Revista Adega
Luna Garcia

Sempre existe aquele momento em que coisas novas rogam por serem descobertas e cutucam como alfinetadas de curiosidade para saber se de fato tudo evolui e melhora com o tempo. Para isso, escolher a atmosfera mais acolhedora, o ambiente mais neutro, refinado ou simples, discreto ou badalado, pouco importa, o que realmente vale é estar disposto a esta experiência que amolece até o mais duro dos homens.

Estamos falando de um tipo, ou melhor, de um formato de degustação que se constitui em pelo menos duas ou mais garrafas de um mesmo vinho, de um mesmo produtor, de safras (ano de colheita) diferentes.

Sim, é preciso dessas premissas para se ter uma degustação vertical. Isso sem contar com aqueles bons amigos que estão sempre dispostos com o copo na mão para brindar a vida e celebrar o momento de aprendizado.

Método

Então, abrem-se as garrafas. Dependendo de suas datas de colheita, a melhor ferramenta é uma pinça para tirar a rolha – que corre um grande risco de estar com os dias contados, mostrando a que veio: protegendo o vinho, dosando com cuidado a troca de oxigênio.

Depois, cuidadosamente, despeja-se o conteúdo nas taças. Estas, para uma pessoa organizada, bastam estar em linha, correspondendo cada qual com as datas dos vinhos em ordem crescente da esquerda para direita. Se for o caso, utilize- se de uma caneta marca texto para as garrafas e taças, numerando-as de acordo com a sequência, ou então use pequenos adesivos redondos coloridos para a distinção dos vinhos. Será preciso ter o mesmo número de taças que o de garrafas para que se possa fazer a comparação – a parte mais legal de toda essa grande confusão.

Por onde começar?

Há quem prefira começar pelos mais jovens, colheitas mais recentes. Mas também pode-se começar pelos mais velhos, safras mais antigas. O importante é que se siga uma ordem, crescente ou decrescente, tanto faz.

Depois de tudo acertado, com as garrafas meio cheias, as taças meio vazias e os dedos todos manchados de tinta de caneta, começa o grande passeio nessa montanha russa de datas e épocas distintas.

Essas degustações existem para que se possa comparar o estilo dos enólogos que passaram pelas vinhas e, obviamente, entender o que aconteceu ao longo dos anos – cada qual com suas características climáticas, envolvendo incidência solar, índice pluviométrico, dias de frio e de calor etc, e eventualmente também perceber seus cortes, se os vinhos forem feitos com mais de um tipo de uva. Eles sempre mudam.

O mais interessante disso tudo é acompanhar a evolução, a integração dos elementos como álcool, tanino e acidez, os aromas (uma vez primários, secundários e agora também terciários, para os mais velhos – vide box explicativo), notando se melhoraram ou pioraram com a influencia implacável do tempo.

É como conversar com uma mesma pessoa, em décadas distintas, e perguntar as mesmas questões. As respostas serão distintas. É mais ou menos isso o que se vai fazer com os vinhos em uma degustação vertical. Sem dúvida, estamos falando tecnicamente, mas isso não quer dizer que para uma comparação destas seja preciso a presença dos produtores, enólogos, sommeliers etc. Só é necessário disposição e paciência para, simplesmente, beber uma época “engarrafada” em forma de líquido por alguém que já pode até ter morrido em uma data que você ainda nem tinha nascido. Uma experiência sem igual.

EVOLUÇÃO DOS AROMAS
Aromas primários: provenientes da fruta, observa-se sem agitar a taça.
Aromas secundários: vindos do processo de maturação, percebe-se agitando a taça em movimentos circulares.
Aromas terciários: surgidos da evolução da idade do vinho, nunca aparecem antes de cinco anos ou mais.

Artigo publicado nesta revista

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