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Um vinhedo para saciar a sede papal

As lendas em torno do Châteauneuf-du-Pape são muitas. Uma das regiões com as normas mais rígidas do mundo produz excelentes vinhos, mas é bom saber que alguns produtores pegam carona no nome.

Por Marcello Copello


fotos: Stock.Xchng


Felipe IV (1268-1314), o Belo, rei da França, ao ser excomungado pelo papa italiano Bonifácio VIII, mandou prendê-lo e em seu lugar colocou um conterrâneo seu. Bertrand de Goth, arcebispo de Bordeaux, calçou as sandálias do pescador em 1305 com o nome de Clemente V e foi o primeiro dos chamados 'papas do vinho'. O novo pontífice transferiu, em 1309, a corte de Roma para Avignon, no sul da França, onde a sede do papado manteve-se por quase 70 anos, episódio conhecido como 'cativeiro babilônico de Avignon'.

Fundador em Bordeaux de um vinhedo que leva seu nome, o Château Pape Clement, o sumo pontífice faleceu em 1314 por ingerir esmeraldas em pó, seguindo prescrições médicas. Seu sucessor, Jacques Duèse, assumiu o trono de São Pedro com o nome de João XXII e foi o líder da igreja de 1316 a 1334. Apesar de Clemente V ter ordenado a plantação de parreirais, é João XXII, um apaixonado por vinhos, quem detém o crédito do desenvolvimento dos vinhedos e de ter construído o lendário castelo, hoje a ruína mais famosa da região.

O 'Châteauneuf-du-Pape', literalmente 'castelo novo do Papa', foi a residência de Verão deste e de outros quatro papas que reinaram oficialmente em Avignon até 1378, ano do retorno a Roma, além de dois 'antipapas', pontífices dissidentes, eleitos em oposição ao poder romano.

A meio caminho entre Avignon e Orange, na margem esquerda do rio Ródano (Rhône), a cidade de Châteauneuf-du-Pape se chamava naquela época Calcernier. Sede do mítico castelo, até o século XVIII seu vinho era conhecido apenas como 'vin d'Avignon'. No século XIX, passou a ser chamado de Châteauneuf-du-Pape- Calcernier, e hoje, apenas Châteauneufdu- Pape, a AOC (Appellation d'Origine Contrôlée) mais notória das Côtes du Rhône Meridionales.

O nome típico e as lendas em torno desse vinho, que sempre exerceram grande apelo junto ao público, voltaram à baila há poucos anos, quando o Châteauneuf-du-Pape 1999 do produtor Guigal, um dos nomes importantes da região, ganhou o prêmio de Vinho do Ano de 2002, da renomada revista americana Wine Spectator.

Os produtores locais se vangloriam das normas e controles da região - as mais rígidas do mundo -, tendo sido precursoras da lei de Appellations d'Origine francesa. O Barão Le Roy, dono do Château Fortia, em 1923, descreveu o solo mais adequado a cada uma das castas plantadas. Também estudou a importância de práticas como a poda, o rendimento máximo (litros por hectare), a maturidade ideal das uvas e o modo de plantá-las e colhê-las. Pode-se dizer que as propostas desse vinhateiro colocaram a região na vanguarda da produção vinícola do início do século passado e deram origem à noção de terroir (conjunto de solo, clima e vegetação) que foi a base da lei de Appellations d'Origine adotada em toda a França em 1935.

fotos: Stock.XchngEssa AOC compreende três mil hectares de terreno relativamente plano em várias altitudes. A maioria dos vinhedos é coberta de pedras relativamente grandes, chamadas de 'ovos de pata'. O terreno pedregoso teria sido o leito do rio Rhône. Os pedregulhos retêm o calor do dia e aquecem as vinhas durante noite, provocando boa maturação das uvas. O resultado é um vinho de baixa acidez, quente (alcoólico) e macio. O solo é profundo e as raízes da videira têm de descer para buscar nutrientes, o que acrescenta ao líquido riqueza de aromas e sabores.

São treze as uvas permitidas, as tintas: Grenache, Syrah, Cinsaut, Mourvèdre, Counoise, Picpoul, Terret Noir, Vaccarèse, Picardan, e Muscardin. E as brancas: Bourboulenc, Roussanne, Clairette. Se incluir as brancas Grenache Blanc e Picpoul Blanc, também permitidas, o total chega a quinze.

Atualmente, a região produz 94% de vinhos tintos e 6% de brancos; os rosados não são permitidos. Os brancos, embora em minoria, são interessantes, principalmente os da uva Roussanne, que são secos, com baixa acidez, aromáticos e alcoólicos. Os tintos, teoricamente, podem ser feitos de qualquer ou de todas as treze castas, misturando-se tintas e brancas.

Na prática, a base desses vinhos é quase sempre a Grenache (60% a 80%), que é a segunda variedade mais plantada do mundo (a primeira é a branca e espanhola Airén). A Grenache, disseminada na Espanha, ondeé chamada de Garnacha, e na Sardenha, sob o nome de Cannonau, amadurece precocemente e concentra muito açúcar e, normalmente, pouca cor. Em locais de solo pobre como Châteauneuf-du-Pape, alcança boa maturidade, gerando líquidos densos e encorpados, mas normalmente de pouca longevidade. A Syrah, embora não alcance a mesma complexidade que no norte das Côtes du Rhône, onde rende as jóias como os Côte Rôtie e os Hermitage, é o complemento ideal da Grenache, contribuindo com longevidade, cor, elegância, taninos finos e aromas de frutas e especiarias.

Embora existam grandes Châteauneufdu- Pape, a produção da região é muito irregular, com vários vinhos medíocres que pegam carona no nome e custam mais do que merecem. Os produtos variam muito, os bons são ricos, encorpados, bem equilibrados e com aromas de especiarias, terra molhada e frutas vermelhas maduras. Outros podem ser tânicos demais ou macios demais. Por lei possuem um mínimo de 12,5% de álcool, sem chaptalização (acréscimo de açúcar), é o maior limite mínimo da França, alguns podem chegar a 14,5%. Se esse teor alcoólico elevado não for contrabalanceado com taninos e boa acidez, o vinho fica desequilibrado, com excesso de álcool no paladar.

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