Colheita com suor e pompa

Pela primeira vez grupo de brasileiros é convidado a participar da colheita em Mouton Rothschild. ADEGA esteve lá e conta detalhes dos bastidores da vindima em um dos mais célebres Châteaux do mundo

Christian Burgos em 11 de Outubro de 2011 às 09:09

Bordeaux exerce fascínio sobre os enófilos. Visitá-la é como ir à Meca, peregrinação que deve ser feita ao menos uma vez na vida. A cidade encanta com fascinante arquitetura clássica e neoclássica intocadas e integradas ao uso do espaço urbano; sobretudo às margens do rio Garonne. Patrimônio Mundial pela UNESCO, é uma prova da possibilidade de recuperação de centros urbanos.

Convidados foram recebidos com ostras no restaurante Kykouyoux

No caso de Bordeaux, esse processo começa em meados da década de 1990 sob a liderança de Alain Juppé, hoje Ministro das Relações Exteriores da França, na época prefeito da cidade. A limpeza das negras fachadas dos edifícios históricos, após décadas de abandono, revelou suas tonalidades originais e a riqueza de sua arquitetura. A transformação motivou a adesão da sociedade que passou a restaurar suas propriedades e iluminá-las. Belas praças e jardins foram implantados às margens do rio e um trem moderno passou a integrar a extensão urbana do Garonne, cujas propriedades desvalorizadas voltaram a ser cobiçadas pela elite da região.

Neste ano, pela primeira vez, um grupo de brasileiros foi convidado a participar do início da colheita no Château Mouton Rothschild. O pequeno e eclético grupo era formado por destacados e reconhecidos sommeliers, restauranters e lojistas de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília, além deste representante de ADEGA.

Logo após a recepção, o grupo foi levado para um passeio de escuna em Arcachon com parada no inusitado restaurante Kykouyoux próximo à Cap- -Ferret, onde uma bucólica mesa com ostras frescas acompanhadas por Mouton Cadet Sauvignon Blanc e Rosé estava posta para que apreciássemos o belíssimo dia e fizéssemos o primeiro dos muitos brindes da viagem.

Mesmo os convidados deveriam terminar suas fileiras de vinhedos

A paisagem cinematográfica do sol se pondo à popa da embarcação e a lua nascendo sobre um veleiro diretamente à proa era incansavelmente registrada pela "fotógrafa oficial da viagem", Marlene Kratz, que disse: "Estou muito entusiasmada. Por anos trabalhando na então maior importadora do Brasil, tentei conseguir, sem sucesso, que importantes clientes participassem da colheita em Mouton Rothschild. Agora eu mesmo farei isso amanhã".

fotos: Marlene Kratz
No primeiro dia, durante o passeio de escuna pelo rio no fim da tarde, de uma cena cinematográfica. De um lado o sol poente e de outro a lua

Na volta do barco, o grupo já estava completamente integrado. O exímio sommelier e palmeirense fanático Manoel Beato puxava canções brasileiras e acabou criando o que se tornou o grito de guerra dos brasileiros para assustar o pequeno grupo de búlgaros que viriam a compartilhar espaço conosco no dia seguinte: "Cadê Mouton, Mouton Cadet".

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Dia D
Na manhã seguinte, nosso grito de guerra já era entoado aquecendo o grupo para a colheita. Chegamos e vimos uma formação de carrinhos alinhados nas fileiras do mítico vinhedo. Após instruções ao grupo, que agora acolhia ingleses, irlandeses, búlgaros, alemães, austríacos e um americano, foram oferecidas luvas, alicates de poda e "dada" uma fileira com carrinho para cada pessoa. Em cada carrinho havia duas caixas para acondicionar uvas.

"Tudo muito simples, vá andando e puxando o carrinho consigo à medida que colhe. Ao encher a primeira caixa, coloque-a por baixo e inverta o lado da caixa de cima para que não esmague as uvas". Olhei para o lado e vimos uma van chegando com pão, suco, taças e garrafas de Mouton Cadet Rosé.

Pensei comigo: "Belo dia para um piquenique nos vinhedos de Mouton Rothschild". O tempo ajudava, não chovia e o sol não estava muito forte. Foi aí que cometi meu primeiro engano do dia, recusei as luvas por crer que era coisa para mulher (teria a tarde para me arrepender enquanto esfregava a ponta dos dedos tentando retirar o púrpura das mãos antes do jantar de gala).

Todos se puseram a colher e percebemos que as pequenas videiras colocavam os cachos a apenas poucos centímetros do solo e, com isso, deixavam duas alternativas: encurvar-se ou fazer agachamento. O momento, no entanto, era tão especial que todos se colocaram a trabalhar com grande entusiasmo. Conclui as duas caixas, levantei, olhei para a mesa do "piquenique" e, orgulhoso, me dirigi ao trator de recebimento de uvas puxando meu carrinho pronto para desfrutar de uma taça de rosé enquanto assistiria aos outros que ainda trabalhavam.

Esse foi o meu segundo engano. Ao descarregar, fui informado que deveríamos pegar outras duas caixas vazias para encher, e assim sucessivamente até terminarmos nossas fileiras. Como bom brasileiro, não desisto nunca. Mãos à obra, atenção para pegar apenas os cachos de baixo, deixando os pequenos mais acima, pois eles não atingem a maturidade adequada para o ícone Mouton Rothschild. Atenção também para eliminar os bagos que não estejam em perfeito estado.

A baronesa e sua comitiva almoçam no mesmo salão que os catadores

Fim de linha, Beato e eu "batemos" as demais nacionalidades. Orgulho brasileiro estabelecido e demonstração do porquê de sermos o celeiro do mundo, logo seguida pela constatação de que éramos solicitados a ajudar outros a concluírem suas fileiras. Afinal, o bom brasileiro também tem que mostrar que é solidário.

Trabalho concluído, todas aquelas pessoas acostumadas a maratonas em restaurantes, lojas e escritórios esboçavam o sorriso de vencedores para a foto do grupo com direito a grito de guerra da equipe brasileira puxado por Wellington Melo: "Cadê Mouton, Mouton Cadet", sob o olhar espantado dos búlgaros, sorriso simpático dos austríacos e ingleses, e semiadesão dos irlandeses que batiam palmas.

A safra 2011
Que tal umas baguetes e taças de vinho para celebrar? Nesse momento, Philippe Dhalluin, enólogo-chefe do Château, veio nos encontrar no vinhedo e me relatou ser ainda cedo para uma conclusão sobre a safra 2011. A colheita ainda estava no início. De qualquer forma, podia apontar que será boa, caracterizada por temperaturas mais amenas, vinha um pouco atrasada em relação ao padrão, mas que, nos primeiros 15 dias de agosto, muito calor e pouca chuva, aceleraram a maturação e trouxeram a safra para um ciclo adiantado em relação aos anos anteriores. Se os dias continuassem ensolarados e sem chuvas, teríamos a certeza de uma boa safra.

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fotos: divulgação
Cidade de Bordeaux passou por intensa reformulação na década de 1990

Réfectoire des Vendanges
Saciados física e espiritualmente, fomos levados ao refeitório dos funcionários para almoçar. À porta do grande galpão, os catadores podiam escolher entre uma garrafinha de Bordeaux genérico ou refrigerante, mas, sem dúvida, a preferência era pelo vinho. Em um espaço com uns 80 metros de comprimento havia três fileiras de mesas enormes, cada uma com mais de 15 metros. Na da esquerda, ficavam os funcionários do Château, na do centro, os trabalhadores que vinham especificamente para a colheita e, na da direita, os convidados.

Na fileira do centro misturavam-se jovens e senhores de ambos os sexos, muitos dos velhinhos com a pele branca corada pelo sol da manhã nos vinhedos. São pessoas que retornam quase todos os anos pelo dinheiro extra, pelo amor ao vinho, mas também pelo privilégio de almoçar com a Baronesa Philippine de Rothschild que, para nossa surpresa, entrou acompanhada do corpo gerencial do Château, incluindo seu filho Julien, seu marido e seu ex-marido, pai de Philippe.

A baronesa e a comitiva se acomodam em uma mesa como as outras, cuja única diferença é estar posicionada em frente e perpendicular às demais. Assim que ela chega, começa o serviço, que vem acompanhar a baguete e a deliciosa manteiga que já estava sobre o prato de cada um. Todos são servidos com frango e batata frita.

Após o frango e a batata frita (que repeti algumas vezes), cada pessoa recebeu uma porção de queijo e, quando dava por encerrada a refeição, um dos trabalhadores se aproximou e me entregou uma garrafa sem rótulo. Perguntei o que era e ele respondeu: "Um suquinho". Já satisfeito, mas não querendo fazer desfeita, servi uma talagada no mesmo copo de vidro em que já tomara água e vinho rosé. Ao aproximar o copo do nariz (defeito de quem degusta muito vinho e acha que até suco deve ser cheirado), percebi que aquele "suquinho" era algo especial. Percebendo minha reação, nossa turma começou a passar a garrafa e se servir.

Inesquecível! O aroma que saía da taça era de um vinho de estirpe e já evoluído por anos. A quantidade de resíduos na lateral da garrafa confirmava o diagnóstico de que o vinho esperou por aquele momento deitado por longos anos numa adega. Cor evoluída, aromas terciários de camurça substituindo a fruta silvestre, belíssimo equilíbrio em boca com taninos elegantes e boa acidez, além de um retrogosto delicioso. O que era? Mouton? Possível. Mas de que safra? Servido naquelas condições? Olhei para a mesa da Baronesa e percebi que outras garrafas do mesmo tipo estavam à disposição da família. O funcionário que a trouxe aproximou-se de novo e perguntei que vinho era. Sorrindo, ele disse tratar-se da "lie" do emblemático Mouton Rothschild 1982 (o fundo da barrica que concentra borra e é engarrafado para consumo familiar).

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Cada um fica encarregado de um carrinho para colher uma fileira inteira de uvas

Do suor ao terno
Depois de tudo isso, o dia ainda não havia acabado. À noite teríamos o jantar de gala no Château. De volta ao hotel, despimos o visual de trabalhador rural, tiramos as manchas dos dedos e vestimos os trajes previamente recomendados: terno escuro, camisa e gravata para os homens; vestido preto para as mulheres.

Refeição era igual para todos, com frango e batata frita. No final, "às cegas" foi servido o "lie" do Mouton Rothschild 1982 para os convidados em copo de vidro

O restauranter Carlos Martignago, com seu treinamento das forças especiais, era o mais animado do grupo naquele momento em que a disciplina e a coordenação do tempo de chegada era militar, afinal os herdeiros do Mouton Rothschild - Julien e Philippe Rothschild - nos aguardariam à porta para receber um a um na fila de cumprimentos e nos acompanhar ao jantar. Ambos estavam muito bem preparados sobre cada um dos convidados - em especial aqueles que sentariam às suas mesas.

Dentro do Château, obras de arte que poderiam estar em museus povoam o edifício - que, de fato, serve de residência para os membros da família quando estão em Bordeaux. Tivemos a oportunidade de entrevistar Philippe de Rothschild durante sua passagem pelo Brasil no ano passado, de forma que a conversa, desta vez, foi mais informal. Philippe estava genuinamente feliz em nos receber e confirmou a importância que o Brasil agora ocupa na estratégia do Château. Cidadão do mundo, exímio jogador de polo e amante dos esportes náuticos, conversamos sobre navegar pelas ilhas de Angra dos Reis e jogar polo no Chile e Argentina.

Herdeiros do cumprimentam os convidados, um a um, na porta do Château antes do jantar de gala

Embalando a conversa, o serviço de vinhos e pratos fluía como um relógio nas mãos de um dedicado e impecável grupo de profissionais do Château. Recebidos com o Champagne da família, abrimos o jantar com Mouton Cadet Branco 2010, que foi seguido de um inebriante Château Clerc Milon 1996 em garrafa magnum, acompanhado por coq au vin. O aroma apontava um vinho em transição da fruta para os aromas terciários, que junto com acidez e elegância de taninos convidavam à meditação. O prato principal "mousseline de pommes de terre" foi regado a um "jovem" e em plena forma Mouton Rothschild 1990 - me pergunto se a juventude era pela qualidade da safra ou influência da garrafa Jéroban. Profundo cassis, frutas negras e bosque, com grande estrutura, taninos polidos e acidez na medida. Voltei ao Clerc Milon que tanto me impressionara e o Mouton o arrebatara com sua força e expressão. Finalizamos a refeição com o Premier Grand Cru Classé, Château Coutet 1997, e Philippe confessou que sua relação emocional com os Sauternes deu- -se quando, iniciando sua experiência profissional em Nova York, sua primeira venda foi uma caixa de Château d'Yquem.

Da sala de jantar é possível observar a imponente sala de barricas
Marlene Kratz

Tudo ocorreu na sala de jantar que, pela arquitetura de seu teto em declive, foi batizada pela família como "tobogã". Sua parede mais alta é marcada por uma lareira encimada por uma enorme moldura de ouro, que, vazia de qualquer retrato, ressaltava a riqueza de seus entalhes. Na parede lateral, grandes janelas de vidro davam vista para a ampla e tão conhecida sala de barricas - um feito de engenharia no período em que foi construída ao permitir a um espaço tão vasto existir sem a presença de colunas. As fileira de barricas do nobre ícone da casa lembravam fileiras de fiéis sentados em reverência ao altar que no fim da sala de barricas exibia garrafas históricas e uma coleção original dos rótulos pintados ano a ano por alguns dos maiores artistas do mundo. Quem será o artista desta safra? Philippe confessa ser de um país que ainda não teve artistas pintando rótulos de Mouton Rothschild, mas, pelo pedido de sugestão de nomes do Brasil, imagino que o rótulo brasileiro ainda está por vir.


Grands Châteaux

Artigo publicado nesta revista

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