Bolshoi nos vinhedos

Uma encantadora apresentação de balé marcou a festa da vindima na Altitude Catarinense

Por Christian Burgos em 18 de Maio de 2015 às 00:00

Quando a chuva e o vento açoitaram o palco construído no cume de uma das montanhas da Altitude Catarinense, parecia que tudo acabaria antes mesmo de começar. Meses de preparação teriam sido em vão e os quase 300 convidados para a noite de gala voltariam para casa sem ver o Bolshoi se exibir em meio aos vinhedos da Pericó, a primeira vez no Brasil e no mundo que a mais famosa companhia de balé do planeta se exibia entre vinhas.

E não seria por falta de preparação. As instalações eram impecáveis, estrutura, tablados, passarelas, som e iluminação especialmente construídos para esse evento que celebrava a colheita 2015 na Altitude Catarinense. Quem conhece Wandér Weege, proprietário da vinícola Pericó, sabe que, com ele, nada é deixado ao acaso. Os acessos ao local foram preparados para receber os ônibus, vans e dezenas de carros. Maçãs e espumantes de São Joaquim também estavam prontos para os convivas, e capas de chuva foram colocadas sobre as cadeiras para proteger a todos de uma chuva eventual.

Algumas semanas depois, ao ver os tornados assolando municípios de Santa Catarina, era impossível não lembrar o vento que fazia a chuva entrar horizontalmente, molhando tudo e todos.

Convidados e dignatários se mantiveram no local polidamente à espera do anúncio de que o espetáculo não aconteceria. Depois de vários minutos, a chuva perdeu força e foi a hora de o Bolshoi e os organizadores mostrarem a sua intensidade. O mestre de cerimônias pediu mais 15 minutos de paciência, pois iriam secar manualmente o palco para a realização do espetáculo. Organizadores e diretores do Bolshoi tiraram os ternos, arregaçaram as mangas, pegaram rodos e panos e se puseram a secar tudo. Emocionante! O homem deve reconhecer a força da natureza, mas, com flexibilidade e força de vontade, pode superar limites impensáveis.

Refletindo, parece óbvio que essas características façam parte do DNA dos membros do Bolshoi, onde graça, força, trabalho em equipe e superação são ingredientes do dia a dia desse improvável projeto que tomou forma em Joinville há exatos 15 anos.

Escola do Bolshoi no Brasil

O Brasil assistiu pela primeira vez o Bolshoi Ballet em 1957, e mais cinco turnês aconteceram entre 1978 e 1999. Foi justamente neste último ano que o senador Luiz Henrique da Silveira, então prefeito de Joinville, sabendo que a companhia de dança viria para uma turnê em sete capitais brasileiras, enviou um emissário com o objetivo de trazer o Bolshoi até a cidade. No dia 24 de maio de 1999, os dirigentes russos foram recepcionados num almoço na Petisqueira Pinheiro. Luiz Henrique da Silveira relata que “os dirigentes estavam decepcionados, pois não haviam conseguido criar uma escola fora da Rússia; nem em Washington, nem em Tóquio”. “Nesse momento, perguntei: porque não fazê-la aqui em Joinville para todas as Américas?”. Alexei Fadeich, diretor da companhia, respondeu sim de imediato.

Em 15 de março de 2000, foi inaugurada a primeira e única “filial” do Bolshoi fora da Rússia. Nascia a Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, cujo foco principal, nas palavras de seu diretor geral, Pavel Kazarian, é “a formação de artistas-cidadãos”. Vale lembrar que, desde suas origens, em 1776, o Bolshoi esteve ligado à formação. Nos primeiros anos, as aulas de teatro ocorriam dentro do Orfanato de Moscou, criado por Catarina, a Grande, para abrigar e educar crianças desamparadas. Com o tempo, elas passaram a fazer parte da trupe.

Apesar da fama de seu balé, essa foi uma expressão artística tardia na Rússia, introduzida nas cortes somente no século XVIII, muito devido à modernização do país promovida pelo czar Pedro I, que, influenciado pelo Iluminismo, importou costumes das nobrezas da Europa Ocidental, especialmente da França. Em solo russo, essa forma de arte – que era vista não apenas como entretenimento, mas como uma maneira de criar um padrão físico e comportamental – transformou-se e gerou sua própria escola, com ênfase na consciência corporal, trabalhando o corpo como um todo para dar mais expressividade aos movimentos.

Em Joinville, governos e sociedade empresarial se uniram em torno da iniciativa que formou centenas de alunos e cujos expoentes hoje integram as mais importantes companhias de dança do mundo. Muitos são jovens de origem humilde, vindos de todos os cantos do Brasil e também de fora do país, e que, após criterioso processo de seleção, recebem uma bolsa de estudos integral aos cursos de Iniciação ao Balé, Básico de Balé, Intermediário e Técnico em Dança Clássica e Contemporânea. Além do ensino gratuito, contam com alimentação, transporte, uniformes, figurinos, assistência social, orientação pedagógica, assistência odontológica preventiva, atendimento fisioterápico, nutricional e assistência médica.

Desde 2008, o Bolshoi no Brasil tem sua própria Cia Jovem, justamente a que veio se apresentar em meio aos vinhedos. Neste ano, Acari Amorim, presidente da Associação Catarinense de Vinhedos de Altitude e proprietário da vinícola Quinta da Neve, idealizou e aprovou este projeto na Lei de Incentivo à Cultura, sendo prontamente apoiado por empresários do estado.

Assim, em um fim de tarde pós-tempestade, quando as luzes do palco se confundiam com as cores do céu devido à aproximação da noite, dezenas de jovens bailarinos exibiram-se em diversos atos sob o olhar encantado e silencioso dos convidados. Em meio a pliés, brisés, pas de deux e tantos outros passos vigorosos e delicados ao mesmo tempo, celebrou-se a colheita catarinense. ADEGA teve a oportunidade de participar de algumas dezenas de celebrações da vindima em vários países do mundo, mas nos enche de orgulho dizer que a mais bela celebração assistimos em solo brasileiro. O Bolshoi e produtores de Santa Catarina lidaram com a inclemência da natureza e prevaleceram.

Perguntado se a apresentação do Bolshoi se repetiria como uma marca da colheita em Santa Catarina, Wandér Weege disse que provavelmente não. Esperamos que nisso, ele esteja errado.

Vocação catarinense

Por Eduardo Milan

Entre os dia 26 e 29 de março de 2015, aconteceu a 2ª Vindima de Altitude de Santa Catarina, com uma série de eventos culturais e gastronômicos itinerantes realizados nas instalações de diversas vinícolas localizadas nas cidades de São Joaquim, Lages, Campo Belo do Sul, Treze Tílias e Água Doce. O evento principal foi a apresentação do Bolshoi nos vinhedos da vinícola Pericó. ADEGA esteve lá e realizou algumas visitas. Pudemos perceber que o êxito da Sauvignon Blanc na Serra Catarinense já é fato consumado, pois, dos vinhos provados, a variedade foi a mais consistente, independentemente de estilo ou produtor. Além disso, os resultados com a Pinot vêm mostrando boa evolução no sentido de entender a cepa, sua tipicidade, já que alguns rótulos mostraram uma fruta mais fresca, não tão opulenta e sem excesso de madeira, o que é ótimo. As uvas italianas tintas, como Sangiovese e Montepulciano, indicam um caminho interessante, que começa a mostrar seus primeiros resultados, tendo em vista a boa quantidade de amostras de barricas provadas com essas variedades, e alguns exemplares já engarrafados de boa qualidade. Mas, o mais importante é que há uma busca por aprimoramento em todos os sentidos, seja nas reais possibilidades das variedades já plantadas, numa melhor interpretação do estilo que se pode obter de acordo com a cepa e o clima ou pela experimentação de outras variedades, o que acabará por produzir vinhos mais consistentes e com ainda mais qualidade. Confira alguns destaques.

AD 89 pontos
CAVE PERICÓ CHAMPENOISE NATURE 2012
Pericó, São Joaquim, Brasil (R$ 60). Cabernet Sauvignon (45%), Chardonnay (30%) e Merlot (25%) compõe este espumante branco Brut Nature elaborado pelo método tradicional, com estágio de 18 meses sobre as leveduras. Impressiona pela cremosidade e acidez vibrante, mostrando frutas brancas e tropicais acompanhadas de notas tostadas, florais e de pão. Estruturado, tem bom volume e final longo, com toques minerais e cítricos. Álcool 12,5%. EM

AD 89 pontos
DONNA ENNY SAUVIGNON BLANC 2013
Villaggio Bassetti, São Joaquim, Brasil (R$ 90). Sauvignon Blanc com passagem por madeira, que por sinal está muito bem integrada e evoluindo para melhor em garrafa, mostrando mais volume e cremosidade, mas mantendo a acidez refrescante e o final mineral, com toques salinos. Equilibrado e muito gostoso de beber. Álcool 13%. EM

AD 88 pontos
MAESTRALE CABERNET SAUVIGNON 2007
Sanjo, São Joaquim, Brasil (R$ 72). Os anos de garrafa estão fazendo bem para este tinto 100% Cabernet Sauvignon, com estágio em madeira. Redondo e equilibrado, tem taninos de boa textura, acidez refrescante e final persistente, convidando a mais um gole. Álcool 13,5%. EM

AD 89 pontos
QUINTA DA NEVE CABERNET SAUVIGNON 2010
Quinta da Neve, São Joaquim, Brasil (R$ 60). 100% Cabernet Sauvignon, com estágio de seis meses em madeira usada. Uma ótima interpretação de Cabernet Sauvignon de clima frio. Fresco, tenso, vibrante, com taninos de ótima textura e gostosa acidez. Mostra fruta negras como amoras e cassis envoltos por notas florais, herbáceas e de especiarias. Álcool 13,2%. EM

AD 91 pontos
VILLA FRANCIONI MICHELLI 2005
Villa Francioni, São Joaquim, Brasil (Não disponível). Este 2005 foi a primeira safra produzida deste tinto e destaque da vertical junto das safras 2006, 2007 e 2008. Sangiovese e pequenas partes de Cabernet Sauvignon e Merlot, com estágio de 48 meses em barricas novas de carvalho francês. Este vinho foi provado pela primeira vez em 2009, quando estava recém engarrafado. Agora, com mais seis anos de garrafa, mostra-se mais pronto, mas ainda jovem, com ótima textura de taninos e muito bem feito e equilibrado nesse estilo mais maduro e concentrado, seguramente por sua acidez vibrante, que traz vivacidade o todo conjunto. Álcool 14%. EM

AD 88 pontos
VINHEDOS DO MONTE AGUDO CHARDONNAY 2013
Vinícola Monte Agudo, São Joaquim, Brasil (R$ 60). 100% Chardonnay com estágio de cinco meses em barricas de carvalho. Mostra frutas tropicais e de caroço maduras, notas florais e de especiarias doces, além de toques tostados. No palato, é frutado, suculento, tem bom volume, acidez refrescante, certa cremosidade e final vibrante e persistente, confirmando o nariz. Álcool 13%. EM


Curiosidades Bolshoi vinhedo Altitude Catarinense Wandér Weege balé

Artigo publicado nesta revista

Revista ADEGA 115 · Maio/2015 · Syrah

Do Rhône, para a Austrália e o mundo / Saiba tudo sobre a uva de duas grafias e muitas histórias / Seleção especial de rótulos e estilos

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