Arqueologia vinícola

Há 15 anos, um ampelógrafo francês visitou o Chile e esbarrou com uma variedade tida como extinta há muito tempo, a Carménère

Christian Burgos em 9 de Fevereiro de 2010 às 15:09

Jean Michel Boursiquot, o ampelógrafo que encontrou a Carménère no Chile

Imagine a sensação de descobrir um ser vivo que o mundo julgava extinto. Em poucas palavras, foi o que aconteceu com Jean Michel Boursiquot num vinhedo chileno - como se estivesse em um verdadeiro Parque dos Dinossauros, porém, felizmente, ele se deparou com uma espécie que não persegue e devora seu descobridor.

Em 24 de novembro de 2009, ADEGA teve a honra de ser uma das cinco revistas internacionais convidadas para a celebração dos 15 anos do redescobrimento da Carménère no Chile. Nos vinhedos da Viña Carmen - onde a variedade considerada extinta foi redescoberta - uma cerimônia reuniu ministros, dirigentes de associações de enólogos e produtores, grandes importadores mundiais de vinho e, principalmente, os personagens que viveram aquele momento histórico.

Entre estes últimos, ninguém menos que o ampelógrafo francês, Jean Michel Boursiquot, o redescobridor da Carménère entre as videiras de Merlot. Na ocasião, o atual enólogo-chefe de Viña Carmen, Stefano Gandolini, brindou a todos com a história da Carménère, que compartilhamos a seguir.

Carménère surgimento, declínio e renascimento

A Carménère pertence à grande linhagem Cabernet, dentro da qual podemos encontrar suas meio-irmãs Cabernet Sauvignon e Merlot, e seu pai Cabernet Franc. No século XVIII, a Cabernet Franc era a variedade mais popular da França, e no século XIX se tornou a variedade mais reconhecida e prestigiosa de Médoc. Seguindo os passos do pai, vinha a filha Carménère.

Em sua obra, o "pai" da ampelografia moderna, Pierre Galet, cita: "a Cabernet Franc e a Carménère são as duas variedades que fizeram famosos universamente os vinhos do Médoc". Outros antigos tratados de ampelografia dão à Carménère atributos qualitativos excepcionais, apesar de já reconhecerem a dificuldade de seu cultivo por ser uma variedade tardia - é uma das últimas a alcançar a maturação de seus frutos.

fotos: divulgação

Os vinhedos franceses, no século da famosa classificação de Bordeaux de 1855, foram seguidamente atingidos por enfermidades provenientes da América. A mais devastadora foi a filoxera, que se abateu sobre os vinhedos franceses em 1865, mas que já fora precedida pelo oídeo em 1850, e foi seguida pelo míldio em 1885.

Diversas pragas devastaram a Carménère na Europa no século XIX e ela só sobreviveu escondida nos vinhedos chilenos

Com o replantio dos vinhedos atingidos pelas pragas, foi dada preferência a variedades com produção mais consistentes e mais precoces - aquelas cujo amadurecimento se dá mais cedo -, e assim ganha espaço e importância a Merlot, em detrimento da Carménère, que passa à história oculta nos vinhedos do Chile confundida com a Merlot.

Stefano Gandolini vê a Carménère como um tesouro escondido nos vinhedos chilenos e que, longe de ser uma casta qualquer, fora uma das grandes variedades de Bordeaux.

#Q#

Por mais de um século, Merlot e Carménère estavam plantadas juntas nos vinhedos dos vales andinos, cultivados sem a compreensão de que eram variedades distintas. Como sabemos, a Merlot amadurece muito antes da Carménère e, assim, ao colher as uvas no tempo adequado para a Merlot, colhia-se uma Carménère verde. E, ao esperar mais pelo amadurecimento da Carménère, colhia-se Merlot sobremadura, impactando seriamente na qualidade dos vinhos produzidos.

Assim, o despertar do Carménère no Chile não ocorre em má hora. Longe disso, pois o Merlot chileno vivia desprestigiado pela indústria do vinho.

Em 1994 ocorre no Chile o 6º Congresso Sulamericano de Viticultura e Enologia e tem entre seus convidados o ampelógrafo francês Jean Michel Boursiquot que, em visita aos vinhedos de Viña Carmen, identifica, em 25 de novembro de 1994, a Carménère plantada entre as videiras de Merlot.

O então enólogo Alvaro Spinosa e o presidente da vinícola, Ricardo Claro, tomaram a decisão de produzir - e identificar como tal - o primeiro vinho varietal Carménère que chegou ao mercado em 1996.

Merlot francês e "Merlot" chileno

Hoje pode-se perguntar como isso pôde acontecer, pois, ao vermos plantas de Carménère e Merlot, parece quase impossível aceitar esta confusão entre as variedades. A planta da Carménère nos é visivelmente mais exuberante em folhagem, além de adquirir uma cor avermelhada que contrasta com o verde das folhas da Merlot. O fato é que os antigos produtores chilenos muitas vezes já se referiam ao "Merlot francês" e ao "Merlot chileno", e a Carménère era tida como um clone de Merlot.

fotos: divulgação
Além da diferença de tempo de maturação, folhagem da Carménère também é diversa da Merlot, cepa com a qual era confundida no Chile

Desde então, o desenvolvimento da qualidade dos vinhos Carménère está se dando a passos largos. A princípio, a tentativa de basear a Carménère como produtor de vinhos com enfoque na relação custo x benefício revelou-se um problema, visto que ela não é uma variedade fácil e seus aromas são muito verdes se não tratada com grande atenção.

Variedade era considerada de segunda categoria, mas, hoje, 15 anos depois de sua descoberta o manejo da Carménère se aproxima do ótimo

Dessa maneira, os primeiros Carménère chilenos a inundar o mercado não representavam o melhor potencial da variedade, muito pelo contrário, a ponto de o crítico de vinhos inglês Tim Atkim dizer que se tratava de uma variedade de segunda categoria em 2003. Isso acirrou os ânimos de muitos produtores, mas motivou tantos outros a trabalhar duro em conjunto com as universidades chilenas para alterar esta percepção de sua uva ícone.

#Q#

Os problemas a resolver eram três: eliminar o aroma e sabor verde, torná-la uma variedade consistente do ponto de vista produtivo e, por fim, fazer dela uma casta com boa sanidade, dada sua sensibilidade a pragas. Atualmente, muitos produtores chilenos dizem que finalmente, após 15 anos de sua descoberta, a experiência no manejo da Carménère se aproxima de seu nível ótimo.

Christian Burgos, Ciro Lilla, Boursiquot e José Ignácio Vargas na cerimônia

Indiana Jones por acaso?

Poderíamos imaginar que um ampelógrafo (um estudioso das videiras e formato de suas folhas) - que habita como personagem principal algumas das bíblias da história do vinho - deveria ser um senhor de óculos e barbas brancas. Ou então, uma espécie de Indiana Jones. Contudo, Jean Michel Boursiquot - que conversou conosco com exclusividade - está na casa dos 40 anos, tem aparência jovem, cabelos pretos curtos e óculos de aros leves. A hipótese Indiana Jones também cai por terra ao presenciarmos sua timidez e humildade, ficando quase desconfortável na sua posição de centro das atenções da celebração.

Quando descobriu a Carménère nestes vinhedos, você pressentiu a grandiosidade do momento que estava vivendo?

É difícil responder, tive a sensação de que era importante, quase uma certeza, mas não imaginei o tamanho das consequências da descoberta.

Como o conhecimento da Carménère estava tão presente em você para conseguir perceber que algumas daquelas plantas não eram Merlot, mas, sim, Carménère?

É claro que eu estudara muito as variedades francesas. Antes de vir ao Chile, nunca havia visto Carménère na natureza, mas, em anos de estudo, havia tido acesso a folhas de Carménère conservadas em coleções que estudara. Sabe, você trabalha muito e algumas vezes apenas uma pequena parte de seu esforço será recompensada. Mas você nunca sabe qual parte [risos].

A que você dedica seu tempo atualmente?

A dar aulas e pesquisar. Hoje pesquisamos a linhagem das videiras através de mapeamento genético e estamos construindo uma importante base de dados com os perfis genéticos. Estamos tentando encontrar e estabelecer o parentesco entre as variedades de forma a mapear a evolução das videiras.

Qual a importância de conhecer estas linhagens?

Através disto podemos compreender e prever o comportamento das variedades, as características dos frutos de cada uma e seu papel no vinho resultante.


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