Em recente e anônima visita a um renomado restaurante em São Paulo, um gentil e bem informado sommelier me sugeriu um vinho dizendo, "este recebeu 4 estrelas na revista ADEGA...".
Diariamente recebo releases destacando que esse ou aquele vinho foi agraciado com muitos pontos ou inúmeras estrelas de críticos e publicações importantes. Ironicamente, chego às vezes a receber emails de divulgação dizendo que eu mesmo dei notas altas para um ou outro caldo.
Uma pergunta recorrente de leitores é: qual minha opinião sobre tal ou qual rótulo, que teria ganhado "125 pontos da Wine Terminator", ou "14 copinhos do guia Naso Rosso", ou ainda "4,75 barris do guia Los Despachados?". Catálogos de importadoras ostentam ao lado do preço de cada produto suas principais cotações. Será que passamos a apreciar nossa bebida predileta através dos números?

Definição e origem da crítica
Criticar qualquer coisa é examiná-la racionalmente, tentando isentar-se de influências e preconceitos, atribuindo ao objeto da análise um conceito de valor. O ser humano é crítico por natureza, pois estamos permanentemente e de várias maneiras atribuindo valor a tudo, mesmo que inconscientemente. Criticar é humano e é saudável, faz parte do livre pensar e do exercício de questionar.
O vinho recebe por escrito seus julgamentos de valor desde a Antigüidade. Os cronistas de Roma atribuíram grande qualidade ao vinho Opimiano da safra de 121 aC. Esse fabuloso fermentado, cujo nome é uma homenagem ao então cônsul Opimius, foi um grand cru, produzido a partir de um vinhedo único chamado Falernum, na região da Campânia (onde é hoje Nápoles) e foi consumido até seus 125 anos de idade!
O termo 'provador' foi designado em 1793, pelos lexicógrafos franceses como "aquele cujo ofício é provar vinhos". Vinte anos depois, a palavra 'degustar' viria a surgir nos textos franceses. O primeiro livro a tentar analisar a ciência da degustação foi provavelmente 'The History of Ancient and Modern Wines', escrito em 1824 pelo Dr. Alexander Henderson. O século XIX registrou o florescimento de uma literatura voltada para as qualidades sensoriais do vinho, sua apreciação e, conseqüentemente, avaliação. Disseminava-se então crítica de vinhos.
O poder da crítica de vinhos
O século XX viu o mundo mudar sob vários aspectos: o capitalismo, a sociedade do consumo, a variedade de produtos, a possibilidade de escolha. Após a Segunda Guerra Mundial e mais acentuadamente a partir dos anos 70, o vinho tornou-se a bebida da classe média e as publicações especializadas viveram um verdadeiro boom; não por acaso em 1976 foi criada a revista Wine Spectator, por exemplo. O poderoso crítico americano Robert Parker Jr. também surgiu nesta época, com seu jornal The Wine Advocate, que alcançou notoriedade a partir da safra 1982, uma grande safra em Bordeaux.
No mesmo período, os vinhos do Novo Mundo surgiram como importantes players do mercado, o que trouxe em seu bojo uma nova maneira de degustar e apreciar o vinho, aumentando a importância da crítica. Explico: em uma simplificação, podemos abordar a apreciação de um vinho de duas maneiras: uma sensorial, que lê suas qualidades intrínsecas (seu aroma, sabor, etc), e outra, mais abrangente, que vê elementos que não estão diretamente no líquido, mas que fazem parte de sua identidade, como sua origem, sua tradição e sua história.
A então emergente indústria do vinho do dito Novo Mundo, carecendo da milenar história européia, enfatizou os prazeres sensoriais da bebida. Os críticos que ascenderam na época, apoiados nas provas cegas (onde o líquido fala por si) ressaltaram esse ponto, mostrando que era (e é) possível comprar vinhos de grande qualidade (intrínseca) pagando bem menos do que o necessário pa-ra adquirir os renomados vinhos clássicos europeus. Para descobrir tais vinhos, no entanto, é necessário provar as novidades aos milhares e militantemente: tarefa para profissionais.
Este contexto fez com que as últimas décadas dessem origem a uma nova e brilhante geração de críticos, cujos guias povoam as livrarias de todo o mundo, como os ingleses Hugh Johnson, Jancis Robinson, Michael Broadbent e Oz Clark; os americanos Robert Parker e James Suckling (Wine Spectator); o francês Michel Bettane; os italiano Luigi Veronelli, Luca Maroni e Danielle Cernilli (do guia Gambero Rosso); o espanhol José Peñin; os portugueses João Paulo Martins e João Afonso; o sul-africano John Platter, e os australianos James Halliday e John Beeston.
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