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Os vinhos dos Altos Montes

Conheça as peculiaridades de duas cidades da Serra Gaúcha que estão prestes a se tornar a terceira Indicação Geográfica do Brasil

por Sílvia Mascella Rosa


Gilmar Gomes

Enquanto as parreiras dormem seu merecido sono de inverno, depois de uma safra excelente em quase todo o Rio Grande do Sul, o mundo dos produtores se agita. Especialmente na cidade de Flores da Cunha, sede da Associação dos Produtores de Vinhos Finos dos Altos Montes, a Apromontes.

O município, maior produtor brasileiro de vinhos (quando somados os vinhos de uvas americanas, híbridas e finas) deve conquistar no começo do próximo ano a Indicação de Procedência Geográfica do INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial) para os vinhos finos, produzidos tanto em Flores da Cunha quanto na cidade vizinha de Nova Pádua, somando 173 km2 de área demarcada.

Divulgação
Existem quase 200 vinícolas na região, entre produtores artesanais, cooperativas, grandes e pequenas empresas, além de inúmeros produtores de uvas que abastecem não apenas as vinícolas da região como as de outras cidades da Serra Gaúcha

Abrindo portas
O reconhecimento da região deverá dar maior visibilidade aos vinhos e, consequentemente às vinícolas que os produzem e suas cidades sede, uma estratégia desenhada 10 anos atrás: “Quando decidimos nos associar, saímos em busca da diferenciação da região e descobrimos que era preciso um plano para separar a produção dos vinhos finos dos de mesa, setor no qual o município já era líder”, explica Deunir Argenta, presidente da Apromontes. “Daí em diante tivemos que investir, construir, pesquisar e vinificar, até chegar onde estamos: prontos para mostrar nossos produtos”, completa.

Existem quase 200 vinícolas na região, entre produtores artesanais, cooperativas, grandes e pequenas empresas, além de inúmeros produtores de uvas que abastecem não apenas as vinícolas da região como as de outras cidades da Serra Gaúcha. Mas o que manda ainda é a tradição dos imigrantes italianos, e romper com o modelo antigo não é tarefa fácil para os 11 produtores de vinhos finos reunidos na Apromontes.

Um desafio que já vem sendo vencido – essencial no pedido de reconhecimento da Indicação Geográfica – é o da reconversão de vinhedos do sistema de latada para espaldeira e a diminuição da produtividade por hectare, aumentando, com isso, o potencial qualitativo das uvas. Mas em uma região com vinícolas de 40/50 anos e de tradição familiar muito marcante, onde o lucro até bem pouco tempo vinha do maior volume e não da maior qualidade, coube à nova geração a dura missão de mudar os conceitos.

“Quando meu bisavô veio para o Brasil, todo o trabalho era para sustentar a família e a única coisa que gerava algum lucro eram as uvas americanas, fáceis de cultivar na região, e que por isso proliferaram tanto”, explica Guerino Fabian, proprietário da Fabian Vinhedos e Vinhos Finos, única vinícola da cidade de Nova Pádua na associação até o momento. Em acordo com as mudanças necessárias e também com sua própria apreciação por vinhos mais estruturados e envelhecidos, Fabian passou a não engarrafar mais os vinhos de uvas americanas, vendidos hoje somente a granel, e os 10 hectares da empresa são agora utilizados para as variedades finas francesas, muitas delas descansando em barricas de carvalho após a vinificação.

Divulgação
De arquitetura impressionante, onde a estrutura de metal parece acompanhar as ondulações dos vinhedos à sua volta, a Luiz Argenta (à esquerda) é uma mistura impactante da tradição da cidade com a ousadia da arquiteta Vanja Hertcert e o bom gosto dos proprietários

Buscando a diferenciação
Flores da Cunha é considerada a mais italiana das cidades brasileiras por ter recebido o maior número de imigrantes no final do século XIX. A grande maioria se estabeleceu em áreas rurais e muitos permanecem assim até hoje, tanto que a população, que passa dos 27 mil habitantes, não faz do núcleo urbano uma zona muito povoada.

O relevo dos dois municípios conta uma parte de seu potencial para a viticultura. Permeados de vales íngremes e de rios de muita beleza natural, a altitude mínima dos vinhedos é de 550 metros, podendo chegar a pouco mais de 800. Esse fator, combinado com a grande amplitude térmica da região (alguns picos chegam a ter neve no inverno), contribui para o cultivo das uvas finas.

O enólogo Elton Viapiana, sócio da empresa que leva seu sobrenome, explica que é importante encontrar microclimas que se adaptem às variedades que são permitidas na Indicação de Procedência: “Por termos uma região cheia de vales, é essencial plantar em terrenos com a correta exposição solar, onde a planta vai se beneficiar da amplitude térmica”. A vinícola, fundada em 1986, está localizada a poucos quilômetros da cidade, numa zona conhecida como travessão Alfredo Chaves. Mesmo jovem, já fez mudanças profundas em sua estrutura, construindo uma sede moderna e funcional, perfeitamente adaptada às necessidades da produção de vinhos finos e espumantes, um diferenciado bar de vinhos e uma loja que comercializa, além dos rótulos próprios, os da importadora Porto Mediterrâneo.


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