvida, essa é mais importante. Tanto uma forma de degustação quanto a outra têm seus prós e contras, mas a certeza é uma só, a de que esse assunto é muito polêmico.
Na degustação às cegas, por exemplo, nada se coloca entre o degustador e o vinho; não há nada para dispersar e sugestionar o avaliador, o que torna esse sistema de prova, teoricamente, mais justo e muito utilizado em concursos.
Já a degustação dirigida e às claras é muito utilizada em apresentações, dando ao degustador o privilégio de esclarecer dúvidas sobre métodos de plantio e de vinificação, por exemplo, tornando a avaliação mais consistente.
De fato, pode-se dizer que as qualidades de uma são os defeitos da outra. Enquanto na degustação às cegas, via de regra, não ocorrem sugestionamentos, a falta de alguma informação pode, de certa forma, comprometer a avaliação. Por outro lado, a degustação às claras possibilita a busca de dados que o ajudem a fazer uma melhor avaliação, mas também pode acabar por influenciá-lo, comprometendo sua análise.
Dentro desse embate, o que fica claro é que cada um dos dois métodos tem o seu lugar. O melhor mesmo seria imaginar uma degustação em que só as qualidades e as virtudes de ambas estivessem presentes, o que é praticamente impossível, já que o degustador é um ser humano que, ainda que de forma inconsciente, pode ser movido ou sugestionado, seja por seu gosto pessoal, seja pela ciência de que está experimentando um vinho renomado, por exemplo.
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| Às cegas, os degustadores não se sugestionam, mas a falta de informação pode comprometer a avaliação |
Na prática
Foi dentro desses questionamentos que Patricio Tapia, idealizador e realizador do guia Descorchados, decidiu arriscar e inovar na edição 2012. Diferentemente do que aconteceu em anos anteriores, para esta edição Tapia e sua equipe degustaram os vinhos em duas etapas. A primeira, às claras e dirigida, e a segunda, às cegas.
"O Descorchados 2012 significou a mudança mais importante que este guia teve em seus 14 anos de vida", aponta Tapia. "Há pelo menos duas edições tínhamos a inquietação de fazer uma mudança e sentíamos que essa mudança deveria ser na forma como fazíamos as degustações. Mas não sabíamos como mudar. A ideia de degustar às cegas nos parecia (e parece) uma excelente aproximação com o mundo do vinho, mas com o passar dos anos, começava a parecer incompleta. Daí nasce a ideia de convidar os produtores (enólogos e donos das vinícolas) para nos mostrar seus vinhos. O que nos interessava era conversar, discutir, aprender sobre as perspectivas individuais de cada enólogo, saber o que havia na garrafa além da uva fermentada. Uma conversa em torno do vinho. Foi isso que imaginamos. Porém, não queríamos abandonar completamente a degustação às cegas, então, depois de mais de 300 reuniões com os produtores da Argentina e do Chile, degustamos às cegas os vinhos com as melhores pontuações e assim conseguimos, creio, um melhor equilíbrio entre nosso trabalho jornalístico e nossa tarefa como degustadores", completou.
Em agosto de 2011, ADEGA teve o privilégio de participar de todo o ciclo de degustações de vinhos argentinos para o Descorchados 2012, realizada no restaurante Siete Cocinas, em Mendoza. Durante duas semanas intensas, Tapia, Hector Riquelme e eu, Eduardo Milan, tivemos a oportunidade de degustar pouco mais de 1.100 amostras de vinhos argentinos das mais diversas regiões, variedades e estilos.
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