Beaujolais não é só o novo

Incrustada na Borgonha, a região do Beaujolais apresenta muito mais em vinho do que apenas o famoso Beaujolais Nouveau

Aguinaldo Záckia Albert em 8 de Fevereiro de 2010 às 13:11

A Pinot Noir é a cepa típica da Borgonha, mas, em Beaujolais, quem reina é a Gamay

Entre a região de Mâcon e a cidade de Lyon vamos encontrar uma das mais belas regiões francesas em cujas colinas – expostas ao sol no sentido leste-sudeste e protegidas dos ventos frios e cheios de umidade do oeste – reina soberana a uva Gamay. Embora em termos administrativos faça parte da Borgonha, o Beaujolais é uma região à parte, cheia de peculiaridades.

A uva Gamay, ao invés da Pinot Noir, é apenas uma das diferenças entre as duas regiões. O clima do Beaujolais, embora também temperado, é mais suave; seu solo (nas melhores zonas) é granítico e xistoso; sua topografia é diversa; e seus vinhos mais leves e menos estruturados.

Essa uva, quando plantada em terrenos inadequados, dá origem a vinhos medíocres. Esse fato já havia sido percebido em 1395 por Phillipe II, Le Hardi (“O Corajoso”), duque de Borgonha, que expulsou a cepa das terras borgonhesas, chamando a variedade de “cépage vil”. Dessa forma, a Borgonha tornou-se quase que exclusivamente a terra da Pinot Noir, utilizando apenas a Gamay na AOC Passetoutgrain, onde as duas uvas aparecem mescladas.

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O Beaujolais novo

Fenômendo do Beaujolais Nouveau começou em 1951 para capitalizar os vinhateiros rapidamente

fotos: SXC e divulgação
Phillipe II, “O Corajoso”, duque de Borgonha, expulsou a Gamay das terras borgonhesas, chamando-a de “cepage vil”

A denominação Beaujolais é mundialmente conhecida, mas nem todos sabem das diferenças que existem entre seus vários tipos de vinho. O mais notório deles é o Beaujolais Nouveau, um vinho extremamente jovem, como se depreende pelo nome (nouveau – novo), com grande expressão de fruta e de consumo muito rápido.

Criado em 1951, tinha por objetivo capitalizar os vinhateiros rapidamente, uma vez que o vinho era comercializado no mesmo ano da colheita. Dessa forma, as uvas eram colhidas entre os meses de setembro e outubro e o vinho, novíssimo, era liberado para venda na terceira quinta-feira de novembro do mesmo ano. O vinho novo ganhou espaço nos bistrôs de Lyon e depois de toda a França, e chegando a todo o mundo nos anos de 1980.

O vinho é elaborado pela chamada “maceração carbônica”, que consiste em colocar os cachos inteiros nas cubas fechadas, sem desengaçamento nem prensagem, com a posterior adição de gás carbônico, que fará com que as cascas se rompam e se inicie a fermentação alcoólica. O objetivo é obter um vinho bastante fresco e com muita fruta.

A chegada do Beaujolais é anunciada mundialmente pela célebre frase “Le Beaujolais Nouveau est arrivé” (o Beaujolais Nouveau chegou), e se transformou num fenômeno de marketing de grande sucesso. Esse vinho despretensioso e de poucas virtudes, mais ligado à festa e ao consumo hedonístico do que à degustação, caracteriza-se por seu peculiar aroma de banana mesclado à cereja. É refrescante, simples, tem corpo leve e deve ser bebido tão resfriado quanto um branco encorpado. Lembra bastante um suco de uvas e teve muitos anos de glória comercial, vivendo atualmente uma grave crise motivada pela drástica queda de seu consumo. Pior do que isso, acabou emprestando sua fama duvidosa a outros bons vinhos da região, principalmente os Beaujolais Village e os Cru de Beaujolais, que lutam atualmente por reconhecimento.

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São apenas 10 os Cru de Beaujolais, que chegaram a se equivaler aos grand Crus da Borgonha em outra época

Nem tudo é Noveau

fotos: divulgação

Os outros tipos de Beaujolais são o Beaujolais básico, que representa metade de toda a produção. Seu teor alcoólico não ultrapassa os 10%. Acima dele temos o Beaujolais Supérieur, com um mínimo de 10,5% de álcool. São vinhos muito simples e desinteressantes, elaborados com uvas cultivadas no Bas Beaujolais, perto de Belleville, onde o solo é argilo-calcário e não granítico, como nas melhores regiões, e os rendimentos de produção são altos.

O Beaujolais-Villages, que representa 25% do total produzido na zona, é feito nas colinas da parte mais setentrional da região, próximas ao maciço central francês, onde se situam as 39 comunas autorizadas a produzi-lo. Aqui já se pode encontrar vinhos bem mais interessantes, capazes de aliar o frescor a uma melhor estrutura. Vinhos que, mediante uma seleção de bons produtores, valem a pena ser bebidos e são aptos a acompanhar um grande número de pratos.

Os 10 Cru

Os Cru de Beaujolais ocupam o topo de toda a gama. São em número de 10 e apresentam sutis diferenças organolépticas entre si. Produzidos nos melhores terroirs da região norte, ostentam no rótulo a denominação específica de sua comuna (village) sem menção ao nome Beaujolais. Assim, quando se bebe um AOC Moulin-à-Vin ou Fleurie, está-se bebendo um Beaujolais.

Rumando do norte para o sul, são essas as 10 comunas: Saint-Amour, Julienas, Chenas, Moulin-à-Vent (o mais renomado), Fleurie, Chiroubles (tido como o mais elegante), Morgon (o mais encorpado), Regnié, Broully e Côte de Broully.

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São vinhos deliciosos e bastante gastronômicos que já gozaram de reputação muito maior do que a que têm hoje. Para se ter uma ideia, nos anos de 1950 seus preços equivaliam aos dos Grand Crus da Borgonha. Atualmente, custam um décimo do valor desses vinhos, o que muitos experts consideram injusto.

Vale lembrar que existe uma pequena parcela de produção de vinho branco na região. Na sua elaboração utiliza-se a consagrada Chardonnay, que chega dos vinhedos próximos a Saint-Veran. São vinhos de pouca expressão e prestígio.

Vários produtores merecem ser citados pela sua qualidade. Georges Duboeuf, Joseph Drouhin, Labrouyère, Louis Jadot, Dominique Piron. Tivemos uma agradabilíssima surpresa quando visitamos este produtor, em 2002. Depois de provar uma série de seus ótimos vinhos, o vinhateiro, cheio de orgulho, trouxe uma garrafa de seu Morgon 1989. E o vinho, rico, complexo de aromas, estava delicioso. É bem verdade que se tratava de um vinho de safra excepcional de um ótimo produtor, mas era um Beaujolais de 13 anos!

O verão brasileiro – e também o francês – é um grande desafio a ser vencido pelos vinhos tintos, principalmente aqueles mais robustos e alcoólicos, como a maioria dos produzidos no Novo Mundo. O calor pede também pratos mais leves e vinhos que ganhem quando servidos a temperaturas mais baixas. A opção por um bom Beaujolais-Villages ou um Cru de Beaujolais merece estar presente na mente do aficionado do vinho e da gastronomia.

A safra de 2009 na região do Beaujolais é tida como excepcional pelos vinhateiros da região. Muitos deles alimentam esperanças de que possam aproveitar essa oportunidade para recolocarem o nome Beaujolais novamente no mapa do mundo do vinho, agora por sua qualidade.


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