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A filoxera, a oliva e a vinha

François Perrin, do Château de Beaucastel, conta a rica história de sua família na região de Châteauneuf-du-Pape

Por: Arnaldo Grizzo e Carolina Almeida


Como se deu o projeto Tablas Creek, nos Estados Unidos? Por que escolheram Paso Robles como sede?
Escolhemos a região porque somos muito próximos à importadora de Robert Haas. Ele trabalhou com o meu pai por muito tempo e se tornou quase um membro da família. Por muito tempo ele nos disse para fazer algo na Califórnia, porque era uma região que estava crescendo, e então nós dissemos: "Ok, Bob, podemos tomar conta de toda a parte técnica, mas você vai se preocupar em vender o vinho". Então, decidimos visitar vinícolas da Califórnia em busca de um lugar que tivesse solo de calcário, o que não é fácil, já que apenas 1% dos solos de lá são assim. Mas encontramos o que procurávamos em Paso Robles, compramos 120 acres e fomos plantar vinhas. Nessa época, pensamos em produzir blends, mais ou menos ao estilo Châteauneuf-du-Pape, fomos procurar as uvas para fazê-lo, e nos demos conta que não acharíamos, porque elas não existiam. Levamos então algumas mudas de Beaucastel, mas, pelas regras do país, tivemos que deixá-las em quarentena durante três anos, e, passado esse tempo, eles nos devolveram três mudinhas de cada uma. Então tivemos que montar uma estufa e devagar fomos reproduzindo-as e plantando as videiras. Produzimos um vinho californiano de uma maneira francesa, com oito variedades diferentes. E uma coisa muito importante é que temos muita gente visitando a adega, 60% da produção fica na adega. Temos 25 mil visitantes por ano, é incrível. É a América. [risos]

Quais são os melhores mercados hoje?
Nossos mercados são muito bons. A boa imagem do vinho francês está voltando, apesar de o Novo Mundo ter vinhos muito interessantes. Hoje as pessoas estão procurando mais finesse, vinhos mais bebíveis. Talvez o vinho tradicional volte a cair no gosto das pessoas. Tivemos dois períodos, um em que a estrutura tinha mais importância, e o atual, em que acho que a finesse está valendo mais. Muitas pessoas comentem o erro de confundir estrutura com complexidade. Você pode ter complexidade sem ter muita estrutura. No Novo Mundo, os melhores vinhos são aqueles mais estruturados, com muita maturação, muito açúcar e muita fruta. É fruta com açúcar, essencialmente. Mas acredito que o gosto dos consumidores talvez esteja mudando. Não tenho certeza disso, mas é o que sinto. O vinho é uma bebida, e as bebidas precisam ser refrescantes. Se ele for muito estruturado, vai ser bom para ser degustado, mas não para ser bebido em quantidades maiores.

"Queremos manter o que temos para poder passar para a próxima geração. Se você só pensar no dinheiro, certamente vai vender seu Château. Mas se pensar em seus ideais, não. Temos que criar nossos filhos com esse pensamento"

Robert Parker foi fundamental para a fama dos vinhos do Rhône?
Ele é muito importante. Ele adora os vinhos do Rhône. A Borgonha é muito conhecida, Bordeaux também. O Rhône, originalmente, também eram bem conhecido. Mas, com o passar do tempo, pelos produtores não serem tão famosos, a região foi perdendo visibilidade. Mas Robert Parker disse ao mundo que os vinhos do Rhône são muito bons e de bom preço também, se comparados com Bordeaux, por exemplo. Graças a Parker é sabido que os produtores do Rhône são capazes de produzir grandes vinhos, assim como Bordeaux ou Borgonha. Ele foi de grande ajuda para nós, produtores.

Vocês fazem parte da Primum Familiae Vini, uma associação de que só participam produtores familiares. O que isso representa?
Acredito que a coisa mais importante da PFV não é o que isso traz para a gente, ou para o mercado, mas, sim, para as próximas gerações. Temos dois eventos importantes por ano: um jantar de gala e uma assembleia geral, que é quando vamos visitar os vinhedos, todas as famílias, com nossos filhos etc. Estar num negócio familiar, nos dias de hoje, é muito difícil, pois o preço da terra é alto. Então, se você quiser manter isso na família, é porque você ama aquilo, porque aquilo já faz parte de você. E quando vamos com as crianças e todo o resto da família, entendemos que isso vai muito além do dinheiro. Todos nos conhecemos bem, temos orgulho e nos achamos sortudos de estar nisso. Queremos manter o que temos para poder passar para a próxima geração. Se você só pensar no dinheiro, certamente vai vender seu Château. Mas se pensar em seus ideais, não. Temos que criar nossos filhos com esse pensamento.

VINHOS AVALIADOS
Gigondas 'La Gille" 2009 - R$ 168 - 91 pontos
Coudoulet de Beaucastel 2009 - R$ 136 - 90 pontos

 

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