Di Modena

Famosa pelas Ferraris, Lamborghinis e Maseratis, a região de Módena merece destaque por sua enogastronomia cheia de tradição

Por Wendy Elago em 5 de Dezembro de 2013 às 00:00

Módena não é o mais óbvio dos destinos de quem viaja para a Itália interessado em vinhos, afinal, a bebida local é o Lambrusco, aquele frisante tinto doce, pouco alcoólico e barato, servido em festas para quem não é exatamente consumidor de vinho, certo? Errado. É bem verdade que esse produto ainda é um dos vinhos mais populares produzidos na Itália e que milhões e milhões de litros são exportados todos os anos para países como Estados Unidos, Inglaterra, Rússia e, é lógico, o Brasil, mas o fato é que ele é muito diferente do “verdadeiro Lambrusco”, um frisante seco e com acidez pungente consumido há séculos na região de Módena, acompanhando queijos e carne de porco.

Localizada no coração da Emilia-Romagna, Módena teria sido fundada pelos etruscos entre os séculos XI e IX a.C. Sua “Piazza Grande” é considerada Patrimônio Mundial pela UNESCO e, além da bela arquitetura – como o Duomo e a Abadia Militar de Nonantola – e dos carros esportivos – lá estão fábricas de Ferrari, Maserati e Lamborghini, por exemplo –, seus atrativos estão ligados à boa mesa, por conta de especialidades locais como o “Aceto Balsamico Tradizionale di Modena”, o “Parmigiano Reggiano”, o “Prosciutto di Modena”, o zampone, o tortellini e os ótimos embutidos. Sem esquecer que a província é tida como o berço do Lambrusco.

LAMBRUSCO

Lambrusco é o nome do vinho e também da uva tinta típica da região, já conhecida e cultivada pelos etruscos e, mais tarde, também pelos romanos, que a valorizavam por conta de sua alta produtividade. O primeiro registro escrito sobre Lambrusco de que se tem notícia está no clássico compêndio “Naturalis Historia”, do historiador e oficial romano Plínio, o Velho, que viveu entre os anos de 23 e 79 d.C

Juventude

O Lambrusco é um vinho para ser bebido jovem, no ano em que é produzido. Por esse motivo, os rótulos, via de regra, sequer trazem a informação de sua safra. No contrarrótulo normalmente se encontram apenas o lote e a tiragem da garrafa.

De fato, a partir da década de 1960, quando foi implementada a pasteurização na produção do Lambrusco, o produto pôde ser estabilizado e, assim, exportado, adquirindo, ainda, um perfil mais doce e mais atraente para mercados emergentes.

Foi justamente esse estilo doce e frisante que tornou o Lambrusco popular no mundo. Entretanto, essa não é a real face desse vinho, e mais, foi esse caráter “bastante doce e bem barato” que, mais tarde, o fez ser mal visto e rejeitado pelos consumidores exigentes.

Atualmente, os produtores sérios lutam para que a imagem do Lambrusco seja revitalizada, para que o mercado conheça-o como frisante seco, de acidez intensa e com boa relação qualidade-preço (e não ordinariamente barato). O “Consorzio Tutela del Lambrusco di Modena” vem implementando regulações mais rigorosas que incluem controle de qualidade, tanto no vinhedo quanto na cantina, modernização do processo de vinificação e atenção especial à marca e às embalagens. Essa “reconstrução” do Lambrusco inclui, ainda, a ideia ousada de abandonar internacionalmente o nome genérico “Lambrusco”, tornando os vinhos conhecidos pelo nome de sua DOP. Por exemplo, ao invés de um frisante Lambrusco Grasparossa di Castelvetro ser chamado de Lambrusco, passaria a ser denominado de Grasparossa. O objetivo é resgatar o conceito de um vinho de terroir. Foi desenvolvida, inclusive, uma taça própria para o serviço do vinho, que tem a haste vermelha, referindo-se à cor da bebida.


No outono, vinhedos de Lambrusco adquirem uma linda cor vermelha

Produção de Lambrusco

Como regra geral, Lambruscos são produzidos pelo método Charmat. As uvas são colhidas manualmente, prensadas suavemente e permanecem por até sete dias em contato com as cascas, seguindo para fermentação por duas semanas em cubas de aço inoxidável. A segunda fermentação se dá em tanques de inox, com temperatura e pressão controladas. Normalmente, em duas semanas são obtidos o teor de álcool e o perlage ideais. Mais recentemente, algumas vinícolas têm utilizado o método tradicional em alguns vinhos de suas linhas, na tentativa de obter melhor longevidade para seu produto.

DOPs de Lambrusco

Existem quatro Denominações de Origem Protegida em Lambrusco

As “Denominaziones di Origine Protetta” (DOP) de Lambrusco são Lambrusco di Sorbara, Lambrusco Salamino di Santa Croce, Lambrusco Grasparossa di Castelvetro e Lambrusco di Modena.

Lambrusco di Sorbara: situada ao norte de Sorbara, ao norte da cidade de Módena, entre os rios Secchia e Panaro, é dominada principalmente por vinhedos da cepa de mesmo nome, reputada como de ótima qualidade, produzindo vinhos elegantes e com bom corpo, característicos por sua coloração rosada, mais clara do que a dos frisantes feitos nas outras DOPs.

Classificação

De acordo com o grau de açúcar, Lambruscos podem ser classificados como Secco, Semisecco, Amabile e Dolce.

Lambrusco Salamino di Santa Croce: os vinhos dessa região, situada ao redor da cidade de Carpi, noroeste da província de Módena, devem conter pelo menos 90% da uva Salamino em seu blend, e têm cor vermelho-rubi intenso, aromas profundos de frutas vermelhas frescas e um paladar mais intenso, com fruta menos polida.

Lambrusco Grasparossa di Castelvetro: a menor das regiões produtoras de Lambrusco está ao sul da cidade de Módena, nos arredores de Castelvetro. Seus frisantes têm como base a cepa Lambrusco Grasparossa, e são marcados por seu caráter mais tânico e cor vermelho-rubi intenso com reflexos violáceos, além da coroa de espuma violeta, apresentando ótimo corpo, acidez vibrante e bom volume de boca.

Lambrusco di Modena: os frisantes produzidos na província de Módena a partir de diferentes castas recebem a denominação de Lambrusco di Modena, a última a ser aprovada pelo “Consorzio Tutela del Lambrusco di Modena”, em 2009.

Além de Lambrusco

O Lambrusco não é o único frisante produzido em Módena. Há aproximadamente uma década, vinhedos da variedade autóctone branca Pignoletto têm cruzado as fronteiras da Bolonha pelas mãos de alguns produtores e dando vinhos brancos frescos, aromáticos e de acidez vibrante.

O ACETO TRADICIONAL

Além das cepas destinadas à produção de vinho, em Módena encontram-se muitos vinhedos de Trebbiano que, ao contrário de Lambrusco, são principalmente usados para a obtenção de outra especialidade da região: o aceto balsâmico. Mais uma vez, o produto que costuma chegar ao Brasil não é o tradicional. Na verdade, o Aceto Balsamico Tradizionale di Modena, cujas origens datam do século XI, é também um produto DOP, regulado pelo “Consortium Producers Antique Acetaie”, que disciplina e fiscaliza todas as etapas de produção do “ouro negro de Módena”.

O Aceto Balsamico Tradizionale di Modena DOP (ABTM) é obtido unicamente a partir de mosto cozido de uvas Trebbiano. O mosto da uva é cozido em temperatura aproximada de 70oC – não pode ferver – até que seu volume seja reduzido a um terço do original. Então, é transferido para um recipiente coberto com tecido, onde permanece fermentando pelo período de um ano e meio a dois anos.

Tradição

Historicamente, cada família produzia seu próprio aceto balsâmico que tinha, inclusive, uso medicinal e já era um artigo valioso. Ainda hoje, muitas famílias modanesas mantêm sua bateria no sótão de casa. A tradição da região é a de que quando uma filha nasce, o pai inicia uma bateria que leva o nome da recém-nascida.

A partir daí, essa base segue para a fase de envelhecimento que se dá em uma série de barris – no mínimo cinco – de madeira de diversos tipos e tamanhos, dispostos em ordem decrescente, chamada “bateria”. O mosto cozido e fermentado é colocado no maior dos barris, o “barril-mãe”. A menos que se esteja começando uma nova bateria, esse barril-mãe já está com aproximadamente metade da capacidade preenchida pela base obtida no ano anterior. Com o aceto madre “pronto”, continua-se o processo de obtenção do balsâmico. O produtor retira em torno de 10% da capacidade do menor – e último – barril da bateria. Esse é o aceto que será consumido ou comercializado. Então, completa-o com conteúdo do segundo barril da bateria, que é completado com conteúdo do terceiro barril e assim por diante, até que o último seja completado com o conteúdo do barril-mãe. Esse é um processo contínuo e a maioria das acetaias – como são chamadas as casas produtoras de balsâmico – passa de geração para geração, por isso, é possível ver baterias com mais de um século de história. Na verdade, para obter a certificação DOP, um aceto balsâmico deve ter passado pelo processo de envelhecimento em barris por, pelo menos, 12 anos (afinatto) ou 25 anos (extra vecchio), e se tornado bastante denso.

O Aceto Balsamico Tradizionale de Modena DOP (ABTM) é obtido unicamente a partir de mosto cozido de uvas Trebbiano

As baterias são sempre mantidas em temperatura ambiente. Isso porque, a variação durante o ano é importantíssima na produção. Durante o inverno, o produto repousa e adquire os aromas e a complexidade da madeira do recipiente onde estiver acondicionado; no verão, ele evapora e se concentra dentro do barril.

Ao final do processo de envelhecimento, cada acetaia leva seu produto até o Consórcio, onde ele é analisado nos aspectos visual, olfativo e também degustado por um grupo de cinco experts. Obtendo a certificação DOP, o produto é envasado no Consórcio – e não pelo produtor – em garrafas padrão de 100 ml, cujo design foi desenvolvido por Giorgetto Giugiaro, conhecido por desenhar uma série de famosos automóveis italianos. Ao final, o aceto é devolvido ao produtor para ser rotulado. Todo esse procedimento visa controlar e garantir a qualidade do aceto comercializado como Aceto Balsamico Tradizionale di Modena DOP.

Em algumas acetaias, é possível comprar direto do produtor acetos com mais de 50 ou 100 anos, obviamente a preços que correspondem a todo o trabalho e tradição que estão naquele produto. Para se ter uma ideia, uma garrafinha de 100 ml de ABTM de 50 anos, comprada na acetaia, custa em torno de 100 euros. Um produto tão nobre não deve ser usado como condimento; na verdade, recomenda-se que seja adicionado em pequena quantidade na finalização de pratos, tais como filés, carne de porco, risotos ou, como é bastante comum em Módena, provado sobre queijo Parmigiano Reggiano, morangos e até sorvete de baunilha.

Madeiras

Cinco são os tipos de madeira permitidas para a produção do ABTM: cerejeira, amoreira, castanheira, carvalho e zimbro. A escolha da madeira e a ordem de cada tipo na bateria têm influência direta no sabor e aroma do produto final

Obviamente, as acetaias não produzem apenas Aceto Balsamico Tradizionale di Modena DOP. Há uma categoria inferior – mas ainda de alta qualidade e destinado a uso diverso do ABTM – que leva, além do mosto cozido, vinagre de vinho, o chamado Aceto Balsamico IGP, que também deve seguir regras determinadas pelo Consórcio. Os vinagres balsâmicos mais simples e industriais encontrados no mundo, inclusive no Brasil, costumam ter grande porcentagem de vinagre em sua composição e levar caramelo e aromatizantes no lugar do mosto cozido e são, de fato, condimentos.


Região determinada para a produção do Parmigiano Reggiano  compreende as províncias de Parma, Reggio Emilia, Módena, Mântua e Bologna. São necessários 16 litros de leite para a obtenção de 1 quilo de queijo parmesão

O lambrusco e a gastronomia modanesa

Não é possível determinar o que surgiu primeiro em Módena: a tradicional culinária ou o Lambrusco. O mais provável é que os dois tenham se desenvolvido paralelamente. O que se sabe, com certeza, é que o casamento entre a cozinha e a bebida típicas da região é perfeito.

A gastronomia modanesa é bastante rica, baseada em carne suína – especialmente de raça maiale – um pouco calórica e com considerável grau de gordura, embora não seja sentido. Uma especialidade é servir cortes suínos em molho à base de aceto balsâmico, uma combinação ótima.

Em todos os restaurantes da região, o tortellini in brodo é onipresente. Pequeninos, delicadamente moldados um a um, com recheio à base de mortadela, carne suína e especiarias, e servidos em um caldo leve e saboroso, são irresistíveis. A dica é acrescentar um pouco do Lambrusco da sua taça direto no prato, para elevar o sabor do brodo. Também onipresente é o gnocco frito. Em todo lugar é possível pedir uma porção dos “travesseirinhos” – são como um primo distante do nosso pastel, mas a massa é mais leve e menos crocante e o gnocco não leva recheio – cobertos ainda quentes com uma finíssima fatia de prosciutto. Não dá para enjoar.

Iguaria local, o Zampone (pé suíno “recheado” com carne suína condimentada) não pode deixar de ser provado, ainda que inicialmente se torça o nariz para ele. São daqueles pratos que ficam na memória. Risotos parmigianos são elevados por um fio de aceto balsâmico da melhor qualidade. As massas recheadas com ricota são delicadas e muito saborosas. Aqui, os frescos ingredientes locais fazem toda a diferença.

A “salumeria” é um capítulo à parte: lardo, copa, salames, e, claro, Prosciutto di Modena; tudo muito rico, com cura e sal precisos e harmonia entre a carne e a gordura macia. Para quem aprecia queijos, além do Parmigiano Reggiano, a região produz leves e fresquíssimas ricotas, que mais parecem uma nuvem na boca, e também stracchino, por vezes servido com batatas espremidas, azeite e balsâmico. A acidez pronunciada e o caráter frisante do Lambrusco harmonizam por contraste com tudo isso, criando um conjunto agradável e, por que não dizer, auxiliador da digestão.

Fazendo um paralelo com nossa cultura, é possível imaginar que uma taça de Lambrusco DOP acompanharia muito bem um prato de feijoada. Certamente, também cairia como uma luva com um bom leitão mineiro. Vale testar.

Lambrusco harmoniza por contraste  com os ícones da gastronomia local, como os queijos e prosciuttos

Além do Lambrusco e do Aceto Balsamico Tradizionale, Módena confere certificações a outros produtos de excelência, dentre eles, o queijo Parmigiano Reggiano DOP e o Prosciutto di Modena DOP. Na verdade, essas duas iguarias são também reguladas por consórcios próprios e devem obedecer a uma série de especificações, que vão desde a seleção de matéria-prima até o processo de produção e maturação, para obterem o selo de qualidade e serem colocadas no mercado.

O Consórcio do Parmigiano Reggiano existe desde 1934 e reúne todos os produtores da região determinada (províncias de Parma, Reggio Emilia, Módena, Mântua e Bolonha). Os ingredientes são todos naturais, as vacas têm uma dieta especial e o leite é colhido duas vezes ao dia, sendo que são necessários 16 litros de leite para a obtenção de 1 quilo de queijo parmesão. Os métodos de produção e maturação são bastante precisos e apenas os queijos que tiverem atendido rigorosamente a todos os parâmetros e tenham sido aprovados – cada um dos parmesões produzidos é analisado pelo Consórcio – recebem o selo DOP.

Também o Prosciutto di Modena conta com órgão regulador, o Consórcio del Prosciutto di Modena. Tradicionalmente, o presunto era curado em temperatura ambiente, durante todo o ano, sofrendo as alterações naturais de temperatura. Hoje os prosciuttifícios têm suas produções em câmaras que reproduzem as estações do ano. Apenas duas variedades de porco branco, vindas de criadores aprovados e de regiões determinadas do centro-norte da Itália, são utilizadas. A alimentação desses animais é regulamentada pela DOP – normalmente composta de cereais e restos da produção de Parmigiano Reggiano –, assim como todas as fases do processo de cura. Toda a produção leva em torno de 14 meses quando cada pernil é avaliado pela comissão para ser certificado e marcado como DOP.

DICAS DE VIAGEM

  • Para chegar à Módena, o ideal é voar até Bolonha e então alugar um carro e dirigir pelas belas paisagens do interior da Itália. Se não falar italiano, leve um dicionário.
  • Visite a região no outono, quando os vinhedos de Lambrusco adquirem a linda cor vermelha.
  • Agende visitas em vinícolas. Algumas delas têm boa estrutura para receber turistas e até mesmo restaurantes. Vale ir à Villa Cialdini, da vinícola Chiarli, à Azienda Vitivinícola Ca’ Berti, à pequena Agriturismo Cavalieri (cuja pequeníssima produção é biodinâmica e onde a comida, caseira e gostosa, é preparada pela esposa e sogra do proprietário). Outros produtores interessantes são Zanasi, Civ & Civ, Fattoria Moreto e Manicardi.
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    Conheça acetaias, como a Acetaia Boni e a Vecchia Dispensa, esta última com suas baterias mantidas em uma torre que foi uma antiga masmorra na praça central de Castelvetro.
  • Jante no Restaurante Europa 92, o preferido de Luciano Pavarotti, onde “O Maestro” tinha cadeira cativa e, depois do jantar, fique totalmente indeciso entre as dezenas de opções do carrinho de sobremesas. Na dúvida, vá de torta de mascarpone com calda de chocolate e avelãs ou de torta de chocolate e café com creme inglês.
  • Visite o centro da cidade de Módena, de arquitetura singular.
  • Visite Maranello e viva de perto toda a aura da legendária escuderia Ferrari.
  • Coma muito Parmigiano Reggiano com Aceto Balsamico Tradizionale di Modena, tortellini e gnocco frito com Prosciutto di Modena, sempre acompanhados de uma taça de Lambrusco DOP.

DOC Módena Itália Lambrusco frisante tinto doce Emilia-Romagna Piazza Grande

Artigo publicado nesta revista

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