
O Douro, no nordeste de Portugal, é uma das mais belas regiões vinícolas do mundo. Estende-se por uma área de cerca de 250 mil hectares, ao longo das margens do rio que lhe dá nome e de seus afluentes. Embora a presença da vinha na região remonte a 4 mil a.C., a produção de vinhos só tomou impulso a partir do século XVIII, quando o vinho do Porto foi criado e a região se tornou a primeira do mundo a ser demarcada e delimitada.
Uma rica história e antigas e rígidas leis tornaram o Porto um dos maiores vinhos do mundo. Tal prestígio, entretanto, nunca se estendeu aos demais vinhos do Douro, com honrosas e relativamente recentes exceções do Barca Velha e do Quinta do Côto Grande Escolha. Esse panorama está em plena transformação.
As razões para a histórica falta de reputação internacional dos vinhos de mesa do Douro são muitas. Em primeiro lugar, a imagem da bebida portuguesa no mercado internacional sempre foi ofuscada pelo vinho do Porto. Castas de sabores diferentes e nomes impronunciáveis por consumidores anglo-saxões dificultam a penetração em importantes mercados, como os EUA e o Reino Unido. Além disso, até os anos 90, o Douro não possuía tecnologia e nem mãode- obra para a produção de bons vinhos de mesa, item no qual o Porto é menos exigente.
As dificuldades naturais de produção de vinhos na região são grandes. As vinhas, muitas com mais de 70 anos de idade, estão plantadas em estreitas encostas com inclinações de até 45°, impedindo a mecanização da colheita. Os rendimentos são baixos, da ordem de 30 a 50 hectolitros por hectare, e o custo para a plantação de novos vinhedos é alto, cerca de US$ 40 mil o hectare. Soma-se a esses um outro fator - a propriedade da terra está pulverizada por cerca de 33 mil viticultores, 80% dos quais possui menos de 0,5 hectare. Dessa forma, produzir vinhos de qualidade em escala torna-se difícil na região. A solução foi partir para a alta qualidade em produções pequenas.
Ser pequeno no mundo do vinho, porém, pode significar desaparecer em meio a milhares de outros pequenos produtores. Por isso, alguns desses pequenos produtores chegaram a se organizar para agir em bloco. É o caso de Quinta do Vale Meão, Niepoort, Quinta do Valado, Quinta do Vale D. Maria e Quinta do Crasto, que singelamente se autodenominam "Douro Boys". O resultado veio logo, pois seus vinhos já foram notados pela mídia internacional. Os "Douro Boys" são apenas um exemplo (já seguido por outros), seja na qualidade dos vinhos, seja na iniciativa de marketing. A cada dia surgem novos vinhos de alta qualidade no Douro, em diversos estilos, dos mais tradicionais aos mais modernos.
Seguindo essa, premissa rótulos durienses de respeito têm aportado por aqui com saudável freqüência. Um dos mais afamados desta turma é o Chryseia, fruto da joint venture entre a casa Symington e o enólogo Bruno Pratts, antigo proprietário do Château Cos d'Estournel. O Chryseia é comercializado via negociantes de Bordeaux, logo não há exclusividade em sua importação, chegando aqui pelas mãos tanto da Mistral, quanto da Terroir. Outro protagonista desse enredo é Dirk van der Niepoort, que não só faz vinhos excepcionais na empresa da família (Niepoort), como dá conselhos e influencia muitos produtores da região. Dirk faz parte da gangue de Christiano Van Zeller, que assina com Sandra Tavares o Quinta do Vale Dona Maria, outra referência na região. Por fim, é impossível contar a história contemporânea dos vinhos do Douro sem lembrar do Quinta do Vale Meão. Este "vinhão" é conhecido como "Barca Nova", por ser produzido em vinhedos que, por muitos anos, originaram o vinho ícone português Barca Velha.
Um grande destaque é Vinha de Lordelo 2003, de Alves de Souza. Esse impressionante cult wine foi elaborado pela primeira vez na safra de 2003, a partir do vinhedo mais antigo da Quinta da Gaivosa, a Vinha de Lordelo; até então suas uvas eram misturadas em outro vinho. As plantas de mais de 100 anos são cerca de 30% Tinta Roriz, 20% Touriga Nacional, 10% Tinta Amarela, 10% Sousão e o restante de outras dezenas de castas autóctones do Douro, algumas em processo de extinção.
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