Oiça lá, ó senhor vinho, vai responder-me, mas com franqueza: porque é que tira toda a firmeza a quem encontra no seu caminho?
(...)
"Eu já fui", responde o vinho,
"A folha solta a bailar ao vento, fui raio de sol no firmamento que trouxe à uva, doce carinho.
Ainda guardo o calor do sol e assim eu até dou vida, aumento o valor seja de quem for na boa conta, peso e medida.
E só faço mal a quem me julga ninguém e faz pouco de mim.
Quem me trata como água é ofensa, pago-a!
Eu cá sou assim."
Vossa mercê tem razão e é ingratidão falar mal do vinho.
E a provar o que digo vamos, meu amigo, a mais um copinho!
"Oiça lá, ó senhor vinho" (Alberto Janes), na voz de Amália Rodrigues

Na derrocada do Império Romano, entre um copo e outro de vinho, os soldados e os populares degeneravam o latim vulgar que bradavam e dele fizeram surgir a última flor do Lácio, a língua portuguesa, inculta e bela, na expressão de Olavo Bilac. Junto com seus sons, os conquistadores difundiram a cultura da trindade pão, azeite e vinho.

Somadas à fala dos romanos, as sucessivas invasões bárbaras e árabes e resquícios da expressão oral de outros povos que habitavam a região de Portugal anteriormente, incluindo os celtas, confluíram para formar o idioma. Vale lembrar que, graças a um erro de tradução, Luso, termo que designa o povo que nos originou, virou personagem mitológico, suposto filho de Baco, deus romano do vinho, bebida que acompanhou a formação dessa gente. Os campesinos da Ibéria aprenderam a cultivar - inicialmente com gregos e romanos e depois por si próprios - excelentes vinhedos, que hoje produzem alguns dos melhores títulos do mundo.

Tamanha influência, antes da consolidação das variedades francesas, resultou numa variedade invejável de castas autóctones preservadas até hoje em Portugal. Alie isto à descoberta e desenvolvimento de distintos terroirs e encontramos o verdadeiro patrimônio da vitivinicultura portuguesa.

A vez dos árabes

No entanto, nenhuma presença depois dos romanos foi tão transformadora para essa região quanto à dos mouros, que dominaram a Península Ibérica por séculos. Com eles veio o alaúde (al-ud), pai do violão, instrumento que definiria a expressão musical daquelas terras, bem como suas derivações: a viola (viela) e a guitarra (qithara/guiterna), além da rabeca (rebad), tocados de forma rítmica e com breves pausas características, tudo acompanhado por um jeito diferente de cantar. A escala árabe formalizada em Bagdá por Safi-Ab-Din tinha 17 sons, o que, para nós, são os meios tons e até microtons, criando divisões distintas das sete notas musicais.

Embora muitos seguidores de Maomé fossem contrários à música e a proibissem, era praticada clandestinamente - nos mesmos locais em que se bebia o vinho e dançava - constituindo uma rica tradição. Nessas rodas também se acompanhava a execução batendo palmas, marcando o ritmo.

Para entender o poder dessa influência e sua filiação mourisca, basta comparar as expressões musicais produzidas no sul da Europa - a cançoneta napolitana, a música andaluza e o fado português. Inegáveis as semelhanças, especialmente na maneira de cantar cheia de vibratos e no ataque percussivo aos instrumentos, uma expressão dolente, que, para nós, é a própria definição da melancolia. Um sentimento vago diante da imensidão do mar. Nos versos de Fernando Pessoa, "Ó mar salgado, quanto do teu sal/São lágrimas de Portugal!"

O fado do destino

A palavra fado vem de fatum, destino. E quantas vezes nos rendemos a brindar em honra ao inevitável? Sim, o vinho acompanha perfeitamente nossas celebrações de alegria e nossas tristezas. "O Fado, nasceu um dia/ Quando o vento mal bolia/E o céu, o mar prolongavam/Na amurada dum veleiro/No peito dum marinheiro/Que estando triste, cantava..." reza o "Fado Português", de José Regio e Alain Oulman.

O sociólogo Gilberto Freyre fala que a língua portuguesa pertence à categoria das "línguas faladas ao ar livre", como as dos povos pescadores, cheias de vogais escancaradas e sons indiscretos, como o "ão", provavelmente forjada em seu contato com o mar. E língua assim tem de ser musical. Sem mar não há fado. Sem saudade, tampouco.

#Q#

O vinho do islã

Já que sabemos o que contribuiu para a língua e para a música, mas o que fizeram os árabes pelo vinho ibérico (herança dos romanos, que o herdaram dos gregos, que o herdaram dos fenícios)? A horticultura dos povos islâmicos era muito avançada. Eles estavam à frente dos ocidentais em muitos aspectos tecnológicos. Contribuíram significativamente para a cultura da vinha e acredita-se que tenham incorporado novas cepas à produção local.

Mas também o vinho era proibido pelo Islã. Dependendo da região e do humor dos juristas islâmicos, por vezes mandaram destruir vinhedos inteiros, sob alegação divina de que a bebida corrompe o homem. Só que os povos pré-islâmicos eram grandes amantes da bebida, sobretudo os persas. Esta cultura resistiu de alguma forma, mesmo entre fiéis, o que garantiu uma rica tradição da qual podemos, felizmente, desfrutar. Quem resiste ao vinho, afinal? Como nos versos do Rubaiyat, de Omar Khayyam, na tradução de Manuel Bandeira:

Traz-me vinho, toca o alaúde e que as suas notas,
Suas modulações façam lembrar-me
A brisa que cicia nas ramagens
Das árvores, a brisa leve, leve,
Leve... A brisa que passa como nós!

Mariza: comparada com Amália Rodriguez, para o bem, ou para o mal

Fado renovado

Mariza nasceu no Moçambique, mas foi criada em Portugal. Surgiu em 2002 na cena musical com "Fado em mim". Foi logo aclamada como uma renovadora do gênero. Como toda cantora dessa cultura, é influenciada profundamente por Amália Rodrigues, a quem é sempre comparada, para o bem e para o mal. Sua voz doce e sofisticada torna a experiência de ouvir fado grandiosa. Uma canção em particular é um deleite. Chama-se Lírios. Há que se ouvir. Vale muito também o DVD "Concerto em Lisboa", com o violoncelista brasileiro Jaques Morelenbaum e a Sinfonietta de Lisboa.

O último álbum de Mariza foi lançado no ano passado com o título "Terra", no qual, infelizmente (pelo resultado, não pela proposta), começa a flertar com outras expressões musicais. Quanto aos discos anteriores, dá vontade de empilhá-los e ouvi-los um a um, cada qual acompanhado de uma garrafa diferente, seja de um Moscatel de Setúbal, de um bom exemplar de Vinho Verde (Sim!) ou de um grande exemplar de Porto Vintage, que merece também uma iguaria da doçaria portuguesa, como os pastéis de Santa Clara ou os de Belém. E, se for ter bacalhau, aí temos terreno para uma controvérsia histórica (vinhos brancos ou tintos?). Mas, de qualquer maneira, muito azeite e batatas, por favor! E melancolia só vira tristeza para quem deixa derramar o vinho.


Curiosidades

Artigo publicado nesta revista

Revista ADEGA 44 · Junho/2009 · En Primeur

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