Alentejo almejado

A história da Herdade do Esporão e uma prova de 10 safras de seu vinho mais clássico

Por Arnaldo Grizzo em 30 de Março de 2014 às 00:00

A história de boa parte das empresas vitivinícolas de Portugal costuma passar por um período conturbado a partir de 1974. Naquele 25 de abril, estourou a Revolução dos Cravos, que derrubou o regime ditatorial instaurado por Salazar ainda na década de 1920. Deposto o presidente Marcello Caetano, houve um momento de grande turbulência no país com governantes se sucedendo e ações radicais, que levariam a uma nova constituição, de forte cunho socialista.

Uma dessas ações foi a nacionalização de diversas empresas de capital privado. E a Herdade do Esporão foi uma delas. A vinícola havia sido criada em setembro de 1973. Naquele ano, o visionário Joaquim Bandeira acreditou que deveria investir no Alentejo. Sua ideia era produzir grandes vinhos na região. “Vinho era commodity até então, especialmente em uma região pouco conhecida como o Alentejo”, lembra-se João Roquette, que hoje lidera a empresa co-fundada por seu pai.

Para concretizar o seu sonho, Bandeira precisou ir ao banco para conseguir um empréstimo. Nesse ponto se dá a ligação “acidental” dos Roquette com o mundo do vinho. Na época, José, pai de João, foi quem recebeu o amigo Joaquim no banco e tentou intermediar o financiamento que ele pretendia. Ele conversou com os patrões, mas não obteve sucesso.

Crente de que a ideia era boa e o investimento valia a pena, José voltou para a casa e conversou com a esposa, tentando convencê-la a colocar as economias da família nesse empreendimento audacioso. José, então, comprou 50% e a Herdade do Esporão nasceu, plantando mais de 100 hectares de vinhas. “No ano seguinte, ele não tinha mais nada...”, pondera João. Pouco depois do “25 de Abril”, a empresa foi nacionalizada, assim como tantas outras. Mais do que isso, com seis filhos para criar, José chegou a ser preso pelo novo regime.

A Herdade do Esporão foi fundada em 1973. Um ano depois, foi nacionalizada
A Herdade do Esporão foi fundada em 1973. Um ano depois, foi nacionalizada

A adega da Herdade do Esporão foi a primeira moderna do Alentejo, com temperatura controlada, processos por gravidade e estágio em barrica de carvalho

A adega da Herdade do Esporão foi a primeira moderna do Alentejo, com temperatura controlada, processos por gravidade e estágio em barrica de carvalho

É de se imaginar o desespero e desgosto da família diante da situação. A única solução, no momento, era buscar refúgio em outro lugar. “Saímos do país, fomos viver no Brasil, no Rio de Janeiro”, recorda João. Sua família, assim como diversos outros conterrâneos na época, instalou-se na antiga colônia e procurou refazer parte de suas vidas e riquezas por aqui, pelo menos enquanto suas terras e propriedades em Portugal continuavam confiscadas pelo governo.

João tinha apenas um ano quando aportou no Brasil. “O primeiro português que aprendi foi o brasileiro”, comenta o atual presidente da Herdade do Esporão, que, mesmo jovem, mantém o perfil de seriedade dos grandes empresários. Interessante saber que, assim como seu pai, antes de ingressar no mundo do vinho, João também esteve no mercado financeiro. Em seus primeiros anos de formado em “Gestão”, no final da década de 1990 e começo dos anos 2000, trabalhou na Merrill Lynch. Depois, embrenhou-se no mundo da música, criando uma gravadora, até que, em 2006, aos 32 anos, assumiu a Herdade.

Romanée-Conti

Foi somente no final dos anos 1970 que parte da Herdade do Esporão voltou para as mãos dos donos originais. “Durante alguns anos, tivemos que entregar as uvas para a cooperativa de Reguengos de Monsaraz – cidade onde a Herdade se encontra, no sul do Alto Alentejo”, conta João. Na década de 1980, a adega foi finalmente construída. O primeiro vinho com o nome de Esporão surgiu na safra de 1985. No ano seguinte, ele passou a usar o nome de Esporão Reserva.

“A primeira adega realmente moderna no Alentejo foi a nossa – com temperatura controlada, processos por gravidade e estágio em barrica de carvalho”, comenta João. A visão, quando a empresa tinha sido fundada, mais de 10 anos antes, era criar grandes vinhos no Alentejo e agora, quando reassumiram o controle, era possível retomar esse sonho.

Ao ser perguntado do porquê do formato borgonhês da garrafa de seu primeiro vinho, o Esporão Reserva, João Roquette dá uma pista, revelando a aspiração por trás da ideia de seu pai na época: “O grande produtor era Romanée-Conti, daí a forma da garrafa. Nossa meta era fazer o melhor vinho”.

Com isso em mente, a Herdade logo se tornou uma das principais referências do vinho no Alentejo. “O Esporão teve um papel importante no que o Alentejo se tornou hoje – em produzir vinhos de que o consumidor gosta, mas também fazer vinhos sérios, com capacidade de construir uma identidade e aguentar a prova do tempo”, aponta o herdeiro dos Roquette.

João Roquette veio com um ano ao Brasil. “O primeiro português que aprendi foi o brasileiro”, diz
João Roquette veio com um ano ao Brasil. “O primeiro português que aprendi foi o brasileiro”, diz

A Herdade possui um campo ampelográfico  que estuda e preserva mais de 190 variedades de uvas

Aliás, no final dos anos 1980, a família assumiu controle total da Herdade, que, prontamente, passou a estender seus braços para além do Alentejo. Em 1995, por exemplo, criaram uma empresa de distribuição no Brasil. Dois anos depois, ingressam no mercado de azeites. Em 2008, apenas dois anos depois de João assumir como CEO, compram uma propriedade no Douro. Hoje, pouco depois de completar 40 anos, a Herdade do Esporão assegura sua posição entre os principais produtores de Portugal.

Castas e clima

A propriedade – cuja história remonta ao século XIII, no reinado de Dom Afonso III, o rei que liderou as campanhas para a reconquista da parte sul da península ibérica, que estavam nas mãos dos muçulmanos – hoje tem mais de 450 hectares produtivos. Mais do que isso, a Herdade do Esporão possui uma verdadeira biblioteca de variedades de uvas que, durante anos, serviu de fonte para a introdução e adaptação de castas no Alentejo.

“Temos plantadas mais de 190 castas no Esporão e utilizamos 37 delas nos vinhos. Temos um campo ampelográfico de 11 hectares. Ele está no terceiro ano, portanto, não vinificamos, apenas fazemos alguns testes. Esse campo tem dois objetivos. O primeiro, preservar este patrimônio nacional de variedades. Depois, também é uma base de estudo científico que permitirá descobrir novas janelas para o futuro. A descoberta de novas castas tem tido um papel muito importante no Alentejo, especialmente no princípio dos anos 1990. Uma delas, por exemplo, é uma variedade da ilha da Madeira, a Verdelho, que não estava sendo utilizada no continente, mas agora está aparecendo nos vinhos do Alentejo”, orgulha-se João.

Seguindo as tradições portuguesas de blend de castas, o primeiro vinho da Herdade, o Esporão Reserva, é uma mescla com Aragonês, Trincadeira, Cabernet Sauvignon e Alicante Bouschet, com predominância da primeira. E foi do Reserva que surgiram os outros ícones da empresa, como o Private Selection e Torre, ambos com Aragonês em sua fórmula, mas elaborados somente em anos mais propícios – geralmente mais frios – no Alentejo.

A Aragonês (Tempranillo) é a base dos principais vinhos da propriedade e dita o seu caráter

Segundo João, é a Aragonês, conhecida como Tempranillo na Espanha, que dá o tom dos vinhos de sua empresa. “É nela que reconheço os vinhos do Esporão”, afirma. Ele lembra que, em sua origem, Torre tinha base de Touriga Nacional, mas agora tem Aragonês majoritariamente. “Aragonês no Esporão, em anos frescos, consegue fazer os melhores vinhos. É o que suporta a bebida e lhe dá esse caráter mais equilibrado”, aponta.

Mas, para alcançar o que há de melhor em uma região tão quente como o Alentejo, João revela que as melhores safras geralmente são as mais frias. “Prefiro os vinhos de anos mais frios, pois são mais elegantes e gastronômicos”, diz. Segundo ele, o ponto crítico na região é o controle de acidez e, por isso, é muito importante estar atento ao momento ideal da colheita. “Nos anos mais quentes, deve-se encurtar o tempo de vindima. Em 2009, numa safra muito quente, uma das primeiras coisas que fizemos foi alugar uma adega e desviar parte da produção de vinhos de entrada para lá para poder receber mais uvas mais rapidamente. Então, tentamos receber as uvas o mais cedo possível. Quando está muito quente, também usamos mais folhagem na vinha para dar mais sombra. Nosso problema maior, contudo, é a desidratação por vento. O calor em si não é um problema”, atesta. Ele finaliza dizendo que, em anos de muito calor como 2009, 2006 e 2003, a maior dificuldade é criar vinhos que possam ser guardados. Em compensação, em safras “clássicas” como 2011, 2008, 2007 e 2004, pode-se encontrar vinhos de grande longevidade.

Para celebrar os 40 anos da Herdade do Esporão, a equipe de ADEGA foi convidada a participar de uma vertical com as últimas 10 safras de Esporão Reserva lançadas em mercado. Confira abaixo.

VERTICAL DE HERDADE DO ESPORÃO RESERVA SAFRAS 2002 a 2011

ADEGA teve oportunidade de degustar as 10 últimas safras do Esporão Reserva Tinto, vinho nascido em 1985, mas que levou o nome Reserva só no ano seguinte. Nessa degustação, pode-se constatar a boa capacidade de envelhecimento deste tinto, sua consistência e, acima de tudo, a influência do clima em cada safra, o que acaba sendo muito positivo. De fato, em todos os vinhos, percebe-se uma linha condutora embasada em fruta suculenta, estrutura sedosa de taninos e boa acidez, com variações nesses aspectos dependendo do clima em cada ano.

Essas variações, numa vertical, são fundamentais para mostrar como o enólogo consegue contornar as adversidades das safras, mantendo um certo padrão de estilo, sem ocultar a interferência do clima.

Nas safras 2010 e, principalmente, na 2011, é clara a intenção na busca por mais frescor, menos extração, madeira mais bem dosada e mais equilíbrio e elegância, tornando-os mais acessíveis e balanceados mesmo jovens. Nesse sentido, o tempo de garrafa fez muito bem para as safras “mais antigas” como a 2004 e a 2007, por exemplo, dando a elas uma classe e finesse, que não tinham em sua juventude.

Em todas as safras provadas, a base deste tinto é de Aragonês (Tempranillo), seguida de Trincadeira e Cabernet Sauvignon – exceções feitas em 2002 e 2003, em que a Trincadeira entrou em maior proporção. A partir da safra 2006, há um acréscimo de Alicante Bouschet. Quanto à madeira, sempre são 12 meses de estágio em barricas de carvalho 100% americano até 2005 e, nas safras seguintes, 70% americano e 30% francês. João Roquette afirmou também que, com o tempo, eles passaram a usar mais barricas usadas e de formato maior, para que a influência da madeira se tornasse cada vez menos importante. Essa maior proporção de Aragonês deve-se, no caso da Herdade do Esporão, ao fato dessa variedade ter mostrado, no decorrer dos anos, uma boa adaptação ao intenso calor da região do Alentejo, diga-se de passagem, mostrando melhores resultados, em níveis gerais, que a afamada Touriga Nacional. Em termos práticos, é possível ter maior controle durante o processo de maturação das uvas, o que, potencialmente, tem condições de gerar tintos mais equilibrados, consistentes e com boa dose de frescor, mesmo nos anos de climas mais extremos. Por Eduardo Milan

AD 92 pontos
ESPORÃO RESERVA TINTO 2011
Herdade do Esporão, Alentejo, Portugal (Qualimpor R$ 125). Vermelho-rubi de reflexos violáceos e aromas de frutas negras e vermelhas maduras envoltos por notas florais, minerais e de ervas secas, bem como agradáveis toques tostados, de tabaco e de especiarias doces. Em boca, é frutado, estruturado, equilibrado, tem ótima acidez, taninos finos e final longo e persistente. Chama a atenção pela intensidade e pelo volume de boca, mesmo ainda tão jovem. Uma síntese do 2007 e do 2004. Muito promissor. EM

AD 91 pontos
ESPORÃO RESERVA TINTO 2010
Herdade do Esporão, Alentejo, Portugal (Qualimpor R$ 125). Aqui se percebe notas de frutas vermelhas e negras mais frescas, bem como notas minerais, florais e herbáceas, além de toques especiados, tostados, de tabaco e de alcaçuz. Em boca, é frutado, estruturado, confirma o estilo de fruta mais fresca encontrada no nariz, tem taninos finos, ótima textura, acidez refrescante e final mais profundo que cheio. Fino e elegante. EM

AD 89 pontos
ESPORÃO RESERVA TINTO 2009
Herdade do Esporão, Alentejo, Portugal (Qualimpor - não disponível). Aqui se nota a fruta mais madura, envolta por notas florais, herbáceas e de especiarias doces, além de toques tostados e de tabaco. Em boca, é frutado, estruturado, opulento, suculento, tem taninos finos e final longo e persistente. Encorpado e exuberante. EM

AD 91 pontos
ESPORÃO RESERVA TINTO 2008
Herdade do Esporão, Alentejo, Portugal (Qualimpor - não disponível). Um ano clássico no Alentejo. Frutas vermelhas mais frescas, notas herbáceas, florais, minerais e de especiarias doces. Em boca, mostra fruta de ótima qualidade, é estruturado, vibrante, elegante, tem boa acidez, taninos finos e final profundo e longo. EM

AD 92 pontos
ESPORÃO RESERVA TINTO 2007
Herdade do Esporão, Alentejo, Portugal (Qualimpor - não disponível). Um ano mais frio na região. Aromas mais complexos de frutas vermelhas mais frescas, bem como notas de tabaco e de especiarias doces, além de toques tostados, minerais e de ervas secas. Em boca, é vibrante, intenso, tem ótimo corpo, acidez refrescante e final longo e persistente. Consegue aliar elegância e intensidade. EM

AD 91 pontos
ESPORÃO RESERVA TINTO 2006
Herdade do Esporão, Alentejo, Portugal (Qualimpor - não disponível). Aromas de frutas vermelhas e negras mais frescas, notas florais e herbáceas. Em boca, já acusa o ano mais quente, mostrando frutas mais maduras e compotadas. Tem ótima estrutura, é suculento, encorpado, tem taninos finos, final longo e mais cheio. EM

AD 90 pontos
ESPORÃO RESERVA TINTO 2005
Herdade do Esporão, Alentejo, Portugal (Qualimpor - não disponível). Especiado tanto no nariz quanto na boca. Mostra frutas frescas envoltas por notas de especiarias picantes, além de toques florais e tostados. Em boca, confirma as frutas frescas encontradas no nariz, tem taninos macios, ótima acidez e final persistente e mais profundo. EM

AD 93 pontos
ESPORÃO RESERVA TINTO 2004
Herdade do Esporão, Alentejo, Portugal (Qualimpor - não disponível). Aromas extremamente finos e elegantes, notas florais, herbáceas, tostadas, de alcaçuz e de especiarias doces. Em boca, mostra ótima acidez, tem taninos finos e final longo. Consegue aliar potência, sutileza e elegância. O mais preciso de todos. É o que mais lembra o 2011 e o que mais tem capacidade de indicar onde o 2011 vai chegar. Está em seu auge. EM

AD 88 pontos
ESPORÃO RESERVA TINTO 2003
Herdade do Esporão, Alentejo, Portugal (Qualimpor - não disponível). O único que apresentou notas de evolução, tanto no nariz quanto na boca, mostrando um pouco de cansaço no nariz. Já na boca, surpreende pela fruta de ótima qualidade, ótima textura e final persistente. EM

AD 91 pontos
ESPORÃO RESERVA TINTO 2002
Herdade do Esporão, Alentejo, Portugal (Qualimpor - não disponível). Está mais vivo que o 2003. Tem notas complexas no nariz, aromas terciários, que envolvem a fruta vermelha, as notas especiadas e terrosas. Em boca, é mais delicado, estruturado, tem ótima textura e final persistente. A mais delicada e sutil das amostras provadas. EM


Grandes degustações Alentejo Herdade Esporão safra João Roquette Bandeira Romanée-Conti

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