Bebendo o almirante

Lorde Horatio Nelson, maior herói de guerra britânico, soube usar o vinho e outras bebidas para tirar vantagem dos inimigos franceses

Arnaldo Grizzo em 17 de Agosto de 2010 às 08:44

Foto: Divulgação

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Em 25 de junho de 2005, nas praias de Portsmouth, no Reino Unido, a rainha Elizabeth II celebrou os 200 anos da famosa batalha de Trafalgar. O combate é considerado a maior vitória naval britânica na história. O grande homenageado era o almirante Lorde Nelson, um dos maiores heróis de guerra do mundo, que, com essa conquista, impediu a invasão dos exércitos de Napoleão em território inglês. Duzentos anos depois, o brinde foi com vinho francês...

Horatio Nelson, ferrenho opositor dos franceses, certamente ficaria um pouco chateado com esse brinde. Ele, porém, gostava de vinho (e não somente de vinho, mas de outros tipos de bebidas alcoólicas). E, se serve de consolo para a memória do principal nome da história bélica inglesa, Elizabeth II escolheu vinhos de Bordeaux - região que ficou sob jugo britânico durante muitos anos na Idade Média - para celebrar seu feito.

Ousado, criador de diversas táticas inovadoras para batalhas no mar, Lorde Nelson inspirava sua tripulação e sabia cuidar bem de seus comandados. A marinha nos séculos XVIII e XIX já estava bastante desenvolvida, mas ainda enfrentava problemas, principalmente de abastecimento das tropas que ficavam grande tempo no mar. Era preciso se preocupar com os alimentos (que se deterioravam rapidamente) e com a água (que podia facilmente ficar contaminada e deixar os marinheiros doentes).

Sendo assim, era necessário levar animais vivos (e carnes salgadas) nos navios e, já que a água não era confiável, o melhor era levar vinho (geralmente os fortificados, que têm longo tempo de guarda), rum, uísque ou outros tipos de bebidas fermentadas ou destiladas. Uma das principais doenças que afetavam os marinheiros nessa época, devido ao tipo de dieta restrita a que tinham acesso, era o escorbuto, que causa hemorragias nas gengivas, dores no corpo e feridas que não cicatrizam. Tudo devido à falta de vitamina C.

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Gin-fizz e Marsala
Assim, é creditado a Lorde Nelson o uso pioneiro do gin-fizz, um coquetel à base de gin, limão e soda, em seus navios. Esta bebida conservava a preciosa vitamina e evitava o escorbuto. Diz-se que essa era uma das grandes vantagens da marinha britânica em relação à francesa, bem menos desenvolvida na época (em compensação, as tropas terrestres de Napoleão eram extremamente fortes).

Foto: Divulgação
Lorde Nelson foi morto com um tiro nas costas (acima) e seu corpo (colocado em um barril de rum) levado de volta à Inglaterra. Contudo, no caminho, marujos tomaram tragos do almirante, que ficou a seco

A carreira bélica do almirante inglês fez com que ele passasse por diversos lugares e portos onde se destilavam açúcar de cana ou produziam outros tipos de bebida, como as Antilhas, a Ilha da Madeira, as cidades Nápoles e Palermo etc. Em cada uma de suas escalas, uma das missões de seus subalternos era conseguir suprimentos de vinho, cerveja e outros tipos de álcool.

Antes de zarpar para a célebre batalha de Trafalgar, diz-se que Nelson mandou embarcar 305 tonéis de água, cerveja e vinhos fortificados. O segredo para manter a saúde (física e mental) da frota era saber dosar as rações diárias de bebida. A sede à bordo era horrível e alimentos e água podres eram motivos mais do que suficientes para insurreições. Assim, as rações eram repartidas por patentes. Por dia, era dado quatro quartos de cerveja ou um quarto de vinho ou uísque para a tripulação. O rum era misturado com três parte água para torná-la bebível. Carne, peixe e carneiro cozido combinavam com os vinhos tânicos ou cheios de madeira que iam a bordo.

O almirante não era mão de vaca quando o assunto era vinho. Durante um período que ficou em Nápoles, Lorde Nelson - que teria um famoso caso com Lady Emma Hamilton, a esposa de um embaixador inglês - conheceu o vinho Marsala, típico da Sicília. Tanto que, na época, supriu sua frota mediterrânea com 500 pipas de 412 litros deste néctar.


"Um gole no almirante"
Em 1805, o Reino Unido era constantemente ameaçado pela França. Uma invasão era iminente, apesar do poderio naval britânico, que frequentemente derrotava as forças francesas em alto mar. Contudo, uma coligação com a Espanha deixou Napoleão mais confiante em seu plano de invadir a ilha. Então, aos 47 anos, o almirante Nelson foi convocado para impedir as frotas francesas e espanholas de conseguirem seu intuito.

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Durante estadia na Itália, Nelson se encantou com o vinho siciliano Marsala e mandou suprir seus navios com 500 pipas

Os 33 navios sob o comando do almirante francês Pierre-Charles Villeneuve, estacionados em Cádiz, no cabo de Trafalgar, eram uma ameaça real à esquadra britânica com 27 embarcações (e ainda por cima de menor porte). No entanto, mesmo em desvantagem numérica, as habilidades táticas de Lorde Nelson trouxeram a vitória aos ingleses. Contudo, no calor da batalha, o almirante foi atingido por um tiro mortal, nas costas. As últimas palavras dele teriam sido: "Graças a Deus cumpri meu dever".

Tamanho prestígio fez com que o corpo de Nelson fosse levado de volta à Inglaterra, ao contrário do costume de jogá-lo ao mar. Assim, para poder conversar os restos do almirante até alcançar sua pátria, ele foi colocado em um barril de rum. Porém, reza a lenda que utilizar o estoque da bebida de tal maneira fez com que houvesse uma restrição na distribuição das rações diárias de álcool no navio. Com isso, alguns dos marinheiros que guardavam o corpo aproveitaram para sorrateiramente tomar uns "goles do almirante", deixando-o a seco.


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