Caixa de harmonização

Saiba quais os vinhos essenciais para se ter em casa e harmonizar com as mais diversas receitas

Carlos Cordeiro - Cwp em 2 de Dezembro de 2010 às 14:47

Para nossa sorte, estamos vivendo uma explosão na diversidade enogastronômica no Brasil nos últimos anos. A oferta de rótulos de vinhos no mercado e o acesso a produtos gastronômicos - que antes só estavam à disposição daqueles que frequentavam os mercados europeus - abrem um amplo espectro de opções e, claro, novos prazeres aos consumidores.
Por outro lado, essa diversidade torna as escolhas cada vez mais complexas. Hoje é possível encontrar o Sauternes perfeito para acompanhar o foie gras recém chegado ao seu mercado favorito ou aquele Pauillac 2000 que transforma a sua receita de cordeiro assado em algo inigualável.

Sendo assim, a busca pela harmonização perfeita é um prazer amplo, que se desenvolve em várias etapas, assim como as diversas nuances dos vinhos mais complexos. Ela exige algum tempo de estudo, momentos revirando os rótulos disponíveis no mercado e, principalmente, muita disposição para experimentar. Afinal, gosto não se discute.
Mas por onde começar? Como estar preparado para diversas ocasiões e desafios? Aqui vamos sugerir uma caixa de vinhos (doze unidades). Ela pode ser suficiente para cobrir a grande maioria das possibilidades mais comuns que se apresentam para o consumidor médio. Evidentemente, ficarão de fora vinhos maravilhosos e combinações sensacionais para diversos gostos, e mesmo aqueles vinhos que compõem a caixa podem se apresentar de formas, origens e safras tão diversas que seria impossível cobrir todas as variáveis.
Contudo, a proposta aqui é mostrar por onde começar. Ainda assim, são apresentadas algumas alternativas para cada um dos vinhos de forma a facilitar a adequação ao perfil comportamental (aventureiro ou conservador), econômico e de paladar do leitor. Mais do que uma lista de regras de harmonização, pretende-se, aqui, ser mais prático, mais direto.

Primeiro vinho da caixa - Espumante Seco
Nenhuma caixa de vinhos que se preze ficaria completa sem, ao menos, um espumante. O vinho da celebração se senta bem à mesa. Os espumantes vão bem como aperitivos, acompanhando entradas leves, pratos delicados e sobremesas - no caso dos Demi-Sec ou doces.
Mas, se a proposta é ser prático, na hora de montar sua caixa de vinhos opte por um Champagne clássico não safrado (vintage). Ou, se você gosta de algo também sofisticado, mas um pouco diferente e dinheiro não é problema, experimente um Franciacorta. Para os aventureiros de bolsos médios, as sugestões são uma Cava ou uma versão neozelandesa. Finalmente, para os nacionalistas, nossos espumantes fazem bonito.

Os vinhos sugeridos são, em sua maioria, produzidos pelo método tradicional e, ainda que utilizem uma variedade de uvas em sua elaboração, compartilham de algumas características básicas. São vinhos refrescantes, com alto nível de acidez, com aromas oscilando entre as frutas cítricas, maçãs, peras e, em alguns casos, frutas tropicais, como abacaxi. O método tradicional adiciona o célebre brioche tostado, pão quente e amêndoas. E variam em complexidade e elegância.

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Espumantes secos são ideais para acompanhar caviar

Qualquer que seja a sua opção (Champagne, Franciacorta, Cava etc), além de serem bebidos desacompanhados, como aperitivo, eles acompanham perfeitamente - sempre em preparações simples - ostras, vieiras, lagostas, frutos do mar em geral (inclusive com massas sem molho vermelho), sushi, salmão defumado e caviar.

Segundo vinho da caixa - Riesling
Felizmente, os dias dos Riesling de garrafa azul estão superados e o estigma deixado por eles esvaece. Hoje, o Riesling pode ocupar o lugar que merece. Branco preferido de oito em cada 10 experts, ele ainda não conquistou o grande público, mas sua versatilidade para acompanhar comidas e a diversidade de interpretações, desde os ultra secos até os untuosos doces, garantem-lhe um lugar na sua caixa.
Se você ainda não se deixou arrebatar por um Riesling Kabinett ou Spätlese do Mosel, faça-se esse favor. Tudo o que precisa fazer é dar o primeiro gole. O Riesling exige algum cuidado na hora da compra justamente pela diversidade de versões. Podemos dividi-los em dois grandes grupos: os "alemães" (que incluem, também, os austríacos) e os "franceses" (neste grupo está a maioria dos Riesling produzidos no mundo, como os australianos, neozelandeses, californianos e nova-iorquinos).

Enquanto os "franceses" são, em sua grande maioria, secos (exceção aos Vendange Tardive e Selection des Grains Nobles), os "alemães" se apresentam em uma ampla gama de percentuais de açúcar residual, variando desde os Trocken até os Trockenbeerenauslese. Além disso, os "alemães" tendem a ser mais leves, menos alcoólicos, mas com uma acidez capaz de equilibrar perfeitamente os demais fatores, ao passo que os "franceses" tendem a apresentar fruta mais madura.
No perfil de aromas e sabores, frutas como damasco, pêssego, nectarina e cítricas (tangerina, lima) quase sempre podem ser encontradas em ambas as versões. No caso específico dos "alemães" alemães, ou seja, daqueles originários, principalmente, do Mosel e do Rheingau, o petróleo e outras mineralidades são marcantes.

Rieslings secos podem combinar com peixes, frutos do mar, aves, porco, vitelo, queijos salgados e embutidos

Então, o que vai para a caixa? Alsácia para os consumidores mais clássicos; Mosel off-dry (Kabinett ou Spätlese) para os versáteis (ambos a um custo médio/ alto); e Austrália (Adelaide Hills, Eden Valley ou Clare Valley são opções) para os aventureiros. Infelizmente, não há muitas opções de Riesling bons e baratos.
Quem optar pelos alemães off-dry estará adicionando, à já ampla lista de harmonizações possíveis, pratos apimentados da cozinha tailandesa, por exemplo, ou que contenham elementos adocicados ou agridoces, ou seja, peixes com molhos de fruta, pato/porco com tamarindo ou laranja, entre outros.
Para os Riesling, a acidez é componente fundamental. Fazem parte das harmonizações possíveis com as versões secas e off-dry, peixes e frutos do mar, aves, porco, presuntos, vitelo e até queijos salgados (gorgonzola) e embutidos, cujo sal é contrabalanceado perfeitamente. Além do churrasco e da feijoada, faltou alguma coisa? Tenha em mente que os "franceses", como são mais alcoólicos, estão melhor preparados para encarar pratos um pouco mais consistentes.

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Terceiro vinho da caixa - Sauvignon Blanc
Apesar de sua origem "selvagem", e quem já viu uma de suas videiras sabe a que nos referimos, o Sauvignon Blanc está entre os mais amistosos dos vinhos, quase humilde. Fácil de agradar, é refrescante, perfeito para iniciantes, para o clima brasileiro e para o dia-a-dia. É um vinho que não se cansa de beber. Isso não faz dele um vinho simples ou ordinário, tanto que recebe honras em regiões nobres, como o Vale do Loire e Bordeaux.
O Sauvignon Blanc também tem suas especificidades. Estilisticamente, pode tender mais para o lado vegetal (usualmente o caso dos representantes do Loire), quando se destacam aromas e sabores que remetem ao verde, como grama, talo/ haste, aspargos, azeitonas e pimentões verde, alcaparras, chá verde e erva doce. Ou ele pode ir para o lado mais frutado (característica mais comum nos representantes do Novo Mundo), quando se destacarão os aromas de pomelo, maracujá, melão e frutas cítricas, como limão e lima.

Sauvignon Blanc permite que os sabores dos pratos brilhem

Os vinhos do Loire, apesar dessa característica "verde", são mais complexos e, evidentemente, também oferecem quase a mesma gama de aromas de frutas e ainda adicionam uma mineralidade característica, muitas vezes descrita como semelhante à pólvora ou pedra de isqueiro. O Sauvignon Blanc de Bordeaux (mais especificamente Graves) usualmente aparece em blends com a Sémillon, combinação reproduzida em outros lugares do mundo.
Para a caixa do tradicionalista, vai um vinho do Loire, um Sancerre ou um Pouilly-Fumé. Para o vanguardista, um neozelandês (Marlborough, se quiser manter um pé no Velho Mundo, e Hawks Bay para se refrescar). E, para o iniciante e aqueles que não querem gastar tanto, os chilenos são ótima opção, sobretudo de Casablanca e Limarí.

Sauvignon Blanc pode acompanhar uma diversidade de saladas

Uma das razões pela qual o Sauvignon Blanc é um vinho amigo da comida é o fato de permitir que os sabores puros e essenciais dos pratos brilhem, e isso faz dele também uma estrela. Essa garrafa possibilitará encarar uma diversidade de saladas, pratos vegetarianos, vinagretes, frutos do mar (mesmo em risotos ou massas), peixes em preparações cítricas e/ou com ervas, molho pesto, o clássico queijo de cabra, mas, também, mussarela de búfala, ricota e feta (usuais em saladas). E, se você tomou o seu Riesling com comida tailandesa e se esqueceu de repô-lo, é a vez do Sauvignon Blanc encarar o desafio dos condimentos (não adocicados) e pimentas. Ele não vai fazer feio.

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Quarto vinho da caixa - Chardonnay
O Chardonnay quase pagou um preço muito alto pelo seu sucesso. Há poucos anos, quando se pensava em vinho branco, só havia uma uva em mente: Chardonnay. Seu sucesso foi tal que praticamente todos os países produtores de vinho produzem varietais desta casta. Com isso, evidentemente, ficou muito fácil topar com um representante de baixa qualidade.
Outro problema que o Chardonnay enfrentou foi o excesso de madeira ao qual foi submetido no Novo Mundo, sobretudo na Califórnia e Austrália. Por vezes, tínhamos a sensação de estarmos lambendo um barril de carvalho. Felizmente, a qualidade e o bom senso vêm prevalecendo.

Também podemos classificar os Chardonnay em dois grandes grupos: amadeirados e sem madeira (ou com passagem por carvalho antigo, sem os mesmos efeitos no sabor). Os maiores representantes desses dois grupos vêm da mesma região, a Borgonha. Os primeiros alcançam a condição suprema na Côte de Beaune (Montrachet, Meursault, Corton-Charlemagne) e o segundo grupo em Chablis.
Os Chardonnays sem madeira apresentam acidez, refrescância, sabores a maçãs, peras, cítricos, como limão, pomelo e tangerina, e tropicais, como melão e maracujá. Os representantes do Velho Mundo, como os Chablis, ainda carregam uma mineralidade a calcário indistinta. Porém, para a nossa caixa, já temos opções com perfil semelhante de acidez e frutas, portanto a escolha aqui será pelos amadeirados, que abrirão opção para pratos e molhos mais elaborados.

Chardonnays combinam com diversos pratos com molhos ricos, com manteiga, creme e queijos

No grupo selecionado estão incluídos os vinhos que normalmente passam por fermentação malolática e, usualmente durante a fermentação alcoólica, ficam "sur lie", passando pelo processo de batonnage. Enquanto o primeiro processo reduz a acidez, transformando o ácido málico em ácido lático; o segundo, no caso do Chardonnay, empresta sabor torrado, de amêndoas. Os borgonheses clássicos são vinhos encorpados, complexos e com excelente capacidade de envelhecimento.
Sendo assim, para a caixa: Montrachet ou Corton-Charlemagne para os abastados. Para os mortais, podem ser encontrados excepcionais Meursault acessíveis, mas ainda para ocasiões especiais. As alternativas interessantes são os australianos de Hunter Valley, Margaret River ou Adelaide Hills, ou os californianos de Russian River e Anderson Valley, ainda em faixa de preço médio/alto. As opções mais em conta vêm do Chile e Argentina, mas requerem pesquisa e atenção.

Em todas as alternativas, algumas características serão comuns, como a textura untuosa, sabor amanteigado, quase caramelado, frutas maduras, tanto pêssegos e damascos como abacaxi, maça e pera. Nos vinhos do Velho Mundo, o caráter mineral é mais presente. Eles fazem frente a frutos do mar, aves (frango, peru e codorna), lombo de porco, vitelo e coelho, todos em preparações com molhos ricos, com uso de manteiga, cremes e queijos. Preparações com amido, como risotos, massas e polenta, fazem excelente combinação com os Chardonnay amadeirados, que ainda combinam bem com preparações levemente defumadas, pratos com oleaginosas, como castanhas e amêndoas, e temperos com caráter adocicado, como canela, gengibre e noz moscada.

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Quinto vinho da caixa - Branco aromático
Nem todo vinho precisa ter a versatilidade de um Riesling ou Sauvignon Blanc. Esse é o caso dos brancos aromáticos. Não são vinhos fáceis de serem harmonizados, mas encontram alguns pares que se dão bem apenas com eles. Evidentemente, há diferenças significativas entre os vinhos aromáticos para serem lançados assim, em uma única categoria. Mas, na montagem da nossa caixa, se você dispuser de um deles estará bem assistido. Nessa categoria, as opções ficam entre os Gewürztraminer alsacianos e os Viognier do Rhône para clássicos a preços mais elevados, e os Torrontés argentinos, bem mais acessíveis.
As características que os unem são aromas e sabores florais marcantes, as frutas maduras, como pêssego, damasco, lichia, maçã, pera, tangerina, laranja e casca de laranja, e temperos doces, como noz moscada, canela e anis. Diferentemente do que se pode imaginar, os aromáticos não enfrentam muito bem as pimentas, porque são produzidos com uvas de colheita tardia e, portanto, encorpados e com níveis alcoólicos próximos dos 13%.

Entre as opções de brancos aromáticos estão os Torrontés argentinos

Brancos aromáticos estão entre os pouquíssimos vinhos que podem ser consumidos acompanhados de preparações com ovos, como tortillas

Por outro lado, acompanham bem pratos condimentados com curry, canela, gengibre etc. Estão entre os pouquíssimos vinhos que podem ser consumidos acompanhados de preparações com ovos, como uma quiche lorraine, omeletes, frittatas e tortillas. O Gewürztraminer alsaciano encantará acompanhando a culinária alemã, especialmente salsichas, costela de porco e vitelo, sempre com chucrute. Os aromáticos também se harmonizam bem com queijos fortes e envelhecidos.

Sexto vinho da caixa - Pinot Noir
Se por um lado o Pinot Noir é extremamente exigente em relação ao clima e ao processo de vinificação, uma vez à mesa, torna-se bem mais amistoso. Os taninos macios, a ampla e sofisticada acidez e os sabores e aromas, tanto frutados quanto terrosos, harmonizam-se muito bem com diversas preparações.
Tentar descrever em poucas linhas a imensidão de sensações e complexidade de um grande vinho da Borgonha seria pretensão exagerada, portanto, a lista a seguir condensa as percepções comuns entre os diversos exemplares pelo mundo: frutas (cerejas e framboesas), floral (violetas), terroso (cogumelos e trufas). Aquela sensação de se estar caminhando em um bosque úmido e o que se costuma chamar de "animal" são recorrentes nos bons rótulos, sobretudo do Velho Mundo.

O rol de harmonizações começa com peixes, como salmão e atum grelhados, passa pelas mundanas pizzas e sanduíches, massas (inclusive com molho de tomates), risotos com cogumelos e/ou trufas, frangos, perus e patos (em praticamente qualquer preparação ou molho), miúdos, como fígado e rim, chegando às mais nobres elaborações de aves de caça, como codornas e faisão, e outras, como veado, coelho selvagem e javali. Ainda vão bem com grande quantidade de queijos (menos os azuis) e embutidos.

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Os Pinots casam com risotos com cogumelos e/ou trufas, frangos, perus e patos (em quase qualquer preparação ou molho)

Na caixa de quem não se preocupa com dinheiro ou de quem é extremamente exigente, vai um Borgonha, claro. É preciso atenção tanto no produtor quanto na safra, já que há grandes variações de qualidade mesmo em áreas excepcionais como Vosne-Romanée, Vougeot, Chambolle Musigny e Gevrey-Chambertin. Excelente opção no estilo borgonhês são os vinhos de Marlborough e Central Otago, na Nova Zelândia. No lado mais frutado, a região de Willamette, no Oregon, mais especificamente Yanhill e Red Hill, são excelentes, mas não muito baratos e nem fáceis de serem achados no Brasil. Os Pinot Noir mais acessíveis e com qualidade crescente vêm do Chile, mais especificamente das regiões vizinhas de San Antonio e Casablanca.

Chiantis têm uso muito mais versátil do que somente acompanhando pizzas e massas

Sétimo vinho da caixa - Sangiovese
Os Chiantis são vinhos bem mais versáteis do que seu uso habitual nas cantinas acompanhando pizzas e massas com molho de tomate. Vinhos de médio corpo para encorpados (sobretudo os Brunellos) com ampla acidez e taninos balanceados são características que abrem variadas opções de acompanhamentos.
Aromas e sabores de frutas vermelhas, como cerejas e framboesas (sobretudo nos Chiantis), e pretas, como ameixa seca (principalmente nos Brunellos), trufas, cogumelos, couro, café e temperos, como tomilho e manjerona, e, ainda, um certo "empoeirado" nos Brunellos, são marcas comuns. O espectro de harmonizações contempla linguiças e embutidos, como salames e copas, frango assado, outras carnes brancas, como lombo de porco, vitelo, preparações com molhos de frutas, ervas e vegetais, e até a clássica bisteca fiorentina.
Apesar de tentativas de desenvolver a Sangiovese com algum sucesso fora da Toscana, na caixa vai um Brunello di Montalcino para os exigentes. Para os demais, um Chianti clássico.

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Oitavo vinho da caixa - GSM
Grenache, Syrah e Mourvèdre (GSM), a clássica combinação de uvas do sul do Vale do Rhône está ganhando o mundo. Além de regiões próximas, como o Languedoc-Roussillon, a Austrália vem produzindo exemplares de excelente nível, assim como Central Coast - Santa Barbara, na Califórnia.
As frutas vermelhas maduras quase cozidas da Grenache, combinadas com a acidez, os taninos robustos e as frutas negras maduras da Mourvèdre e, ainda, a estrutura, o perfume e a complexidade da Syrah fazem desse blend um vinho multifacetado. Voluptuoso, redondo, com taninos firmes e harmoniosos e um longo final. Aromas e sabores que abrangem quase todo o espectro das frutas de vinhos tintos, tanto vermelhas quanto negras, frescas, maduras ou cozidas em geléias ou compotas, muitas vezes com toques florais (a cravos e lírios), e quase sempre com forte caráter herbáceo (garrigue) e terroso, com notas de couro, celeiro e, mesmo, de carnes e bacon.
Os GSM atingem seu ponto mais alto nos Châteauneuf-du-Pape (onde é possível a adição de outras nove uvas) e nas regiões vizinhas de Gigondas (que podem ser bebidos um pouco mais jovens) e Vacquerays. A harmonização que vem de imediato à cabeça é com carne de cordeiro, em qualquer preparação. Mas não ficam atrás as linguiças, tanto grelhadas quanto defumadas, carnes de caça e coelhos.
Para a caixa vão: Châteauneuf-du-Pape para os conservadores, Clare Valley da Austrália para os aventureiros e Gigondas ou até mesmo um Côte du Rhône Village bem escolhido para quem quer se iniciar nesse blend clássico.

Nono vinho da caixa - Malbec
A menção à uva Malbec nos remete imediatamente à Argentina. Os melhores Malbecs argentinos conseguem a proeza de harmonizar as frutas do Novo Mundo com a acidez e os taninos firmes e balanceados do Velho Mundo, constituindo- se, provavelmente, na razão pela qual têm visto sua fama crescer mundo afora. Suas frutas tendem a blackberries, amoras e ameixas pretas, que são complementadas por aromas de café, ervas, carvalho e trufas.
Fora da Argentina, os melhores Malbecs vêm de seu berço, a região de Cahors. Lá, os vinhos são produzidos no estilo bordalês e possuem caráter frutado concentrado (trata-se de uma região quente que fica mais para o interior do continente) com taninos firmes e potentes que se beneficiam bastante de algum tempo de guarda. Além das frutas negras, seus aromas tendem para ervas secas, chocolate, trufas e couro.

Ao pensar em Malbec, logo pensamos em churrasco

Um carré de cordeiro mal passado em crosta de ervas é companhia perfeita para um Malbec

Não há como pensar no Malbec argentino sem associá-lo imediatamente ao churrasco. Se quiser variar, acompanhe-o com pato confit, cogumelos ou um belo carré de cordeiro mal passado em crosta de ervas. Com o Cahors, não há dúvida: cassoulet. Sugerimos o Novo Mundo (Argentina) para os clássicos e o Velho Mundo (Cahors) para os aventureiros. Os primeiros estão disponíveis para todos os bolsos.

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Décimo vinho da caixa - Syrah
Apesar de a Syrah ser a uva utilizada em vinhos clássicos do norte do Vale do Rhône, como os Hermitage e os Côte Rotie, sua popularidade no Brasil explodiu com a chegada dos potentes australianos. Enquanto os primeiros tendem para o lado mais terroso, com aromas a couro, bacon, cogumelos, pimenta moída, molho de soja e mesmo violetas; os australianos possuem um caráter mais frutado e de geléia de frutas, sobressaindo as negras, como blackberry, black cherry, amoras, cassis e ameixas. Possuem, também, outro traço característico, o aroma de eucaliptos e/ou menta marcantes.
Os Syrah são vinhos encorpados, geralmente com nível alcoólico acima de 13% e taninos robustos. Acompanham bem o churrasco e grelhados em geral, inclusive frango, porco e vegetais. Faz frente, também, a crostas de pimenta e ervas, steak au poivre e molhos com frutas, como chutneys. Além de pratos clássicos como o cassoulet francês, o chili americano (texmex) e a moussaka grega, bate um bolão com a feijoada. Para a caixa: Hermitage, Côte Rotie ou Barossa Valley.

Décimo primeiro vinho da caixa - Cabernet Sauvignon
O Cabernet Sauvignon, dito "Rei dos Vinhos", reina em quase todo o mundo vitivinícola, de Bordeaux ao Chile, da Nova Zelândia à Califórnia, do Piemonte à Austrália. Em muitos desses locais, aparece compondo o clássico blend bordalês com Merlot e Cabernet Franc.
Para fins de harmonização, não faremos distinção significativa entre os monovarietais e os blends dominados por Cabernet Sauvignon. No Médoc, os vinhos são extremamente complexos com aromas de cassis, blackberries, chocolate, cacau, chá preto, cedro, tabaco, caixa de charutos, grafite e terra empoeirada. No Novo Mundo, as frutas ganham relevo especial.

Ele é um vinho encorpado, com nível alcoólico médio/alto-alto e taninos robustos. Isso faz dele um vinho não tão versátil como costumamos imaginar. Pratos muito delicados podem ser massacrados pelo seu corpo, pratos apimentados também requerem cuidados em função do álcool. O Cabernet Sauvignon clama por proteínas e gordura. Ambas administram muito bem os taninos. Essa é uma das razões pela qual o cordeiro é tão apreciado em Bordeaux. Ele combina a proteína e a gordura construindo uma harmonização perfeita. A textura "torrada" que os grelhados criam também é ótima liga para a harmonização pelo caráter amargo que adiciona às carnes.

Cabernet Sauvignon clama por proteínas e gordura

As carnes podem ser, além do cordeiro (paleta, pernil, costeleta etc), de gado (filé mignon, picanha, entrecot e costela), de vitelo (sobretudo a costeleta, mas prefira os vinhos não tão encorpados), de avestruz e de búfalo. Produtos amargos, como mostardas, radicchio, rúcula, endívias e escarola e oleaginosas, compõem bem as preparações das proteínas. Finalmente, ervas e cogumelos podem e devem ser incluídos
Na caixa vai um Pauillac para os conservadores, um Oakville (Napa Valley) para os destemidos e um chileno do Maipo ou um argentino do Vale de Uco para boas relações custo/benefício.

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Décimo segundo vinho da caixa - Porto
Vamos encerrar a caixa adoçando a boca com um Vinho do Porto. Um clássico entre os clássicos. O Porto é versátil quanto a seu uso. Pode ser bebido como aperitivo, antes da refeição. Pode ser usado reduzido na preparação de um molho. Pode ser servido após o café, fazendo as vezes de um digestivo. Como a proposta é de harmonização, nesse caso, sua versatilidade se reduz. Mas é insubstituível. Três opções para a caixa: Tawny para acompanhar sobremesas de chocolate amargo e meio amargo e doces com amêndoas, castanhas e avelãs; Ruby para escoltar sobremesas com frutas vermelhas ou negras (as chamadas berries); e Vintage para harmonizar um prato de queijos azuis no qual não pode faltar o clássico Stilton.

Vinhos do Porto podem servir de aperitivo ou digestivo, podem ser usados reduzidos em molhos, e são insubstituíveis nas harmonizações

Para combinar com chocolate meio amargo, prefira o Tawny

Fora da caixa?
Pedimos perdão a Baco - e aos leitores - pela heresia de deixar fora dessa lista Barolos, Barbarescos, Dolcettos, Super Toscanos, vinhos da Campanha, Vêneto, Sicília, Douro, Alentejo, Dão, Toro, Ribeira del Duero, Rioja, Navarra, Priorato, Zinfandel, gregos, húngaros... Ao menos, resta o consolo que ainda temos muito para harmonizar.
Tenha sempre em mente que a harmonização perfeita de hoje pode não ser a de amanhã. São variáveis demais agindo: safras, produtores, a forma como foram conservados, temperos utilizados na preparação, métodos de cocção e mesmo, e principalmente, a ocasião, a companhia, o clima e o seu estado de espírito. Por todas essas razões vai a última recomendação: continue experimentando.


Escola do vinho

Artigo publicado nesta revista

Revista ADEGA 62 · Dezembro/2010 · Harmonização perfeita

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