As 13 variedades são plantadas separadamente?
Originalmente, plantamos misturadas. Mas hoje, como temos 80 hectares em Châteauneuf-du-Pape e 35 em Côtes du Rhône, pode-se dizer que nossos vinhedos são grandes. Assim, por conta da diferença da maturação entre a Roussanne e a Mourvèdre, que é de um mês, decidimos plantá-las em lotes, para colher na maturação certa e vinificá-las separadamente, esperar a malolática para só depois fazer o blend.
E como é o blend?
Não tentamos ter o mesmo blend a cada safra. É como em Champagne, para ter o mesmo vinho. Aqui tentamos fazer o melhor vinho possível. Tentamos encontrar a quintessência das uvas.
Por ter longa história e a possibilidade de 13 castas, certamente há muitas diferenças de estilos nos vinhos de Châteauneuf-du-Pape. É possível manter um estilo só diante disso?
Essa é denominação é muito grande. Na França, há duas denominações muito abrangentes: Saint-Émilion e Châteauneuf-du-Pape, que tem 3 mil hectares. E por ser tão grande, há filosofias distintas e muita variação. É como Saint-Émilion. É difícil dizer que há apenas um estilo de Saint-Émilion. Em Châteauneuf- du-Pape é a mesma coisa, não podemos dizer que há apenas um vinho, mas podemos ter alguns Châteaux, como Rayas, Domaine de la Janasse e talvez Beaucastel, conhecidos por produzirem os melhores vinhos de lá.
A questão da quantidade de castas e do estilo de solo traz alguma semelhança como a região do Douro em Portugal?
Acho que podemos ter algumas semelhanças, mas o problema é que o solo em Châteauneuf-du-Pape é um depósito de calcário coberto por pedras. O principal em Châteauneuf é que estamos numa região um pouco quente, mas nunca tivemos muito estresse hídrico, porque tem o calcário, mas também tem argila, e isso caracteriza o vinho. Então tem, sim, algumas semelhanças, mas também diferenças.

Vocês têm cultivo biodinâmico, por quê?
Há muito tempo, na década de 1970, meu pai optou por ser completamente orgânico, e somos até hoje. E, na década de 1990, tornamo-nos também biodinâmicos. Muitos pensam que os produtos biodinâmicos são diferentes, mas penso que o vegetal é mais sensível ao ambiente em que está do que os animais. Porque os animais se movem, estão cada hora num lugar. Os vegetais não, eles ficam exatamente no mesmo lugar por toda a sua vida, a não ser que seja tirado de lá. Isso significa que, talvez, o vegetal seja mais sensível às influências ambientais, de clima etc. Ser biodinâmico é tentar encontrar a inteligência natural das pessoas de fazer as coisas em seu devido tempo. Isso era praticado há muito tempo, mas foi se perdendo aos poucos.
Hoje há muita gente seguindo esse linha ecológica. Isso é algo que vai ser regra no mundo do vinho?
Acredito que há dois lados. É como ir à igreja. Alguns vão porque acreditam naquilo, outros vão para fazer social, conversar. Alguns são orgânicos porque acreditam, é a filosofia deles. E outros o fazem porque é moda, uma maneira de ganhar mais. Em Beaucastel, somos orgânicos e biodinâmicos, mas não dizemos isso. Se nos perguntarem, diremos que somos, mas não colocamos essa informação no rótulo, por exemplo. Não usamos isso para conquistar as pessoas. O problema hoje é que estão fazendo disso uma jogada de marketing, virou moda ser orgânico.
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