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Às CEGAS ou às CLARAS

Qual a melhor maneira de fazer uma avaliação de vinhos? Novo sistema usado pelo Descorchados 2012 Volta a levantar essa questão polêmica

Por Eduardo Milan


Quando se fala em degustar vinhos para avaliações em geral, a primeira pergunta que vem à mente é: como eles foram degustados? Às cegas ou às claras, somente o degustador e o vinho ou de forma dirigida, na presença do enólogo e/ou produtor. Podem existir outras perguntas, mas, sem dúvida, essa é mais importante. Tanto uma forma de degustação quanto a outra têm seus prós e contras, mas a certeza é uma só, a de que esse assunto é muito polêmico.

Na degustação às cegas, por exemplo, nada se coloca entre o degustador e o vinho; não há nada para dispersar e sugestionar o avaliador, o que torna esse sistema de prova, teoricamente, mais justo e muito utilizado em concursos.

Já a degustação dirigida e às claras é muito utilizada em apresentações, dando ao degustador o privilégio de esclarecer dúvidas sobre métodos de plantio e de vinificação, por exemplo, tornando a avaliação mais consistente.

De fato, pode-se dizer que as qualidades de uma são os defeitos da outra. Enquanto na degustação às cegas, via de regra, não ocorrem sugestionamentos, a falta de alguma informação pode, de certa forma, comprometer a avaliação. Por outro lado, a degustação às claras possibilita a busca de dados que o ajudem a fazer uma melhor avaliação, mas também pode acabar por influenciá-lo, comprometendo sua análise.

Dentro desse embate, o que fica claro é que cada um dos dois métodos tem o seu lugar. O melhor mesmo seria imaginar uma degustação em que só as qualidades e as virtudes de ambas estivessem presentes, o que é praticamente impossível, já que o degustador é um ser humano que, ainda que de forma inconsciente, pode ser movido ou sugestionado, seja por seu gosto pessoal, seja pela ciência de que está experimentando um vinho renomado, por exemplo.

Às cegas, os degustadores não se sugestionam, mas a falta de informação pode comprometer a avaliação

Na prática
Foi dentro desses questionamentos que Patricio Tapia, idealizador e realizador do guia Descorchados, decidiu arriscar e inovar na edição 2012. Diferentemente do que aconteceu em anos anteriores, para esta edição Tapia e sua equipe degustaram os vinhos em duas etapas. A primeira, às claras e dirigida, e a segunda, às cegas.

"O Descorchados 2012 significou a mudança mais importante que este guia teve em seus 14 anos de vida", aponta Tapia. "Há pelo menos duas edições tínhamos a inquietação de fazer uma mudança e sentíamos que essa mudança deveria ser na forma como fazíamos as degustações. Mas não sabíamos como mudar. A ideia de degustar às cegas nos parecia (e parece) uma excelente aproximação com o mundo do vinho, mas com o passar dos anos, começava a parecer incompleta. Daí nasce a ideia de convidar os produtores (enólogos e donos das vinícolas) para nos mostrar seus vinhos. O que nos interessava era conversar, discutir, aprender sobre as perspectivas individuais de cada enólogo, saber o que havia na garrafa além da uva fermentada. Uma conversa em torno do vinho. Foi isso que imaginamos. Porém, não queríamos abandonar completamente a degustação às cegas, então, depois de mais de 300 reuniões com os produtores da Argentina e do Chile, degustamos às cegas os vinhos com as melhores pontuações e assim conseguimos, creio, um melhor equilíbrio entre nosso trabalho jornalístico e nossa tarefa como degustadores", completou.

Em agosto de 2011, ADEGA teve o privilégio de participar de todo o ciclo de degustações de vinhos argentinos para o Descorchados 2012, realizada no restaurante Siete Cocinas, em Mendoza. Durante duas semanas intensas, Tapia, Hector Riquelme e eu, Eduardo Milan, tivemos a oportunidade de degustar pouco mais de 1.100 amostras de vinhos argentinos das mais diversas regiões, variedades e estilos.


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