A fruta do Etna

Com larga tradição e história na cultura da uva e do vinho, a Sicília possui uma série de uvas nativas, entre elas a Nerello Mascalese, ainda pouco conhecida fora de lá, mas cultivada desde a Antiguidade na região do Etna

Eduardo Milan em 13 de Julho de 2012 às 07:32

Divulgação
A Sicília é a maior ilha do Mediterrâneo, separada da Itália pelo Estreito de Messina. Devido à sua posição geográfica, ao longo da história exerceu papel de grande importância estratégica e, por isso, acabou sendo tomada – e, consequentemente, influenciada – por diversos povos. Fenícios, gregos, romanos, góticos, mouros, normandos e espanhóis teriam passado por lá.

Os primeiros registros da vitivinicultura no local remetem aos fenícios. Entretanto, os gregos teriam sido os responsáveis pela introdução de vinhas de melhor qualidade e também de melhores técnicas de cultivo das videiras. Como as condições climáticas eram favoráveis, a produção de vinho foi iniciada na Sicília.

Na Antiguidade, os vinhos sicilianos eram bastante conhecidos e sua principal característica era a doçura. O mais famoso deles era o Mamertino – o preferido do imperador Júlio César – feito no nordeste da ilha, nos arredores de Messina. Durante os séculos II e III, grande parte das videiras foi substituída por outras agriculturas, especialmente as destinadas à produção de grãos. Após a queda do Império Romano, a vitivinicultura permaneceu dormente. Somente no Renascimento a produção de vinhos foi retomada com força. Tanto que, no século XV, o Mamertino era o principal produto exportado para o continente.

A Sicília hoje é conhecida pelo vinho Marsala. O fortificado começou a ser produzido na região em 1773 por John Woodhouse, um mercador inglês, o que se tornou um marco na história da vitivinicultura. Mas nem só Marsala existe na Sicília. De fato, atualmente a ilha já possui maior relevância no cenário mundial vitivinícola e está em pleno processo de modernização, iniciado na década de 1980.

Do Mamertino ao Nerello
A geografia – terrenos acidentados e montanhosos, com solos pobres, encostas com boa exposição solar – e o clima – verão intenso e baixa pluviosidade – fazem da ilha um local ideal para o cultivo de videiras. Além disso, há uma série de uvas autóctones (ou nativas), as quais apresentam real personalidade. A maioria dos produtores locais dedica boa parte de seu trabalho a essas cepas e, há alguns anos, vêm produzindo vinhos de ótima qualidade a partir delas.

Provavelmente, a mais conhecida dessas variedades indígenas é a Nero d’Avola – tinta de cor profunda e taninos robustos e estruturados. Uma das preferidas para compor blends, a Nero d’Avola tem sido usada na produção de varietais que se tornaram clássicos sicilianos.

Fotos: DivulgaçãoTradicionalmente plantada como um pequeno arbusto, a Nerello Mascalese é a variedade mais difundida na área do Monte Etna

Mais recentemente, outra autóctone ganhou destaque, a Nerello Mascalese. A cepa é muito antiga, tendo sido citada por Sestini em escritos do século XVIII. Tradicionalmente plantada como um pequeno arbusto, a Nerello Mascalese é a variedade mais difundida na área do Monte Etna, local onde vem sendo cultivada desde tempos imemoriais. Acredita-se que ela tenha ligação com os antigos vinhos do Etna, tão celebrados por Homero e historiadores latinos.

Fotos: Divulgação

Mais recentemente, a Nerello Mascalese costumava entrar na composição de blends, normalmente com pequena participação. Porém, o que se tem visto com o passar dos anos é o aumento de sua proporção nos cortes e até mesmo a aposta em vinhos varietais, ou seja, elaborados só com essa casta, que produz vinhos elegantes e com bastante personalidade, com tendência a serem tânicos, de cor vermelho-rubi com reflexos granada e boa estrutura, o que possibilita seu envelhecimento.

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VINHOS AVALIADOS NO EVENTO

91 pontos
TASCANTE ROSSO 2009
Tasca d’Almerita, Sicília, Itália (Mistral US$ 140). Tradicional produtor da Sicília, a Tasca d’Almerita adquiriu 18 hectares de vinhedos antigos – plantados na década de 60 – nos arredores do Monte Etna, de onde vem as uvas Nerello Mascalese para elaborar este tinto, com estágio de 18 meses em grandes botti de carvalho de 3 e 6 mil litros. Apresenta cor vermelho-rubi translúcida e aromas complexos de frutas vermelhas frescas, notas florais, terrosas e de ervas secas, além de toques de tabaco e de especiarias. No palato, é frutado, intenso, profundo, estruturado, equilibrado, tem taninos finos e marcantes, ótima acidez e final longo e persistente. Elegante e classudo, está bom agora, mas vai melhorar bastante com 5/7 anos de garrafa. Carnes vermelhas e de caça assadas são sugestões para escoltá-lo. Álcool 14,5%. EM

89 pontos
FONDO FILARA ETNA ROSSO DOC 2009
Cantine Nicosia, Sicília, Itália (Sem importador). Vinícola familiar fundada em 1898, a Cantine Nicosia elabora este tinto a partir de 80% Nerello Mascalese e 20% Nerello Capuccio, com estágio de 4 meses em botti de carvalho. Apresenta cor vermelho-rubi brilhante e aromas de frutas vermelhas, notas florais, defumadas e de especiarias, além de toques terrosos e de folhas secas. Em boca, é frutado, fresco e gostoso de beber. Elegante e equilibrado, tem taninos finos, boa acidez e final persistente. Álcool 14,5%. EM

91 pontos
SERRA DELLA CONTESSA ETNA ROSSO DOC 2004
Vinícola Benanti, Sicília, Itália (Sem importador). Vinícola familiar fundada no final do século XIX, a Benanti está situada em Viagrande e é grande defensora e difusora das variedades nativas da região. Tinto elaborado a partir de uvas 80% Nerello Mascalese e Nerello Capuccio advindas de um vinhedo de mais de 100 anos, parte em pé-franco, com fermentação em botti de 5.200 litros e estágio de mais de um ano em carvalho. Aromas complexos de frutos vermelhos, tabaco e notas florais, além de toques terrosos, defumados e de especiarias. Gostoso de beber e de cunho gastronômico, impressiona pela profundidade e elegância. É frutado, tem taninos maduros e marcantes, boa acidez e final longo e suculento. EM

VINHO AVALIADO
Micina Nerello Mascalese 2010 R$ 53 89 pontos
Confira a avaliação completa na seção Cave (a partir da página 83)
PROVA DE NERELLO MASCALESE
No dia 21 de junho, em evento promovido em São Paulo, o “Sicília Wine Odissey”, ADEGA provou alguns vinhos em que a Nerello é a personagem principal. Todos os exemplares mostraram alguns aspectos em comum: eram equilibrados, tinham ótima acidez, taninos finos e marcantes, além de mostrarem mais profundidade que volume de boca, tudo permeado por elegância e um viés gastronômico. Veja na página anterior os destaques.

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